Jovens longe da Igreja – o que podemos fazer?

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Já conhecemos algumas das razões que afastam os jovens da Igreja, mas é necessária uma reflexão mais profunda e mudanças em nossa organização pastoral

Por Pe. Cleiton Viana

Recentemente, duas matérias publicadas em grandes veículos de comunicação (Veja e G1 São Paulo, ambas no dia 09/05/22) apontaram uma tendência que já verificamos em nossas comunidades: o progressivo afastamento ou não engajamento dos jovens na prática de fé. 

Os dados ainda devem ser confirmados com o Censo 2022, mas, segundo um levantamento do Datafolha 2022, principalmente nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, é crescente o número de jovens que se declaram sem religião. Eles têm entre 16 e 24 anos e, em São Paulo, os que se declaram sem religião são 30%, os que se declaram evangélicos 27%, os católicos 24% e os que se declaram de outras experiências religiosas 17%; no Rio de Janeiro, temos: 34% para os sem religião, 32% evangélicos e 17% católicos, e 17% também para os de outras religiões.

As primeiras perguntas

As reportagens levantam perguntas sobre as declarações. Os jovens se declaram sem religião por que hoje, mais do que nunca, se sentem livres para falar de modo diferente dos seus pais? Passam por uma fase de “experimentação”, até que possam fazer uma adesão mais direta a uma experiência religiosa e criar vínculos de pertença? É um fenômeno do momento marcado pelo padrão cultural de consumo e comunicação midiática, de modo que nessa idade terminem seguindo a onda de tantos outros jovens influenciadores?

Uma tendência do mundo atual é certamente experimentar a religião por meio de uma validação pessoal: conservo comigo o que faz sentido para mim. Por isso, é comum encontrar nos jovens elementos de religiões bastante diferentes, e até contrastantes, dentro de uma síntese, para nós mais velhos, um pouco duvidosa. De qualquer modo, todo esse contexto deve nos levar a muita reflexão sobre a transmissão da fé às novas gerações.

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Ao ler essas matérias, minha preocupação não foi o porquê de se declararem sem religião, mas o que nós estamos fazendo para que eles descubram não apenas o Evangelho como também a alegria de vivê-lo em comunidade, como Jesus viveu com seus discípulos. O Evangelho não é um self-service, ele é vinculante e cria comunidade; do contrário, ele se torna apenas uma notícia agradável, mas não boa-nova. Mais do que reflexão, precisamos examinar nossa consciência pessoal e eclesial.

Em busca de um exame de consciência

Qual tem sido o tom principal da vida de nossas comunidades cristãs, começando de nossas famílias? Será que a vida cristã tem sido apresentada e vivida com alegria ou como um peso? O que temos feito em nossas casas e capelas para que delas os jovens se distanciem? Será que é apenas o fato de que o mundo tem se feito mais atraente com seus enganos ou os nossos laços de fé têm se tornado mais fracos? O afastamento dos jovens, lento, discreto e progressivo, é um sinal dos tempos que pode trazer à Igreja um novo encontro com o Senhor e crescer ainda mais como serva de Cristo?

Na exortação apostólica Christus vivit, fruto do sínodo da juventude, o Papa Francisco nos dá um caminho para aprofundar nosso exame de consciência. As perguntas que seguem emergem do número 40 da Christus vivit, e com os comentários tento aprofundar a questão relacionando-a com todos nós, educadores na fé.

“O que levou nossa vida cristã a perder significado para esses jovens?” Como padre, já testemunhei a inquietação de jovens que viam seus pais atuarem nas pastorais como fuga dos conflitos em casa; jovens que sofriam porque os pais que viam na comunidade não eram os mesmos na vivência doméstica, ou jovens que nunca podiam contar com seus pais porque eles estavam muito comprometidos com os compromissos da comunidade. 

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“Quando foi que nossas missas, nossos terços e convites se tornaram uma importunação aos nossos jovens?” Já ouvi muitas vezes de jovens que tiveram de acompanhar seus pais em uma novena inteira “para aprenderem a se comportar”… Será que temos tratado coisas tão importantes como instrumento de poder ou punição sobre os jovens?

“O quanto nós, pastores, pais e educadores na fé, realmente vivemos o que cremos e pregamos? O quanto cremos de fato naquilo que proclamamos aos mais jovens?” Sempre há espaço para crescer na coerência e renovar nossa fé, mas os jovens são excelentes em detectar nossa hipocrisia. E talvez a maior hipocrisia seja nos apresentar como anunciadores de uma boa notícia se fazemos isso como um fardo ou medo de algum castigo.

“Qual tem sido a qualidade de nossas homilias e catequeses?” Talvez aqui seja a síntese e a causa de várias dessas questões anteriores. Temos certeza de que sempre teremos crianças e jovens em nossas catequeses ou mesmo missas; isso nos faz cuidar mais ainda do que fazemos ou não nos preocupamos com a qualidade do que fazemos? Muitas vezes já ouvimos dizer: “A porta está à serventia da casa…” E hoje assistimos a muitos partirem.

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“O que queremos dos jovens em nossas comunidades?” Talvez o tema do papel passivo que o Papa menciona na exortação seja um ponto a ser bastante discutido. Será que desejamos que os jovens apenas perpetuem tudo o que fazemos? Será que sabemos reconhecer que, ao chegarem conosco, nada permanece como está? Anos atrás ouvi de um jovem que seu grupo só era lembrado quando precisavam de voluntários para arrastar bancos na igreja.

Uma Igreja que acolhe, escuta, acompanha e discerne

Os números que demonstram a tendência de jovens sem religião ou “desigrejados” precisam muito ser levados a sério. Da nossa parte, como evangelizadores, não se trata de aplaudir tudo o que os jovens pensam, desejam ou imaginam, mas de sermos capazes de acolher, escutar, acompanhar e discernir. Na verdade, estes verbos sempre se repetem nas falas e nos documentos do Papa Francisco. O Evangelho tem uma força de renovação imensa, mas deve ser anunciado tal como ele é. Peçamos sempre ao Espírito Santo que nos conduza nessa missão.

Pe Cleiton Silva é doutor em Teologia Moral, pároco, pós-graduado em Marketing e Mídias digitais, professor na Faculdade Paulo VI, em Mogi das Cruzes, e autor dos livros Confessar e Coração inquieto, publicados por Paulinas Editora. Gosta muito de futebol, de cozinhar e de participar das redes sociais, para comunicar as riquezas da fé. https://www.flowcode.com/page/pecleitonsilva

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