A vocação universal à santidade

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Evangelho – Mt 5,1-12a

Por Zuleica Silvano, fsp

A santidade tem sua raiz na graça batismal, quando santificados pelo Espírito Santo. Assim, ser santo(a) não é algo longe do nosso dia a dia, de nossa vida familiar. O Evangelho de hoje nos faz recordar as palavras do Papa Francisco em sua Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate: “Se um de nós se questionar sobre como fazer para chegar a ser um bom cristão, a resposta é simples: é necessário fazer […] aquilo que Jesus disse no sermão da bem-aventurança” (GE 63). De fato, ser santo é viver como filhos de Deus, deixar-se transformar, entregar-se à vivência do amor, tendo como programa de vida as bem-aventuranças.

As bem-aventuranças (cf. Mt 5,1-12a) marcam o início dos discursos sobre o Reino de Deus no Evangelho segundo Mateus. Os interlocutores dessa mensagem são todas as nações (cf. Mt 4,25). Elas são o resultado daquilo que é constatado após uma sequência de fatos; assim, é algo que fala de nosso agir no presente.

 Esse discurso é o alegre anúncio do Reino de Deus, dirigido ao povo pobre, oprimido, indefeso, marginalizado, os aflitos. Em Cristo, Deus vem para defender, consolar, acolher, ouvir novamente o clamor do povo. Desse modo, as bem-aventuranças descrevem o modo cristão de viver o seguimento de Jesus, de estar em comunidade, em família. É um convite a uma mudança de mentalidade, tendo como critério a novidade do Reino, que nos desconcerta, visto que são chamados de “felizes” aqueles que a sociedade despreza, exclui, os considerados “infelizes”.

As bem-aventuranças

A primeira bem-aventurança é dirigida aos “pobres de espírito”; no entanto, não podemos interpretá-los como sendo aqueles que toleram passivamente a pobreza. “Pobre” é a pessoa que tem consciência de sua total dependência de Deus. Por isso, está disponível a cumprir sua vontade, pois tem consciência de que não é possível colocar sua confiança na riqueza ou nos bens.

No texto de Mt 5,1-11, chama a atenção a relação existente entre “os pobres de espírito” (cf. v. 3) e os que “vivem perseguidos por causa da justiça” (cf. v. 10), pois ambos têm como herança o Reino de Deus. Desse modo, é legítimo afirmar que os “pobres de espírito” são aqueles perseguidos por causa da justiça (cf. Mt 25,34-40). Assim, os “pobres em espírito” são também os solidários, dóceis à Palavra e abertos à incessante novidade de Deus.

Os aflitos, contemplados na segunda bem-aventurança, são os que sofrem por causa das forças do mal, que são vítimas da opressão e da violência. Esses serão consolados, sendo o ato de consolar uma das funções da missão profética (cf. Is 61,1-2).

A terceira bem-aventurança está baseada no Sl 37,11, quando menciona os injustamente desapropriados de suas terras. Por isso, podemos traduzir por felizes os oprimidos, os fracos, os que se encontram em condições lastimáveis e que percebem no anúncio de Jesus que é possível restituir sua dignidade e contar com a partilha.

Os que têm fome e sede de justiça são aqueles que optaram por viver a justiça de tal forma que perpassa seu modo de ser, de pensar, de agir. Justiça é um termo relacional e consiste numa adequada relação com Deus, com o próximo e consigo mesmo. É alguém que se deixa configurar a Cristo, que vive no processo de humanização de suas relações.

A bem-aventurança seguinte é centrada na misericórdia, que se expressa na compaixão para com o outro por meio de gestos concretos e pelo perdão nas relações comunitárias e familiares.

A expressão “os que promovem a paz” pode ser interpretada como sendo os justos, por terem uma vida perpassada por valores éticos. Trabalhar pela paz, portanto, é ser um colaborador de Deus na construção de seu Reino.

O ser perseguido é a experiência dos cristãos, membros das comunidades cristãs primitivas, como é o caso da comunidade de Mateus, por serem seguidores do Mestre Jesus e fiéis às suas palavras e aos seus gestos.

Nosso compromisso

As leituras desta solene festa de todos os santos e santas nos ajudam a compreender a vocação universal à santidade. Ser santo(a) significa viver profundamente nosso ser batizado(a), que é um dom, uma graça recebida de Deus, mas supõe uma resposta, um compromisso com o Reino de Deus, e ter a vida pautada pelas bem-aventuranças.

Batismo
Pixabay.com/Altnet

Neste dia somos convidados(as) a fazer memória dos santos, santas (canonizados ou não) e dos mártires da América Latina, que tão bem souberam viver as bem-aventuranças e expressá-las nos pequenos gestos no cotidiano. Para refletir podemos nos perguntar: diante dessas bem-aventuranças, qual é a que mais transparece no seio da nossa família? Qual dessas bem-aventuranças poderíamos nos propor para vivê-la com maior intensidade em nossa casa, no trabalho, com as pessoas que convivemos?

Zuleica Silvano é irmã paulina; doutora em Sagrada Escritura; assessora no SAB (https://paulinascursos.com/sab/); pertence ao departamento de Teologia da FAJE (Faculdade Jesuíta de Teologia e Filosofia); e é autora de diversos livros, dentre os quais: Carta aos Gálatas: até que Cristo se forme em nós (Gl 4,19), lançado por Paulinas. É também coordenadora do Grupo Shema’, que elaborou o subsídio do Mês da Bíblia de 2021 – Carta aos Gálatas: “Todos vós sois um só em Cristo Jesus” (cf. Gl 3,28d).

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