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Por Jaqueline Bandeira

Como identificar a Síndrome do Pânico e evitar os gatilhos que provocam sintomas físicos e emocionais

A chegada de um bebê sempre desperta muitos sentimentos. Mas, para a surpresa da assistente social Patrícia Nayara de Figueiredo Saraiva, de 40 anos, a chegada da filha, sete anos atrás, também trouxe sensações que ela não tinha previsto. Tudo começou uma semana depois. Às vésperas de uma consulta com o pediatra, vieram os primeiros sintomas. “Acordei de madrugada com taquicardia, respiração ofegante, na ansiedade de como seria essa volta na consulta”, descreveu Patrícia. A princípio, a assistente social ligou esses sintomas ao chamado baby blues, que gera sensações de tristeza e apatia, causadas pela forte oscilação hormonal no corpo da mulher puérpera.

Porém, o tempo passou e os sintomas voltaram a aparecer. Em novembro do ano passado, ficaram mais frequentes os momentos de medo, calafrios, impaciência, inquietação. A princípio Patrícia interpretou essa “agonia” como uma reação natural aos problemas rotineiros. Mas ela percebeu um padrão que ficou muito evidente em um episódio no trabalho que demandou dela muito esforço e responsabilidade. “Estava bem e, do nada, comecei a sentir medo, chorei muito, minha respiração ficou ofegante, o coração acelerado, isso foi muito difícil”, relatou Patrícia. A mudança brusca de sentimentos aconteceu em meio a um evento de inauguração e num intervalo de poucos minutos. O que parecia ser nervosismo era, na verdade, crise de pânico.

Medo intenso desproporcional à situação                               

Na bibliografia médica, a Síndrome do Pânico é descrita como um transtorno de ansiedade que gera ataque de medo intenso. A causa pode estar relacionada a uma carga genética pré-existente associada a algum fator externo, ou seja, situações que atuam como gatilho para essa predisposição. Apesar disso, qualquer pessoa pode desenvolver a doença. As pesquisas apontam que a incidência é mais comum em mulheres em idade adulta, por conta da variação hormonal.

A psicóloga Chayenne Camaroti fala que a Síndrome do Pânico “se caracteriza por um medo excessivo diante de alguma situação que gere uma sensação de perda de controle; é uma emoção muito intensa”. Aqui é importante ressaltar que o medo é saudável, evita que sejamos expostos a riscos. Mas, quando é desproporcional à situação, se torna patológico. A Síndrome do Pânico é um medo sem um determinado alvo: “É um medo de morrer, medo de perder o controle da situação, medo de ser engolido por algum tipo de crise que está sofrendo”, complementa Chayenne.

Felipe Cespedes – Pexels

Síndrome do Pânico não está relacionada à falta de fé

Além dos sintomas físicos descritos por Patrícia Saraiva lá no começo da reportagem, a Síndrome do Pânico também provoca baixa autoestima, desmotivação, transtorno depressivo. Esse conjunto de fatores tem impacto na produtividade, na alimentação e até no sono. Por isso a importância de procurar ajuda com um psicólogo e com um médico psiquiatra. O tratamento da doença envolve terapia e uso de medicamentos à base de ansiolíticos e antidepressivos.

De acordo com uma pesquisa do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), no Brasil, cerca de 12% da população tem algum transtorno de ansiedade, mas o tema ainda é tratado como tabu. Não raramente ouvimos, por exemplo, pessoas afirmarem que o acometimento de problemas psicológicos está atrelado à falta de fé. Porém, fazer essa associação é incorrer em um erro grave.

O psicólogo Douglas Oliveira explica que o ser humano é um ser multidimensional: é corpo, mente, espiritualidade e relacionamento social. Cada parte é essencial e nenhuma dessas dimensões pode ser excluída ou desprezada. “Nós nunca dizemos que é falta de fé quando alguém adoece do corpo. E por que, quando alguém adoece da mente, é falta de fé, se as dimensões são igualmente importantes?”, ele questiona.

Conviver com a doença não é fácil, mas é possível. As pessoas que estão ao redor de alguém diagnosticado com a Síndrome do Pânico podem ser aliadas no tratamento. Falar abertamente e não julgar o sofrimento – mesmo que os medos sejam tão sem sentido ou absurdos – são atitudes que criam uma rede de apoio essencial para que o paciente consiga enfrentar a doença.

No caso de Patrícia Saraiva, ela afirma que, hoje, lida muito melhor com as situações que podem desencadear uma crise, graças ao acompanhamento profissional e à ajuda de amigas que vivem a mesma realidade. Com o que aprendeu até aqui, ela incentiva outras pessoas a olharem para si mesmas com carinho e cuidado. “A gente precisa ser mais gentil conosco, precisa ser realmente muito cordial com a gente, respeitar esses sentimentos, identificar as questões que nos deixam assim e saber que cada um tem a sua resistência”, aconselha.

Jaqueline Bandeira é jornalista e repórter de TV há 7 anos. Todos os dias anseia por contar boas histórias e conhecer gente de verdade. Ama comida caseira e cheiro de campo. Curte um almoço de domingo com casa cheia, com a mesma intensidade com que assiste a um filme na paz de um fim de tarde.

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