Um vírus letal que se espalha mesmo em tempos de distanciamento social

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Por Jossan Karsten

O termo é em inglês, mas, na maior parte do mundo, já se tornou lugar-comum quando se referem a notícias falsas. De uns anos para cá, as fake news, assim como um vírus sem cura, chegaram para ficar em meio a uma população que a cada dia torna suas atividades cada vez mais voltadas para o meio digital.

Já está provado que, além de atrapalhar a vida da população no dia a dia, as fake news causam imenso impacto na saúde das pessoas, tanto física como psicologicamente.

Arquivo Pessoal

Mylena Bini tem 25 anos, é médica e se formou em 2019 pelo Centro Universitário Ingá. Atualmente, ela trabalha no Centro de Apoio Psicossocial – Álcool e Outras Drogas (CAPS AD III), em Guarapuava (PR). De acordo com ela, a pandemia de coronavírus trouxe uma grande mudança de comportamento para todas as pessoas, e as adaptações vão continuar pelos próximos anos.

“Ainda é muito cedo para se assimilar e avaliar tudo o que está acontecendo. As coisas ocorrem com muita rapidez. É claro que todos os profissionais de saúde sabiam que, mais dia, menos dia, a pandemia iria chegar até nós.  Mas o que não imaginávamos era a agressividade que o vírus tem. Uma coisa que eu não esqueço é que, quando tudo fechou, fiquei muito preocupada. Alguns não morrem pelo vírus, mas por outras doenças, que não deixaram de existir. E, pelo medo do vírus, muita gente acabou morrendo em casa. O medo foi o que mais impactou nesse processo todo”, pontuou Mylena.

Arquivo Pessoal

Em entrevista para esta reportagem, o sacerdote diocesano e pároco da paróquia Sant’Ana, em Pitanga (PR), padre Gilson José Dembinski, falou sobre esse problema e sobre seu resultado nocivo.

Padre Gilson tem 38 anos de idade e há 11 anos foi ordenado presbítero. Possui especialização em Teologia Bíblica e Ensino Religioso, Orientação Espiritual e Aconselhamento Pastoral.

Além das atividades no dia a dia como religioso, padre Gilson desenvolve diversos trabalhos voltados às pessoas, com foco na espiritualidade e evangelização, tais como visitas às casas e atendimento individual através da Pastoral da Escuta. “Aqui na paróquia, temos uma psicóloga contratada para trabalhar na Pastoral da Escuta. Mas, como padre, ofereço suporte espiritual”, contou padre Gilson.

De acordo com o sacerdote, a Pastoral da Escuta da paróquia Sant’Ana atende em média 50 pessoas por semana, e muitos dos problemas têm a ver com mensagens falsas disseminadas pela internet, principalmente pelas redes sociais.

Como em todas as comunidades, a notícia de que o mundo estava (e está) passando por uma pandemia foi facilmente assimilada pelos paroquianos da paróquia Sant’Ana. Porém, conforme sublinha o pároco, cada pessoa entendeu e absorveu a situação de forma diferente, e, nessas divergências, outros problemas foram criados, impactando diretamente a vida de cada um. “Eu considero que o problema foi assimilado com facilidade. Chegou a notícia e pronto, as pessoas entenderam do que se tratava. Por um lado, houve muitas divergências na própria comunidade, mas, por outro, surgiram pessoas com ideias totalmente extremistas”, pontuou o pároco.

Redes sociais

Saulo Mohana – Unsplash

Com a facilidade de acesso às redes sociais, muitos assuntos considerados de pouca relevância para a sociedade passaram a ocupar lugar de destaque nas discussões. Na maioria dos casos, houve a inversão de informações, tornando, portanto, explícitas as fake news.

Para a médica Mylena, as redes sociais, não só na pandemia, mas na maioria das vezes, se tornam um grande problema para toda a sociedade, pela capacidade de espalhar mensagens, nem sempre verdadeiras, a respeito de diversos assuntos. “Antes e durante a pandemia, eu vi e vejo as redes sociais como um grande problema. Muita gente acredita no que é mostrado, sem checar as fontes”, sublinha Mylena.

Padre Gilson reforça que não há como negar a influência das redes sociais na vida das pessoas, principalmente neste período de pandemia. Assim como a médica, ele pede cuidado e paciência quanto à checagem das informações. “A influência das redes sociais na vida das pessoas é muito grande e isso não se mostrou apenas agora, com a pandemia. Isso vem de longa data”, relembra padre Gilson.

Vacinas

Nunca se falou e se torceu tanto pela existência de uma vacina como ocorre agora com a vacina preventiva ao coronavírus. Atualmente, são mais de 150 candidatas à imunização, sendo que, destas, mais de dez já estão na fase três de pesquisas, que é a última antes da aplicação em massa.

Muitas pessoas, segundo especialistas, em um ato de otimismo exacerbado, acabam por acreditar que a vacina solucionaria todos os problemas, o que não vai ocorrer, de acordo com os mesmos especialistas.

À reportagem, padre Gilson pontuou que o excesso de informações ao mesmo tempo faz com que as pessoas se sintam bombardeadas e, na maioria das vezes, não tenham a menor condição de filtrar ou de verificar se o conteúdo é verdadeiro ou não.

“Vivemos em um tempo das exigências. As pessoas precisam cuidar da família, do trabalho etc. E as informações são jogadas, disseminadas em grande quantidade e ao mesmo tempo. Cada pessoa tem suas crenças, valores, e já está pré-disposta a acreditar em uma coisa ou outra. Nossa mente tende a negar tudo aquilo que fere a nossa visão de mundo. Ninguém suporta incongruência. O conselho é para que ninguém desligue o fator crítico. As perguntas e questionamentos são fundamentais. Checar é necessário. Quem não questiona está aberto a ser hipnotizado”, assegurou o sacerdote.

Mylena se diz muito cautelosa quanto às vacinas, pois se trata de algo novo e que precisa ser certificado pelas autoridades em todo o mundo quanto à sua eficácia. A médica pontua, ainda, que uma possível vacina não elimina todos os problemas relacionados ao coronavírus, pois, para que as doses sejam aplicadas, há muitos critérios a serem seguidos.

“Uma vacina não vai solucionar todos os problemas. Quando existir uma vacina, ela vai ser distribuída, primeiramente, aos grupos de risco. Nossa população é muito grande, e os grupos de risco também são enormes. Ainda não se sabe quando a vacina vem e se é eficaz cem por cento ou não. Então, não vamos acreditar em tudo o que a gente vê ou lê. Vamos com calma, com cautela”, finaliza.

Jossan Karsten é escritor, jornalista e publicitário. Tem 13 livros publicados, além de roteiros para TV, cinema e teatro. Fomenta a paixão pela literatura, ciclismo e animais. Há cinco anos, atua como assessor de comunicação na diocese de Guarapuava (PR).

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