Porque é você!

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Por Vinícius Costa Pinto

Métodos psicológicos, filosofia e música. Como a amizade é explicada, e vista, por diferentes campos do conhecimento e da cultura. E você, como vê a amizade?

Gesticulando de forma tranquila, o cantor e compositor Chico Buarque explica o título da música “Porque era ela, porque era eu”. Em menos de três minutos de vídeo, conta como o livro Ensaios (1580), do filósofo francês Michel de Montaigne, foi importante. “Coisa mais simples e definitiva, ele anotou uma frase lá ‘porque era ele, e era eu’. E ponto!”. O trecho citado é sobre o também pensador, contemporâneo e conterrâneo de Montaigne, Etiénne de La Boétie.

Acontece que os dois autores do século XVI eram amigos. Montaigne dedicou o capítulo “Da amizade” dessa obra para La Boétie, que havia falecido.

Como vai você?

Mas esperem um pouco! Estamos em um café filosófico? Algum tipo de conteúdo para estudar fora de sala? Não, nós continuamos falando sobre amizade. Isso mesmo! É que o conceito foi trabalhado, e ainda é, por várias áreas científicas, como a Filosofia.

“A amizade na Filosofia se caracteriza, em geral, como sendo a comunhão entre duas ou mais pessoas ligadas por atitudes concordantes e afetos positivos”, resume o professor de Teologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) frei Boccatus Andrea.

Com pesquisas e publicações na área de ética cristã, teologia moral, moral sexual e bioética, admite que, sobre esse assunto, se familiariza mais com o filósofo grego Aristóteles (século X a.C.), para quem amizade é uma virtude, ou algo que se relacione a ela:

“O que há de mais necessário à vida, uma vez que os bens oferecidos, como riqueza, poder, não podem ser conservados nem usados sem os amigos”, elabora Andrea.

Mariana Moreira, estudante de Cinema de 19 anos, concorda com essa necessidade: “Acredito que seja uma das coisas mais importantes na vida de alguém. Para mim não é diferente, todas as minhas relações, familiares ou amorosas, têm uma base maior na amizade, que fortalece qualquer tipo de relação”.

A amizade presente nos diversos momentos da vida

E não é necessário ser filósofo para chegar a conclusões semelhantes! O barista Ilvor Sauer, 46 anos, tem um palpite muito próximo da argumentação aristotélica: “Acho que nos alimentamos, de alguma maneira, do outro”. Sobre familiaridades, destaca ambientes e atividades em comum: “Acho que encontros sociais são ótimos: um café, happy hour, futebol, cinema e sinuca. São ambientes amigos”. 

Eric Berne, psiquiatra canadense, desenvolveu, na segunda metade do século XX, a Análise Transacional, um método psicológico que estuda a relação de estímulos e respostas, ou transações, entre indivíduos.

Michelle Thomé, coach sistêmica e analista transacional nas áreas educacional e organizacional, exemplifica: “É um encontro entre pessoas que querem compartilhar a vida, mantendo-se cada uma em seu núcleo, ou seja, não há a intenção inicial de formar uma nova família”, o que nos permite ter nosso espaço particular e formar laços para diferentes momentos. Por exemplo: “Há amigos para rir, amigos para chorar, para estudar, para trabalhar. Diferentes afinidades e geografias em comum geram proximidade”, ressalta Thomé.

Ainda de acordo com esse método, nossas necessidades relacionais são os fatores para a construção desse tipo de relacionamento. A analista afirma: “Buscamos relacionamentos para atender às nossas necessidades de reconhecimento, estímulo e estruturação do tempo. Quando a amizade está caracterizada e fortalecida, há uma tendência de o indivíduo ir para o encontro da relação com espontaneidade e afeto”. O reconhecimento pode se dar pelas afinidades, que são “faíscas, os ganchos iniciais, para o interesse mútuo. O mais comum é reconhecer no outro algo que é meu e que eu goste”.

Esse tipo de afinidade pode ser demonstrado na prática. Mariana afirma que as pautas feministas, com as quais se identifica e pelas quais milita, acontecem dessa forma: “Foram muito importantes nesse sentido para mim, principalmente porque conheci o feminismo através de amigas. Gosto muito dessa visão, que eu percebi muito presente, principalmente nas redes sociais, de que somos melhores juntas”. Ela afirma que a sororidade, conceito que é a cumplicidade e companheirismo entre mulheres, também é perpassado pelos relacionamentos, é “algo que visa acabar com a rivalidade feminina que nos foi ensinada desde sempre. Podemos prestar solidariedade umas às outras e assim por diante”, finaliza.

Ekaterina Bolovtsova – Pexels

Amizade em tempos de relação digital

E como nós ficamos durante a era das redes sociais? O barista Ilvor, com mais de 1.600 seguidores na rede social Instagram, mesmo que hesitante, tem a opinião de que as plataformas não substituem a moda antiga: “Não acredito que amigo virtual seja algo real. A melhor ainda é a real”.

“Um ponto negativo é a falsa sensação de ter centenas ou milhares de amigos nas redes sociais. São contatos, não são amigos”, afirma Thomé. No entanto, existem facilidades que não havia no passado. “Hoje está tão mais fácil e rápido dialogar! E é possível escolher se quer fazer isso por escrito, usando somente voz ou com imagem e voz. Quando estabeleci as primeiras amizades com crianças que não moravam na mesma cidade que eu, a única possibilidade ao meu alcance era escrever cartas”, conclui.

Mas não é bom receber aquele like da pessoa querida? Mais jovem e já crescida em ambiente digital, Mariana relata alguns problemas de ansiedade devido às redes sociais, mas afirma que, com maturidade, conseguiu trabalhar essa necessidade de afirmação: “Hoje, percebo que não preciso desse tipo de confirmação o tempo todo”.

Durante a pandemia do novo coronavírus, a internet ajudou muito. A analista transacional destaca que você pode manter-se próximo de quem está geograficamente distante de você.

E aí, percebeu como a amizade não está tão distante assim de filosofia e música popular? Do século XVI ao XXI, ainda gostamos de compartilhar, de trocar coisas, de nos abrir com outros. Já mandou um “oi” para alguém de quem você gosta hoje? Dê importância a si mesmo e ao outro. Porque é você!

Vinícius Costa Pinto é formado em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Gosta muito de cinema e música.

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