A luta para adaptar o trabalho em tempos de pandemia

Artigos Recentes

Dois anos sem reparação das famílias em Brumadinho

Comunidades inteiramente atingidas pelo rompimento da barragem continuam sendo violadas em seus direitos...

Jovens mantêm esperança no trabalho

“Empreender não foi uma falta de opção, foi uma escolha. Saímos dos nossos empregos e abrimos mão de uma carreira para empreender...

Por Gilmar Montargil

A chegada da pandemia

Em Wuhan, uma cidade de 11 milhões de habitantes, localizada na região central da China, explode, no final de 2019, uma contaminação com um novo tipo de coronavírus (Sars-Cov-2). De início, o problema parecia distante e destinado somente ao continente asiático, porém a pandemia se alastrou com intensidade e chegou ao Brasil por meio de turistas retornando de países como Itália e Estados Unidos, sendo notificado o primeiro caso pelo Ministério da Saúde em 26 de fevereiro de 2020. A partir desse momento, o vírus passou a circular em território nacional, passando rapidamente de uma fase de contaminação de familiares e amigos para contaminações ocorridas no ambiente profissional, no transporte e em outros espaços do convívio social, impossibilitando identificar a origem da contaminação, isto é, colocando os indivíduos em um estado de alerta.

Nesse contexto, foi necessária uma reconfiguração da vida, com uma cisão repentina em que o contato físico foi reduzido ao mínimo por meio de instruções e decretos, cidades esvaziadas e reordenamento do trabalho. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o impacto da pandemia na taxa de desemprego foi de um aumento de 27,6%, obrigando adaptações com as tecnologias digitais para manter o trabalho e reinvenção, no caso daqueles que perderam a renda.

Adaptando-se ao contexto pandêmico

A jornalista e assessora de imprensa Adriana Barquilha revela que a chegada da pandemia forçou um reordenamento do trabalho. “Nos primeiros dias da pandemia, em março, a equipe da minha agência conversou e ficou decidido que era melhor para cada um trabalhar em casa”, reforça Barquilha.

Porém, nem todos os profissionais estão preparados para o home office, por vários motivos, entre eles a convivência com a família, os afazeres domésticos, a fácil distração com outras atividades e a ausência de um espaço adequado para a realização do trabalho.

Adriana conta que seu principal problema no início foi não ter um espaço para trabalhar, pois, apesar de possuir um computador pessoal, não tinha uma mesa e uma cadeira adequadas, o que lhe causou algumas dores e problemas de saúde. No entanto, apesar do empecilho, a jornalista revela que organizou o espaço da própria casa para que o trabalho ficasse confortável. O fluxo do trabalho também mudou, sendo realizado com toda a equipe on-line, com um afrouxamento no horário em que o funcionário efetivamente entrava e saía do expediente; a jornalista, por exemplo, confirma a preferência por entrar algumas horas mais tarde. Se antes Adriana estava diante do computador da empresa, atendendo clientes e indo a reuniões presenciais, agora ela resolve tudo de dentro do próprio apartamento.

“É um período de readaptação para todo mundo. Tanto para nós como para os clientes, e outros segmentos de serviços. Vejo que no meu trabalho, hoje, não há necessidade alguma de ficar indo ao escritório, de trabalhar lá, com o computador da empresa. Acredito que trabalho melhor de casa. Desde que você ajuste alguns detalhes, todo mundo sai ganhando.”

O mesmo aconteceu com a professora da rede pública de ensino de Curitiba (PR) Eveline do Rocio de Oliveira, que foi obrigada, em um curto prazo, a lidar com as novas tecnologias digitais, como as transmissões on-line, para continuar dando aula e chamando a atenção dos alunos, promovendo atividades interativas como o “passeio virtual” pela cidade. “Apesar de um momento de caos, é um momento de esperança”, diz a professora.

Renovando-se diante das dificuldades

Carlos Magno B – Unsplash

Existem pessoas que foram obrigadas a superar as dificuldades após a perda do emprego. Phablo Gavilak, por exemplo, viu-se sem o emprego no início da pandemia e precisou buscar uma nova renda, trabalhando como cabeleireiro e com a venda de máscaras e guloseimas. “Foi um momento difícil, em que tive de me virar nos trinta e diversificar as minhas atividades para garantir o mínimo de renda.” Já a produtora audiovisual Maria Eduarda Freitas conta que, pouco antes da pandemia chegar, tinha conseguido um emprego novo em uma escola em Curitiba. “Era meu ramo”, afirma ela. Porém, assim que a pandemia chegou, a escola entrou em modo de aula on-line e dispensou a maior parte dos funcionários, entre eles Maria Eduarda. Desempregada, passou a viver com as poucas economias que tinha guardado, na esperança de que a pandemia acabasse logo e pudesse arrumar algum emprego na própria área de atuação. “Eu fiquei com a expectativa de passar rápido, três meses, vou aguentar as dificuldades aqui em Curitiba e depois passa, pensei”.

Após algumas semanas, Maria Eduarda se deu conta de que a melhor opção era voltar para Ourinhos, sua cidade natal no interior de São Paulo. Novamente convivendo com a avó, percorreu as ruas da cidade batendo de porta em porta em busca de emprego. Mas o que a produtora não sabia era que o alento estava na própria rua de casa. Por meio da mãe de um amigo, conseguiu um emprego na área administrativa de uma oficina de caminhões. No entanto, por conta da pandemia, Maria Eduarda exerceu um papel mais do que esperado na empresa, atuando também na linha de frente.

“Eram quatro pessoas ao todo, eu ficava no escritório, porém as responsabilidades foram aumentando, tive de conhecer as ferramentas, aprender a fazer o orçamento delas, buscar e controlar as ferramentas que eram solicitadas, ou seja, eram várias tarefas que eu realizava no dia a dia”, afirma Freitas.

Para complementar a renda, Maria Eduarda percebeu que poderia trabalhar com edição de vídeos e imagens para empresas da região de Ourinhos, dada a carência de mão de obra especializada nessa área, atuando em todas as etapas da produção audiovisual, da criação do roteiro e gravação até a montagem final feita por softwares no computador. “Eu percebi que eu poderia fazer os meus próprios vídeos.” Dessa forma, a produtora audiovisual se reinventou na pandemia e conseguiu manter uma renda razoável.

Perspectivas para o futuro

Apesar das dificuldades de organizar o trabalho e manter a renda em tempos de pandemia, a psicóloga Ana Paula Vieira do Nascimento Calábria reforça a necessidade de ter perspectivas para o futuro, destacando o cuidado que a sociedade deve ter com a angústia. “A gente pode pensar a pandemia como angústia, não é algo ruim ou bom, mas, como tudo na vida, a angústia em excesso pode causar sofrimento.” Para a psicóloga, é um momento de cuidar e se adaptar a esse novo mundo em que novas relações entre as pessoas, com a própria casa e com o próprio trabalho são necessárias.

Gilmar Montargil é jornalista e mestre em Estudos de Linguagens pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Gosta de pesquisar e escrever sobre temas como comunicação e literatura.

Deixe seu comentário

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

error: Ação desabilitada