Voluntários: multiplicadores do bem

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Exemplo de instituição do Rio de Janeiro mostra como o voluntariado inspira e contagia as pessoas

Por Christiane Sales

Sabe aquela ação que contagia e vai alcançando várias pessoas como uma verdadeira corrente do bem? Que começa com um, envolve a família, cresce, atinge outras pessoas e, quando se dá conta, gerou um efeito multiplicador? Pois foi dessa forma que surgiu o Instituto Programando o Amanhã, uma instituição que oferece aulas de programação e mentoria em gestão de carreira e projeto de vida para jovens do Ensino Médio.

O trabalho começou com Marcos Siliprandi oferecendo aulas de programação para jovens assistidos pela Paróquia de Santa Luzia, no bairro de Honório Gurgel, no Rio de Janeiro (RJ). Foram dois anos até que esse trabalho começasse a chamar a atenção da sua filha Aline. Formada em Serviço Social, Aline tinha o sonho de trabalhar com o terceiro setor. “Comecei pensando em possibilidades de como seria me especializar em Responsabilidade Social para poder trabalhar com consultorias para empresas do terceiro setor. Mas me decepcionei com o processo; fui vendo que a parte de Responsabilidade Social era muito burocrática e eu queria colocar a mão na massa, queria ver as vidas sendo transformadas”, conta.

Foi aí que Aline teve a ideia: ampliar o trabalho já desenvolvido pelo pai. “Aqui no Rio, existe uma demanda de Jovem Aprendiz. Os jovens saem do Ensino Médio já querendo ser inseridos no mercado de trabalho, mas nem sempre com uma boa estratégia. Pesquisando e conversando com alguns jovens, percebi que a maior dor que eles têm é sobre o que vão fazer da vida, qualserá a carreira profissional que seguirão. Então, aliando o trabalho do meu pai, a ideia foi criar um Instituto com uma estrutura em que a gente pudesse trabalhar a tecnologia com uma visão de futuro, de que ela precisa ser democratizada e chegar às periferias, e com uma dinâmica de mentoria de carreira. A intenção é levar esses jovens a trabalhar no que eles querem para que não fiquem só à mercê dos acontecimentos. Levá-los a realmente lutarem pelo que querem”, explica Aline.

De Marcos a Aline, o projeto chegou a Mariana Novaes. Uma jovem de 18 anos que, como os jovens atendidos pelo instituto, não tinha uma carreira profissional definida, mas sonhava em trabalhar como designer. Mariana se engajou como voluntária e foi no dia a dia da instituição que desenvolveu as habilidades profissionais. “Eu vejo que, no voluntariado, a minha disposição se transformou em uma profissionalização, porque hoje eu sou designer, trabalho com isso como freelancer, e foi graças ao trabalho voluntário”, lembra Mariana. “Tenho uma amiga, Mariana Barbosa, que começou a participar do instituto como voluntária devido ao que eu contava sobre minhas experiências lá. Ela acompanhou a minha trajetória desde o início e resolveu se engajar também”, acrescenta.

Marcos, Aline, Mariana e Mariana. O efeito multiplicador foi crescendo e hoje a ação conta com 31 voluntários engajados. Mas o exemplo do Instituto Programando o Amanhã é apenas uma pequena amostragem dos milhares de brasileiros que integram essa corrente do bem.

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), referentes a 2019, mostram que 6,9 milhões de pessoas de 14 anos de idade ou mais realizaram algum tipo de trabalho voluntário no ano passado. Na comparação com o ano anterior, a pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revela uma queda de 300 mil pessoas.

Apesar da queda, a média de horas dedicadas ao trabalho voluntário cresceu de 6,5 horas para 6,6 horas semanais entre 2018 e 2019. No comparativo entre as regiões do Brasil, o Sudeste foi a única área a apresentar redução na média de horas dedicadas ao trabalho voluntário, de 0,3 horas por semana, no ano passado.

Os dados, porém, são de antes da pandemia, que provocou ondas de solidariedade por todo o Brasil.

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Voluntariado

Na definição do IBGE, trabalho voluntário é “aquele não compulsório, realizado por pelo menos uma hora na semana de referência, sem receber nenhuma remuneração em dinheiro ou benefícios, com o objetivo de produzir bens ou serviços para terceiros, isto é, pessoas não moradoras do domicílio e não parentes”.

Uma das características desse tipo de trabalho é que ele possui o efeito multiplicador, uma capacidade de produzir uma corrente do bem. Trata-se de um conceito econômico que explica que, quando uma ação influi na economia, pode acontecer um efeito em cadeia em relação a outras pessoas e empresas. E isso gera uma influência muito maior do que a provocada inicialmente.

Não é difícil perceber esse efeito multiplicador no voluntariado. Multiplica-se a influência, porque outras pessoas conhecem a ação e começam a se envolver com ela. Multiplica-se a incidência, porque, com mais voluntários, mais pessoas podem ser assistidas. E multiplica-se o alcance, porque os que são ajudados começam a convidar amigos e parentes para também serem atendidos pela ação. 

Mercado de trabalho

O trabalho voluntário é visto com bons olhos por muitos recrutadores, que consideram o voluntariado como uma forma de desenvolvimento da inteligência emocional e de exercício da cidadania. Como aquela máxima de que “há mais alegria em dar do que em receber”, os benefícios dessas ações são vistos principalmente em quem se engaja. Em uma pesquisa rápida com alguns voluntários, pode-se facilmente nomear alguns ganhos para quem se dedica a um serviço desse tipo: aumenta o grau de socialização, melhora as competências para o trabalho em equipe, amplia a troca de experiências, estimula a criatividade, aumenta a autoestima.

No Brasil, o trabalho voluntário é regido pela Lei nº 9.608, de 18 de fevereiro de 1998. O trabalho desses agentes do bem e da solidariedade também tem uma data anual de celebração, o dia 05 de dezembro, que marca a comemoração do Dia Internacional do Voluntariado.  

Christiane Sales é jornalista e redatora. Gosta de viajar e conhecer lugares novos.

5 COMENTÁRIOS

  1. É muito importante esse trabalho de voluntariado, pois ajuda uma nova geração a adquirir conhecimentos e terem uma oportunidade no mercado de trabalho. Parabéns a todos os envolvidos nesse projeto do bem.

  2. O jovem precisa mesmo de um auxílio no mercado de trabalho. Por isso, eu admiro muito todo o trabalho do instituto em inserir os jovens. É muito bom ver esse movimento das pessoas que um dia foram alcançadas e hoje alcançam outras.
    Obrigada pela matéria! Ela ficou linda e é muito bom ver o valor do voluntariado sendo mostrado.

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