Você sabe identificar um relacionamento abusivo?

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Saiba como identificar os sinais presentes neste tipo de relacionamento e veja como é possível sair desta situação

Por Nayá Fernandes

Relacionamentos abusivos são mais comuns do que se imagina e podem acontecer com qualquer pessoa, independentemente de classe social, nível de instrução ou idade.

Seja entre casais, pais e filhos ou no trabalho, um relacionamento abusivo pode gerar consequências graves, como depressão, ansiedade e até mesmo perda do sentido da vida.

Foi o caso de Elane Cristina Bispo Santana, 35, massoterapeuta, que passou por uma experiência traumática no seu primeiro emprego.

Abuso de poder no trabalho

A história de Elane aconteceu durante seu primeiro emprego, quando ela sofreu com um chefe que a tratava mal e chegou a ameaçá-la. No auge da situação, ela chegou a pensar em tirar a própria vida. “Comecei a trabalhar em um consultório odontológico aos 18 anos. Foi meu primeiro emprego e, no início, eu me sentia bem valorizada. Eu fazia tudo lá, desde recepcionista, limpeza, serviços bancários e até mesmo auxiliar instrumentista. Com o passar dos anos, fui adquirindo experiência, fiz faculdade e percebi que tinha mais potencial”, conta Elane.

Elane começou a ser chamada para fazer entrevistas em grandes empresas e, após sete anos no trabalho, percebeu o quanto o chefe a subvalorizava. “Quando ele percebeu que eu estava procurando um trabalho melhor, começaram os ataques. Gritava comigo, às vezes até na frente dos pacientes. Era muito perfeccionista e reclamava de tudo. Percebi então que eu estava em uma situação de relacionamento trabalhista abusivo”, relata.

Com o tempo, ela começou a sentir no corpo as pressões que sofria. Teve enxaqueca, gastrite nervosa, queda de cabelo e outros sintomas. Havia anos não conseguia tirar férias e, após uma consulta médica, descobriu que estava no grau 2 da depressão. “Comecei então a ter insônia e crises de choro, até que um dia, sem forças para sair daquela situação, pedi que meu chefe me demitisse. Mas ele disse que, se eu fosse embora, iria me difamar e eu não conseguiria outro trabalho”, recorda Elane.

A situação agravou-se em 2010, quando o chefe de Elane comprou um computador e, pesquisando na internet, ela se deu conta de que se tratava de um relacionamento abusivo. “Então, certo dia, escrevi duas cartas, uma para ele e outra para minha mãe, prometendo acabar com minha vida. Eu fiquei cerca de uma hora no parapeito da janela, do quinto andar. Mas, como sempre tive muita fé, senti a presença de Nossa Senhora, mãe de Jesus, me dizendo que não valia a pena. Compreendi que nenhum salário valia minha vida”.

Ela então conseguiu tirar férias e, em seguida, foi demitida. “Foi uma sensação maravilhosa. Depois da demissão, ainda tive problemas para receber meus direitos, porque ele não estava depositando o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) adequadamente e tive que entrar com uma ação judicial para receber meus direitos”, recorda.

Atento aos sinais

Antonio Sena é psicólogo e criador do projeto @sermaispositivo, no Instagram. Ele explica como identificar um abusador e buscar saídas para um relacionamento abusivo. “A palavra abuso significa uso excessivo. Quando você abusa da comida, por exemplo, você pode ser prejudicado por isso. Assim, o relacionamento abusivo é toda relação que mais destrói do que constrói. Pode acontecer entre casais, entre pais e filhos, entre amigos ou no trabalho”, afirma.

Antonio salienta que, na maioria dos casos, o relacionamento abusivo não começa de forma abrupta. “Acontece de forma sutil e, em geral, o abusador age silenciosamente, apresentando-se como uma pessoa amorosa ou cuidadosa. Com o tempo, porém, ele vai controlando o outro. É como uma teia de aranha, que você não vê o fio, mas, de repente, vê-se imobilizado.”

Algumas atitudes do abusador são:

  • Limitar as relações e ações da outra pessoa;
  • Minar as forças da pessoa, fazendo com que ela se sinta com autoestima baixa e insegura;
  • Dependência verbal, financeira ou física e, até mesmo, tecnológica, por meio das redes sociais;
  • Exagero de cuidado;
  • Pedidos de mudança (de trabalho, afastamento da família, modo de vestir);
  • Depreciação e chantagem;
  • Violência psicológica, por meio da agressão verbal.

Promessas não cumpridas

O psicólogo salienta que, em quase todos os casos, há um momento no relacionamento em que o abusador se sente culpado e promete mudar, mas depois volta a cometer os abusos. “É importante lembrar que o relacionamento abusivo pode acontecer com qualquer um, em classes sociais diferentes, com pessoas instruídas ou não, idosos, jovens, crianças. Contudo, na minha experiência de clínica e de vida, há maior incidência entre casais, sendo o principal abusador o homem”, observa Antonio Sena.

Keira Burton/Pixels.com

Mas o que fazer para sair dessa situação?

  • Identificar a situação (se você estiver sendo menosprezado ou inseguro, pode ser um sinal de que há algo errado);
  • Pedir ajuda (procure um amigo, familiar ou alguém de confiança para contar a situação);
  • Buscar profissionais (psicólogo ou advogado, caso precise de proteção judicial);
  • Informar-se (ler sobre o tema, conhecer casos e pessoas que passaram pela mesma situação);
  • Libertar-se da dependência do abusador (sobretudo financeira, se houver);
  • Afastar-se o máximo possível do abusador (bloquear as redes sociais, contato telefônico e, se possível, mudar de endereço);
  • Fortalecer-se individualmente (fazer exercícios físicos, procurar ajuda espiritual e se dar conta de que a culpa não é sua, mas da outra pessoa).

É importante lembrar que é sempre possível sair de um relacionamento abusivo, seja ele entre casais, amigos ou no trabalho, e sempre procurar ajuda, para que a situação não se agrave.

Nayá Fernandes é jornalista, especialista em jornalismo literário e mestra em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP. Gosta de música e arte, de escrever histórias do cotidiano, inspirada pelo caos urbano ou pela calmaria de um Adágio de Barber. Mãe do Francesco, nasceu em Minas Gerais e ama viajar seja por palavras, de avião, bicicleta ou trem.

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