“Vem e verás”: encontrar as pessoas onde estão e como são

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Este é o convite do papa Francisco para o 55º Dia Mundial das Comunicações. Um desafio permanente para refletir, viver e atuar no mundo da comunicação que nos toca

Por Joana T. Puntel

“Vem e verás” é o convite que se encontra na descrição do Evangelho de São João (1,46). Alguém viu, experimentou e foi convidar um terceiro. Reside aí a importância de um encontro com Jesus, o verdadeiro comunicador, e, decididamente, de chamar alguém para que também sinta a alegria e o despertar do ver.

E o que Jesus ensina a ver? De acordo com a mensagem do papa Francisco, o chamado para “ir e ver” pressupõe um mover-se, “estar com as pessoas, ouvi-las, recolher as sugestões da realidade, que nunca deixará de nos surpreender”.

“Gastar as solas do sapato”

É a metáfora que Francisco usa para o significado do “ir e ver”. Entra em cena, então, a temática da informação. Aquela que nos chega das mais variadas formas e meios de comunicação.

Infelizmente, com o risco do nivelamento em “jornais fotocópias” ou em noticiários que são substancialmente iguais nos vários meios tradicionais de comunicação. Notícias vindas tanto de uma redação de jornal como do mundo da web.

“Tanto na pregação comum da Igreja como na comunicação política ou social.” De acordo com o Papa, trata-se de um cenário de informações que deveria primar pela transparência e pela honestidade.

Há uma crise editorial, aponta Francisco, que “corre o risco de levar uma informação construída nas redações, diante do computador… nas redes sociais, sem nunca sair à rua, sem ‘gastar a sola dos sapatos’”. A realidade na qual estamos imersos contém a concretude da vida onde estão as pessoas, e é necessário “verificar com os próprios olhos determinadas situações”. Continua Francisco: “Todo instrumento só é útil e válido se nos impele a ir e ver coisas que, de contrário, não chegaríamos a saber, se coloca em rede conhecimentos que de contrário não circulariam…”.

Web: oportunidades e desafios

Igualmente para a web, Francisco vê a oportunidade e a capacidade de multiplicação de relato e partilha. Com a tecnologia digital, é possível ter a informação em primeira mão, prestando um serviço rápido às populações. Grande é a sua potencialidade, que também nos responsabiliza, oferecendo-nos oportunidade de contribuição civil, ao ressaltar mais histórias, mesmo positivas.

Todos sabemos, entretanto, os riscos de uma comunicação social não verificável. Como decorrência, a facilidade de manipulações, com a variedade de motivos, inclusive de narcisismo. Há uma responsabilidade nesse cenário, que impele para uma consciência crítica, sem demonizar o instrumento, “mas a uma maior capacidade de discernimento”, seja quando difundimos, seja quando recebemos conteúdos, desmascarando notícias falsas. “Todos estamos chamados a ser testemunhas da verdade: a ir, ver e partilhar.”

Gratidão pela coragem de muitos jornalistas

Brett SaylesPexels.com

É a natureza do próprio jornalismo expor-se à realidade. E muitos jornalistas desenvolvem a capacidade de ir aonde mais ninguém vai. São movidos pelo desejo de ver. Francisco aplaude e agradece a coragem e a determinação de tantos profissionais “que trabalham muitas vezes sob grandes riscos”. Numerosas realidades do planeta, a difícil condição das minorias perseguidas, muitos abusos e injustiças contra pobres e contra a criação foram denunciados. Muitas guerras esquecidas foram noticiadas.

Igualmente, neste tempo de pandemia, um convite a “ir e ver”, pois a pandemia poderia ser narrada “só com os olhos do mundo mais rico, de manter uma ‘dupla contabilidade’”. A questão das vacinas, os cuidados médicos em geral, o risco de exclusão das pessoas mais indigentes. Questiona Francisco: “Quem nos contará a expectativa de cura nas aldeias mais pobres da Ásia, América Latina e África?”. No interior do Amazonas?

São eles, muitos jornalistas corajosos, que vão, escutam, relatam a partilha do povo, daqueles que não são merecedores de grande espaço nas notícias. “Vem e verás” é o método mais simples e eficaz, “é a verificação mais honesta de qualquer anúncio, porque, para conhecer, é preciso encontrar, permitir à pessoa que tenho à minha frente que me fale, deixar que o seu testemunho chegue até mim”, conclui a mensagem. E isso nos ensina Jesus, o verdadeiro comunicador.

Joana T. Puntel é irmã Paulina, jornalista, doutora em Ciências da Comunicação pela Simon Fraser University (Canadá) e pela (USP). Membro da Intercom e da GRECOM (Grupo de Reflexão da CNBB). Autora de vários livros de Comunicação.

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