Laços entre Brasil e Ucrânia

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Conheça a história do padre brasileiro que não quer sair da Ucrânia e do pai de família ucraniano que veio recomeçar sua vida no Brasil

Por Juliana Borga

Fotos: Arquivo Pessoal

No início de junho, a guerra da Ucrânia completou 100 dias. Nesse período, mais de 6 milhões de refugiados saíram do país, enquanto mais de 8 milhões de pessoas foram deslocadas internamente. Vimos cenas de famílias se separando, de mulheres dando à luz em maternidades improvisadas, de pessoas buscando proteção em abrigos subterrâneos e estações de metrô.

Soubemos também de pessoas que insistiram em ficar e ajudar, como o padre brasileiro Lucas Perozzi Jorge, que acolheu cerca de 35 pessoas, entre paroquianos e moradores da comunidade da igreja em que trabalha em Kiev.

Quando a cidade estava sendo bombardeada, o grupo permanecia no subsolo da igreja, que tem uma estrutura de metal e concreto. O local serviu de dormitório, abrigo e espaço de oração e celebração. Atualmente, com a dispersão dos ataques, a igreja já não fica mais fechada. Padre Lucas continua abrigando algumas famílias e distribuindo ajuda humanitária para quem o procura. “Estamos aos poucos voltando a ter uma vida ativa, muitas pessoas já retornaram a Kiev e existem muitos refugiados de outras cidades por aqui. No tempo dos bombardeios, por conta das entrevistas que concedemos, recebemos bastante ajuda para manter as pessoas aqui abrigadas. Foi interessante, porque pessoas que não são da igreja e não vinham à igreja passaram a nos procurar, pedindo ajuda humanitária. Isso foi uma experiência ótima e uma oportunidade de evangelizar. Nós padres procurávamos conversar, escutar o sofrimento deles e dar uma palavra de esperança e coragem, além de anunciar a Boa Notícia de Cristo”, explica.

De mudança para o Brasil

Ucranianos
Volodymyr, sua esposa Daryna e seu filho Marcus reunidos para uma foto tirada uma semana antes do início da guerra

Do ponto de vista brasileiro, uma região em especial mantém os ouvidos atentos às notícias sobre a guerra: no centro-sul do Paraná, fica Prudentópolis, o coração da Ucrânia no Brasil, uma cidade em que 75% dos habitantes são descendentes de imigrantes ucranianos. Por já ter morado, há alguns anos, nessa região e ter seu filho nascido no Brasil, o artista plástico e artesão Volodymyr Borodin já tinha decidido rumar com a família de mudança para solo brasileiro, mas a guerra complicou seus planos. “Mesmo antes da guerra, a crise na Ucrânia já tinha colaborado para a nossa decisão de mudar para o Brasil. No momento em que a guerra começou, estávamos na nossa casa, distante 60 km da capital Kiev. Mesmo com as passagens em mãos, não pudemos sair, pois o céu da Ucrânia estava fechado por conta dos bombardeios”, conta.

O artesão deu várias entrevistas para a imprensa brasileira, e um dos jornalistas o alertou sobre a intenção do governo brasileiro de enviar um avião da FAB (Força Aérea Brasileira) para resgatar brasileiros em Varsóvia. “O exército russo já estava próximo da nossa casa, e decidimos sair da Ucrânia de qualquer jeito”, lembra. A família de Volodymyr chegou à fronteira da Eslováquia, mas ele foi impedido de passar por conta de seu documento de dispensa do exército, que estava vencido. Ao receber a confirmação do voo da FAB, eles atravessaram três fronteiras (Eslováquia, República Tcheca e Polônia), até chegar a Varsóvia. “Minha sogra, minha esposa, nosso filho de 4 anos e nossa gatinha embarcaram para o Brasil. Eu fiquei mais um mês para atualizar meus documentos, aí recebi permissão de saída e cheguei aqui um mês mais tarde”, lembra.

A família de Volodymyr foi bem acolhida por aqui. Eles estão morando na casa de amigos em Curitiba (PR) e fazendo documentos para sua sogra e filha do primeiro casamento, que também veio morar com o pai no Brasil. Mas, infelizmente, essa não é a realidade da maioria dos refugiados. “Conheço muitos ucranianos que estão voltando para a Europa porque é muito difícil conseguir documentos por aqui. Agendar o visto permanente na polícia federal é um problema grave e, para não ficar como clandestinos, muitos estão preferindo voltar. A gente chega aqui com uma mala e, se não consegue trabalho, fica sem perspectiva de viver”, declara.

“Ninguém quer ir embora”

Já contamos um pouco da história do padre Lucas Perozzi na matéria “Correm rios de sangue e lágrimas na Ucrânia’, diz papa Francisco”. Agora, ele destaca um fato ocorrido durante a Semana Santa. A igreja da Dormição da Santíssima Virgem Maria, onde ele trabalha, tradicionalmente prepara uma cena para a data. Este ano, foi montado o túmulo de Jesus usando papel, tinta, pedras e uma imagem de um edifício que fica na cidade de Borodyanka. A foto do buraco no meio do edifício correu o mundo, virou uma espécie de símbolo da destruição da guerra. “Um dia, um homem entrou na igreja, olhou aquilo e começou a chorar. Ele relatou que há muito tempo não entrava numa igreja, mas naquele dia, passando por ali, algo o fez entrar. Aquele era o edifício onde ele morava. Ele falava: ‘essa é a minha casa’”, conta padre Lucas.

A onda de emoção levou esse senhor a organizar um encontro dos padres com um grupo de pessoas que, assim como ele, moravam naquele prédio e sobreviveram aos ataques. “Preparamos um furgão e fomos para lá. Distribuímos roupas, mantimentos e pudemos conversar com as pessoas. Foi um momento muito bonito e comovente. Estamos aqui com a missão de anunciar Cristo a estas pessoas. Estamos sempre em oração, prontos para servir, esperando que Deus nos inspire. Estamos cansados, mas bastante contentes, e ninguém quer ir embora. Ainda mais agora que as pessoas estão voltando, muitos ainda estão sem trabalho, vários refugiados chegam apenas com a roupa do corpo, não têm onde morar, o que comer ou vestir. Por isso nossa presença se faz necessária… acho que nem vou de férias para o Brasil este ano. Continuem rezando por nós”, finaliza.

Juliana Borga é jornalista, três vezes vencedora do Prêmio Dom Hélder Câmara de Imprensa. É mãe coruja da Helena e adora escrever sobre temas que colaboram para um mundo mais humano e solidário. Instagram: @juborgajornalista

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