Comunidade Taizé de Alagoinhas

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Há 44 anos, levando oração e fraternidade para os moradores de uma pequena cidade no interior da Bahia

Por Melissa Fernandes

Aos poucos os irmãos vão chegando lentamente, ajoelham-se e começam a entoar um canto sereno, que enche o ambiente da pequena capela de muita tranquilidade. Um templo bem simples, todo revestido de bambu, com um pequeno altar e só alguns bancos na lateral. No centro, um tapete para quem quiser ficar sentado no chão, em uma posição confortável. Os irmãos leem alternadamente alguns trechos do Evangelho, mensagens de acolhimento. Mas é o silêncio que fala por si e torna a celebração extremamente profunda. Esse silêncio só é quebrado em alguns momentos por novos e expressivos cantos. Uma cerimônia cheia de significados não só pelas mensagens, pelas músicas, como também pelo conjunto que proporciona uma real introspecção. São 15 minutos de uma oração que se repete três vezes ao longo do dia. 

Alimento para o corpo e para a alma

As celebrações são algumas das experiências incríveis que qualquer um vive na comunidade Taizé de Alagoinhas, independentemente de religião. O lugar é rodeado por um jardim, cheio de árvores e pássaros. As acomodações modestas fazem da casa de retiro Mombitaba (casa de repouso, em tupi-guarani) um lugar para descansar e refletir tranquilamente. Nada de aparelhos eletrônicos nos quartos; quem vai para Taizé de Alagoinhas vai em busca de paz interior e resgate da essência que, muitas vezes, se perde em meio a tantas incertezas. As refeições são feitas em conjunto, em um local muito acolhedor, onde é possível conhecer um pouco mais sobre os hóspedes, sobre os irmãos, trocar ideias e saborear uma comida caseira feita com muito carinho.

A formação e o bem para o outro

A comunidade de Taizé de Alagoinhas (www.taize.org.br) fica na periferia, em uma região bem humilde. Os Irmãos Henrique, Bruno, Cristovão e a Irmã Geliane desenvolvem várias ações sociais, como acolhimento às crianças e aos jovens nos jardins da casa, aulas de reforço, brincadeiras e levam algumas crianças para a escola. Esse contato acaba abrindo as portas para todos. Eles também desenvolvem cursos profissionalizantes de artesanato, serraria e fotografia.

Comunidade Taizé

São mais de 150 adolescentes atendidos todos os anos, e, no período da pandemia, as atividades foram feitas remotamente. O dinheiro que sustenta os projetos vem da venda de artesanatos, velas, vitrais, livros e objetos sacros. O que é arrecadado na casa de repouso com o acolhimento aos hóspedes ajuda a manter a própria casa e pagar os funcionários. Nada de doações. O dinheiro vem do próprio trabalho.

Um agnóstico que se tornou cristão

Irmão Henrique tem 34 anos. Um holandês que saiu da cidade de Groningen, que fica ao norte da Holanda, e há três anos foi morar em Alagoinhas. Deixou os pais e três irmãs em busca de uma vida plena e voltada para quem precisa de ajuda. Ele conta que foi batizado na Igreja Católica e frequentava a igreja eventualmente. Dos 14 aos 22 anos, abandonou os ensinamentos de Deus para seguir uma vida longe da Igreja e junto com amigos agnósticos.

Taizé
Irmão Henrique

Até que um dia ele começou a se fazer várias perguntas e sentiu que algumas respostas vieram de Deus. Um chamado para viver intensamente os ensinamentos e o amor ao próximo. Ele foi para Taizé, na França, fez toda a formação e se tornou o Irmão Henrique. “Os primeiros anos foram difíceis, porque eu não sabia explicar, eu também não entendia bem o que estava acontecendo. Só sabia que aquele era o meu caminho”, diz ele.

Ao ser questionado sobre o motivo de ter sido escolhido para percorrer esse caminho, ele faz uma pausa e responde: “Você se encontra nesse amor surpreendente, que é maior que qualquer coisa. O que eu vivo é o amor que vejo dentro de cada pessoa. Eu fiz escolhas erradas e mesmo assim fui chamado por Deus. Isso é o que conta, o que me faz viver plenamente”.

Uma experiência de fé não só para quem mora em Taizé de Alagoinhas como também para quem frequenta a comunidade ecumênica. O médico Marcelo Gottschald costumava fazer retiros com os colegas da escola católica em que estudava. Umas duas vezes ao ano, eles iam em excursão viver um pouco em comunhão com o outro e consigo mesmos. “Éramos todos jovens, amigos, cheios de energia e entusiasmo. Com o passar dos dias e das atividades desenvolvidas, conseguíamos cada vez mais nos conectar com nosso silêncio, com nossa fé e valorizar a vida e tudo que faz parte dela. Uma experiência incrível”, segundo Marcelo. 

Taizé é isso, uma experiência única. É encontrar a paz escondida dentro de si mesmo, é deixar o amor tomar conta. Para o Irmão Henrique, Taizé “é a minha casa, minha família, minha vida. É ser irmão para todos que Deus nos confia. É ser presença e exercer a gratidão”, finaliza. 

Onde tudo começou

 A comunidade foi fundada em 1940 pelo irmão Roger Schütz, em Taizé, na França. É um tipo de aldeia com cerca de cinquenta casas. O Irmão Roger tinha apenas 25 anos quando comprou uma pequena acomodação por meio de um empréstimo e foi acolhendo todos que enfrentavam a violência da Segunda Guerra Mundial. Hoje a comunidade tem quase cem irmãos católicos, evangélicos e protestantes, em Bangladesh, Coreia do Sul, Senegal, Cuba, França e Brasil. Aqui chegaram primeiro em Olinda, Recife, em 1967, e em 1978 fundaram a comunidade Taizé de Alagoinhas. Irmão Roger morreu assassinado por uma pessoa que tinha problemas psiquiátricos, durante uma oração da noite, em 2005, em Taizé. Ele estava com 90 anos.
 Um pouco de Taizé em Salvador

Quem quiser conhecer a celebração que lembra muito a que é realizada em Alagoinhas, pode ir até a igreja Ascensão do Senhor, no Centro Administrativo, em Salvador. O encontro acontece todo segundo sábado do mês, às 17 horas. Uma pequena capela, que fica no subsolo da igreja, é toda decorada com o artesanato e a simplicidade de Taizé. As luzes ficam apagadas e são as velas e a energia de quem participa que iluminam o lugar. A ideia foi do Padre Manoel Filho, pároco da igreja do CAB, e do administrador Carlos Eduardo. Ele conta que frequentava Taizé na adolescência com os amigos da escola e nunca esqueceu os ensinamentos e os momentos vividos em Alagoinhas. Carlos também é guitarrista e faz parte da banda Reflexo de Luz, que toca em igrejas de Salvador. “Ir a Taizé é como visitar uma fonte de água limpa, cristalina, que mata a sede, que tem o aconchego do amor de Deus e da sua hospitalidade. Posso dizer que cresci tendo a comunidade como um lugar de encontro com Jesus, um ponto de apoio na minha caminhada”.

Melissa Fernandes é jornalista, casada com Tadeu e mãe de Theo e Nina. Trabalhou mais de vinte anos em redações de televisão, como TV Educativa, TV Bahia e TV Globo São Paulo. Agora é analista de comunicação. Ela também passou a adolescência visitando e vivendo o amor único de Taizé. 

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