As superstições: da tradição mítica para a vivência mística

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Acreditar em um futuro melhor é o desejo que as superstições e os rituais revelam nas festas de fim de ano

Por Elizete Santos

Estamos prestes a iniciar a contagem regressiva para mais uma virada de ano. Embora o encontro com o desconhecido represente a incerteza de um novo tempo, as disposições do coração humano ultrapassam limites quando o assunto envolve a necessidade de obter segurança diante da vida.

Ao ingressar nas desconhecidas vivências, a tendência que se contrapõe ao novo revela-se na necessidade humana de controlar até mesmo os acontecimentos futuros. Diante das incertezas que envolvem a vida, as antigas crendices integram uma ousada confiança, impulsionando-nos ao encontro das novidades e seus infinitos mistérios.

Muito além dos amuletos

O que pode nos garantir prosperidade? Um desfecho positivo para o fim de um ciclo parece ser o que seduz até mesmo os mais céticos dos seres humanos. Conforme afirma Jorge Amado, grande escritor baiano: “Sou supersticioso e acredito em milagres; a vida é feita de acontecimentos comuns e de milagres”.

Acreditar em um futuro melhor é o desejo que as superstições e os rituais revelam nas festas de fim de ano. Pular sete ondas, comer lentilhas, apostar nos grãos de uvas, nas sementes de romã, usar roupas brancas… As tradições perduram na insistência de desvelar o oculto.

Um olhar de positividade se estabelece simplesmente pelo fato de cumprir um ritual que garanta êxito e bem-estar, efeitos esperados das práticas supersticiosas. Elas carregam em si a imprescindível característica de reforçar, embora falsamente, as sensações de alívio e conforto.

Ao contrário do Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), que se traduz em rituais obstinados sem resultar em sensações de tranquilidade, as crenças praticadas no final do ano proporcionam à mente humana um estado de dever cumprido. O resultado do esforço é a garantia de uma vida próspera.

Ser ou não ser supersticioso?

Com a aproximação do Natal e do Ano-Novo, essa é a questão que menos importa, quando o assunto é esperar por dias melhores. Para tentar reforçar a própria sorte, o ser humano parece não medir esforços. A criatividade se alia ao desejo de renovar as esperanças no novo que se anuncia.

A própria definição da palavra “superstição” coincide com as falsas obrigações de praticar determinadas crenças sem base na racionalidade ou no conhecimento científico. Os rituais surgem como forças consagradas pelas tradições, pelos costumes e pelas normas.

Entre uma superstição e outra, é possível reconhecer as fantasias e os desejos que se manifestam no comportamento humano. As memórias afetivas são uma forma de reviver no presente as recordações do passado; entre elas, pode-se afirmar, estão as tradições familiares que se manifestam nas próprias crendices.

Por trás das superstições, marcadas pelo fim do calendário civil, existe a esperança de renovar o desejo de felicidade, tão almejada a cada recomeço. No despir da racionalidade, entram em cena os rituais e as crendices que nos apontam para um horizonte de esperanças.

Mítica e mística

Em cada superstição existe uma tradição que se perpetua ao longo do tempo. Dos antigos costumes africanos, ressurge o uso das roupas brancas como símbolo da paz e da renovação do espírito. O mar, por sua vez, regado de um poder espiritual, herança dos gregos, reaviva as energias.

Superstições
Pixabay.com/Ana J

Renovar o espírito, buscar a paz! Desejos que renascem a cada ano nos corações dos brasileiros. Transmissão conservada pelos praticantes do Candomblé.

Quem nunca apostou a sorte em uma simples prática supersticiosa? Mas, quando as superstições se tornam um elemento mágico, único capaz de gerar segurança e confiança, espiritualiza-se o supérfluo, perde-se a mística.

Desde os primórdios, utilizar-se dos rituais é uma das características da espécie humana. Proteger-se das mazelas da vida; atrair a sorte; obter boas energias. As tradições antigas perduram no tempo, embora conservadas pelas repetições. Abrir-se ao novo é uma possibilidade de depositar em si mesmo a confiança em dias melhores.

O novo e seus mistérios

Deixar-se guiar pelo raiar da novidade depende muito mais da responsabilidade e do desejo humano do que simplesmente consumir carnes suína, bovina ou peixes. Todavia, muito além de uma sensação de alívio, conforto e segurança, os rituais e as superstições traduzem a busca pela fecundidade e pela felicidade que atravessam a existência humana.

Na sincronia dos relógios, o tempo aponta para o movimento da vida. A força da fé supera os meros rituais de superstição, pois o sentido da mística encontra sua essência na harmonia, na paz e na prosperidade que brotam do coração humano. Nesse espaço, a falta de sorte não resiste se nele o amor permanece.

Portanto, é no mistério do encontro humano que se revela o novo. A alegria se faz acolhida, o carinho se torna relação, o abraço, restauração de vida. Em um olhar de esperança, uma certeza: gratidão é o que resta. Celebrar se torna um ritual que contagia a alma, suscitando o solene desejo de viver um Natal Feliz e um Ano-Novo de Paz!

Elizete Santos é uma irmã paulina, filósofa, psicóloga e especialista em Adolescência e Juventude. Amante da filosofia e aprendiz na arte da escuta psicanalítica, que possibilita fazer falar o “indizível” e compreender o incompreensível.

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