Conscientizar e combater o suicídio é o objetivo da campanha Setembro Amarelo

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“Agir é salvar vidas” tema da campanha de prevenção ao suicídio quer conscientizar sobre a importância da ajuda a quem sofre

Por Laís Peçanha

Foto: Divulgação / Associação Brasileira de Psiquiatria

Dados recentes divulgados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que o suicídio é uma das principais causas de morte no mundo todo, e a quarta entre jovens de 15 a 24 anos. Aos olhos de muitos, Luiza Granero aparentava ter uma vida perfeita. Filha única de uma família de classe média, cheia de amigos, linda e divertida. Mas para ela a vida não fazia sentido. Nada a preenchia. Havia sempre um vazio, um desânimo, uma melancolia. E, por trás daquele seu sorriso, lágrimas escorriam de seus olhos. Muitas vezes se sentia culpada e tinha uma enorme raiva de si mesma, por todas essas sensações.

A dor da alma, uma agonia inexplicável, pode ser desencadeada por diversos fatores: “Traumas, abusos físicos, violência doméstica, estresse, decepções afetivas, desemprego, transtornos mentais e emocionais”, afirma padre Lício Vale, Membro da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção ao Suicídio. Se não tratada, a pessoa sente-se cada vez mais angustiada e fragilizada.

Os anos foram passando, e Luiza acreditava que a felicidade chegaria quando os sonhos se realizassem. “Estar bem momentaneamente não é o mesmo que estar resolvida”, afirma.

Quando ficou mais velha, tudo aconteceu como sempre idealizou. Entrou na faculdade, mudou de cidade, arrumou um emprego na área. A sensação de felicidade foi intensa, porém, passageira. O vazio não foi preenchido como esperado. Dessa vez, escondia a insatisfação e o desespero com o uso de drogas (maconha e álcool). Afinal, como podia se sentir infeliz, depois de ter realizado tudo que sempre sonhou!? “Eu estava muito deprimida e pensava comigo mesma: ‘Bom, basicamente, não dá! Já tentei de tudo, não consigo ser consertada e vou me matar. Vou sumir, vou acabar com isso. Quero dormir para sempre’”, relembra Luiza.

Na maioria das vezes, a pessoa que pensa em suicídio não quer deixar de viver, mas sim se livrar da dor insuportável que sente. “Normalmente, a pessoa tem necessidade de aliviar pressões externas, como cobranças sociais, culpa, remorso, depressão, ansiedade, medo, fracasso, humilhação etc.”, explica a psiquiatra dra. Sonia Palma.

Suicídio: falar é o melhor remédio

Setembro Amarelo
Cartaz da Campanha Setembro Amarelo 2021. Foto: Divulgação /Associação Brasileira de Psiquiatria

Em uma conversa com o namorado, Luiza finalmente se abriu, contou suas aflições e confessou que não aguentava mais tantas instabilidades emocionais. Foi um pedido de socorro discreto, mas entendido. Depois de sofrer sozinha por anos, decidiu, com o apoio da família, procurar ajuda profissional.

“Ninguém precisa sofrer sozinho. Falar com amigos, familiares, gente que nos ama, pode ser de grande ajuda. Partilhar os pensamentos ruins alivia”, ressalta Lício Vale.

Hoje, um ano e meio depois dos piores momentos de sua existência, a jovem, cheia de sonhos, suspira aliviada pela ajuda que recebeu. Luiza foi diagnosticada com depressão e transtorno bipolar. Está fazendo acompanhamento médico e psiquiátrico. Nunca mais passou por tamanho desespero. Cuidar da doença proporcionou um novo horizonte. Sente-se grata e em paz. O apoio da família reforçou os laços de amor, carinho e companheirismo.

Acolher com empatia, generosidade e sem condenação deve ser o papel da família e dos amigos. Pessoas com depressão, ansiedade, síndrome do pânico, ou algum tipo de transtorno, não conseguem falar abertamente sobre o assunto. Conversar sobre suicídio ainda é tabu e considerado, por alguns, sinal de fraqueza. Em razão disso, as pessoas geralmente sofrem caladas.

Porém, mudanças no comportamento e no estilo de vida podem ser sinais de que algo está errado. “Agressividade, irritabilidade, mudança no desempenho escolar/trabalho, isolamento social, agitação psicomotora, alteração no apetite, sonolência, desatenção, e visitas a amigos com intenção de despedida”, explica a psiquiatra.

Acolher com amor

Se o desespero bater, é só discar 188. A ligação é gratuita e válida para qualquer lugar do país, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Quem realiza essa ajuda é o Centro de Valorização da Vida (CVV). Voluntários estão sempre à disposição para dar apoio emocional e conversar sobre a prevenção ao suicídio. Além do atendimento telefônico, a fundação auxilia via chat, e-mail ou presencialmente. Mais de 120 postos de atendimento estão espalhados em todas as regiões do Brasil.

O Sistema Único de Saúde (SUS) possui os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). São unidades especializadas em saúde mental, que atendem gratuitamente pacientes de todas as idades, com transtornos mentais severos e persistentes, incluindo quem sofre com o abuso de álcool e outras drogas. O atendimento é feito por uma equipe interdisciplinar, formada por médicos, psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais.

Em quase todas as igrejas do país, diversos trabalhos pastorais estão à disposição para ajudar. A Pastoral da Escuta é um deles. Voluntários são treinados para amparar e ouvir problemas. Tudo é feito de maneira sigilosa. Além das pastorais, há muitos grupos de oração e partilha. “Crer em Deus nos ajuda a perceber que não estamos sozinhos, participar da comunidade ou de grupos reforça os laços afetivos e nos protegem da sensação de solidão. A oração é importantíssima, pois ela nos coloca em comunicação direta com o Senhor”, ressalta padre Lício. Sacerdotes estão sempre à disposição para conversar e oferecer uma direção espiritual.

A fé fortalece a alma, nos traz esperança e nos faz acreditar que, apesar das tribulações e dificuldades, dias melhores virão. Afinal, viver é um presente de Deus.

Conheça a Campanha Setembro Amarelo de 2021.

Laís Peçanha é jornalista, repórter e apresentadora de TV. Adora contar boas histórias. Instagram: @laispecanhatv.

4 COMENTÁRIOS

  1. Excelente artigo.
    Muito bom o que a jornalista Laís escreve neste artigo.
    Assunto suícidio sendo tratado sem preconceitos.
    Com ajuda também aos familiares.Sem dúvida uma nova visão ao tema.Acredito na religiosidade,para também tratar com amor

  2. Muito importante essa matéria. Importante saber para poder ajudar.
    A divulgação é muito importante para a conscientização…
    Parabéns a jornalista e a equipe pela importante informação.

  3. Que história linda da Luiza ( dor e superacao)
    Tive dois casos de suicídio na familia’, infelizmente não tiveram a felicidade de buscar socorro espiritual nem medicinal.
    Depressão é sim uma doença grave e a cura sempre vem da oração e a conscientização da doença.
    Parabéns pela matéria Laís

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