Sobre sonhos e planejamentos…

Você se permite sonhar sonhos audaciosos, entendendo que Deus agirá pelo mistério, ou você só se permite sonhar aquilo que você (acha que) pode controlar?

Por Mariana Aparecida Venâncio

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karolina Grabowska / Pexels.com

Janeiro é o mês do recomeço. É o mês dos propósitos. Para muita gente, é mês de férias. Mas é, também, o mês dos pagamentos, dos impostos, das rematrículas das crianças, das compras de materiais e livros escolares. É aquele mês que passa voando, que não nos dá tempo suficiente para respirar e planejar antes de começar, de fato, um Ano-Novo.

Tudo na nossa rotina responde a rituais. Temos costumes e tradições para (quase) tudo o que acontece, e, diga-se de passagem, é por isso que nada nos estressa tanto quanto aquilo que sai do planejado e acontece de forma inesperada. Talvez seja também por isso que gostamos tanto de dar ao mês de janeiro o significado da preparação, do ponto de partida para um novo ano, da elaboração de novos propósitos que sempre incluem uma vida mais organizada, que traga conforto, paz e felicidade para nós e para os outros.

Sonhos: Mas será que isso é realmente possível?

Em uma dinâmica do janeiro-do-planejamento, tudo é muito saudável. É importante que tenhamos planos para o futuro. Nossos sonhos são, também, uma espiritualidade, algo que dá sentido a nossa vida. Estamos sempre caminhando (às vezes correndo) e é importante vislumbrar aonde queremos chegar, para que nossos caminhos não se desviem para direções que não nos levarão a algo concretamente bom. Acontece que também é saudável entender que nem sempre o nosso planejamento será suficiente para concretizar metas. Mais saudável ainda é saber reavaliar e reorganizar as rotas, lidando da forma mais pacífica possível com aquilo que nos acontece para além das nossas expectativas ou capacidades de controle.

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Towfiqu Barbhuiya / Pexels.com

Na sociedade em que vivemos, alcançar objetivos é sinônimo de sucesso, da mesma forma como mudar de rota pode parecer sinônimo de fracasso. E, então, somos incentivados, cada vez mais, a querer alcançar não aquilo que, de fato, nos fará bem e feliz, mas aquilo que, aos olhos da sociedade, produzirá uma sensação de sucesso e êxito. Acontece que isso só contribui para que sejamos, realmente, parte da sociedade do cansaço – termo cunhado pelo autor Byung-Chul Han para expressar a exaustão em que vivemos hoje. Corremos e trabalhamos e nos esforçamos e almoçamos com o celular na mão e atendemos ligações enquanto dirigimos e escrevemos pautas na esteira da academia, ouvindo vagamente um podcast, porque cada segundo do nosso dia precisa ser produtivo e otimizado, pois só assim, acreditamos, concretizaremos aqueles propósitos do início do ano, que diziam muito mais respeito a padrões sociais de sucesso do que àquilo que almejamos para nossa vida.

Desacelere e repense…

Ninguém está dizendo que nenhum dos nossos planos são válidos ou que não devemos planejar e estabelecer metas. Não se trata disso. Trata-se de pensar quanto da nossa vida de fato será aplicada na realização de desejos e quanto há do nosso próprio desejo nessas metas que estabelecemos. Ainda há tempo para passar em revisão tudo aquilo pelo que temos trabalhado e nos esforçado, para pensar até que ponto é realmente necessário a nós e à nossa felicidade, ou até que ponto essas metas servem apenas para construir uma imagem que queremos “vender” de nós mesmos, como pessoas bem-sucedidas e felizes.

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Andrea Piacquadio / Pexels.com

Qual das suas metas diz respeito à sua saúde e qualidade de vida? Qual delas melhora a qualidade do tempo que você passa com sua família? Qual delas se refere a você e ao tempo que tem para si mesmo(a), para ler um livro, assistir a uma nova série, rezar? Seus planejamentos contam com a incerteza, com o imprevisível? Você se permite sonhar sonhos audaciosos, entendendo que Deus agirá pelo mistério, sem que possamos prever, ou você só se permite sonhar aquilo que você (acha que) pode controlar?

Neste novo ano, desejo a você uma vida de paz. Uma vida que consiga equilibrar a correria e o cansaço do dia a dia com a contemplação das pequenas coisas, com o tempo livre, com uma conversa despretensiosa com uma pessoa desconhecida em uma caminhada não planejada de uma manhã de domingo. Que, eventualmente, possamos nos encontrar nas reflexões desta coluna e nos conectar com aquilo que de mais belo existe em nossa existência: a vida – dádiva e missão!

Mariana Aparecida Venâncio é teóloga leiga, doutoranda em Estudos Literários. Dedica-se à pesquisa da Bíblia como Literatura e é assessora da Comissão para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB. É encantada pela arte de criar: escrever, tecer, cuidar, amar. Instagram: @marianaavenancio

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