O ecoar dos sinos da zona rural aos
centros urbanos

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Instrumentos de evangelização e anúncio resistem ao tempo e às mudanças sociais

Por Catiane Leandro

Durante séculos é possível ouvir o badalar dos sinos como forma de anúncio das missas, nascimentos, morte, chegada de figuras ilustres e até mesmo de convocação para protestos. Para a Igreja Católica o sino é considerado um objeto sagrado que ajuda na evangelização dos fiéis. Essa tradição que resiste ao tempo teve início na China há mais de 4 mil anos, e foi implementada pela Igreja Católica no século V e, além de anunciar, o dispositivo também realizava a função de informar as horas antes da popularização dos relógios, aparelho de celular ou qualquer outra tecnologia que utilizamos hoje.

O sino é um instrumento percussivo pelo qual o som é obtido através de impacto, e também é caracterizado como um idiofone, objeto cujo o som é provocado pela sua vibração, o corpo do próprio objeto vibra para produzir o som. Em sua maioria são feitos de bronze, mas também é possível encontrá-los em outros materiais, principalmente quando se tratam de objetos para decoração. As torres que abrigam os sinos são chamadas de campanários.

Contando o tempo

Segundo relatos, os sinos ajudavam as pessoas a se organizarem durante o dia e até mesmo a marcar o horário para tomar medicamentos. Além de despertar a atenção para os acontecimentos, representa um chamado para ouvir, contemplar e voltar os olhares para a igreja. “O sino surgiu como um instrumento de contagem do tempo, cada sociedade, desde a Antiguidade até a Idade Moderna, sempre se utilizou de algum instrumento para contabilizar e conceder o tempo em termos sociais. Atualmente, o que marca o nosso ritmo cronológico e temporal é o relógio, nas sociedades da Antiguidade, sobretudo na Idade Média, o que marcava o tempo eram os sinos, particularmente nas sociedades católicas”, explicou Dielson Santana, professor e mestre em História Social pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Nas cidades do interior ele ainda funciona como ferramenta de comunicação, já em ambientes urbanos pode ser considerado por alguns como um ruído. Para o historiador Dielson Santana, existem dois fatores que colaboraram para este acontecimento: a diversidade de religiões e o crescimento populacional em áreas anteriormente menos habitadas, onde os sinos não ficavam tão perto das casas ou na mesma altura, como ocorre com os prédios, sendo assim necessário estar atento às regras de poluição sonora: “existiam locais em que as igrejas eram isoladas em regiões não muito habitadas, com o crescimento da especulação imobiliária, criação e desenvolvimento de prédios e moradias, os sinos que tocavam não tinham grande impacto sonoro nos locais por serem de baixo desenvolvimento populacional. Agora, em virtude da urbanização passou a ter uma ideia incomodativa devido à poluição sonora e de pessoas que não são ligadas ao catolicismo”, relata.

Tradição

Sobre a manutenção das tradições nas zonas rural e urbana, o historiador explica que: “as tradições nos centros urbanos são mais impactadas em virtude da diversidade, de pessoas que professam uma série de confissões religiosas e também filosóficas. Isso faz com que as tradições se pulverizem um pouco. Diferentemente da zona rural, onde há uma sociedade mais homogênea, em que as tradições prevalecem, sofrem poucas alterações ao longo do tempo, em virtude dessa homogeneização populacional e sociológica”, conclui.

Sino de Igreja
Pexels Nacho Juárez 1028928

Na Arquidiocese de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil, muitas igrejas preservam a tradição dos sinos, em especial as que ficam localizadas no centro histórico da cidade, na região do Pelourinho: “O toque do sino nos traz sinal e certeza da alegria. A cultura, quando ela é boa, deve ser mantida, e até mesmo atualizada, mas nunca perdida. Mantemos essa cultura pelo forte significado que ela traz, mas também por estarmos inseridos dentro de um contexto histórico, que é a região do Pelourinho. Temos dois horários para tocar o sino: às 11h55, fazendo com que os fiéis se voltem com respeito para o horário das 12h, e às 18h, anunciando o Ângelus, conhecido como a hora da Ave-Maria”, conta Giovanni Cardoso, auxiliar administrativo na Capela de Nossa Senhora da Ajuda, Paróquia Transfiguração do Senhor.

Do toque manual ao sistema de automatização

Por muitos séculos os sinos foram tocados de forma manual, os sineiros, como eram chamados os responsáveis por esta função, precisavam puxar uma corda que faria com que o badalo entrasse em atrito com o interior do sino e assim emitisse o som. A quantidade de vezes e a forma com que era tocado mudava de acordo com cada situação. Através dele é possível despertar diferentes emoções como alegria, tristeza e respeito, tudo isso a partir da quantidade de toques e da intensidade utilizada para distinguir cada tipo de anúncio que será feito.

Atualmente a maioria dos sinos estão ganhando um sistema automatizado no qual são programados os horários para o toque, sendo possível colocar até mesmo músicas litúrgicas. No Brasil a primeira igreja a receber o sistema ortodoxo de sinos com equipamentos eletromecânicos foi a Basílica Nossa Senhora Conceição da Praia, que possui dezesseis sinos de diferentes séculos, sendo o mais antigo do ano de 1728. No século XIX, eram utilizados como “alarmes” da Bahia, tocados nas ocasiões mais importantes da cidade, como na chegada da família real em 1808, na visita de Dom Pedro I, Dom Pedro II e outras personalidades, assim como nas epidemias anunciando o número de mortes. O sistema foi revitalizado no ano de 2020.

Batismo dos sinos

Na Igreja Católica, antes de um sino ser introduzido no campanário ou na torre sineira, é necessário a realização do rito de batismo dos sinos. Esta cerimônia é realizada pelos bispos locais, conforme o Rito Romano, então o sino é lavado, são feitas sete cruzes na face exterior com o óleo dos enfermos e quatro na face interna com o óleo do Crisma. Em seguida, é realizada uma mistura de diferentes tipos de incenso e mirra, utilizando o turíbulo, que ficará sobre a campanha para que a fumaça suba alcançando o interior de todo o instrumento.

CURIOSIDADE

O maior sino do mundo

O maior sino suspenso do mundo encontra-se em solo brasileiro, no estado de Goiás, mais especificamente na Basílica de Trindade. Importado da Cracóvia, na Polônia, o sino possui 4 metros de altura, 4,5 metros de diâmetro e 55 toneladas, levando em sua composição 78% de cobre e 22% de estanho. E ficará no campanário do novo Santuário. Em sua parte externa, possui imagens que contam a história da Santíssima Trindade, desde 1840 até o momento da construção do santuário. E foi nomeado como Vox Patris, com o intuito de homenagear o Divino Pai Eterno. O local abrigará mais de 70 sinos, incluindo o chamado “quarteto ideal” composto por um conjunto de quatro sinos, cada um com uma nota musical ideal para compor carrilhão em conjunto com os demais sinos.

Catiane Leandro é jornalista, pós-graduada em Marketing Digital, Webjornalismo e Mídias Digitais. Fotógrafa profissional, com foco em família e imagens religiosas. Católica, devota de Nossa Senhora Aparecida. Fotógrafa oficial da Arquidiocese de Salvador. Coordenadora de atendimento na Agência Clara Comunicação Católica.

4 COMENTÁRIOS

  1. Matéria super didática e enriquecedora. Desconhecia o quanto este símbolo, que passa despercebido durante nosso dia a dia, possui uma trajetória tão interessante e cheia de significado.
    Parabéns!!

  2. Matéria riquíssima e como é importante recordar que em cada detalhe da nossa Igreja existe tradição, cultura, história e muita memória!

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