Pandemia reduz estoque de banco de sangue

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Veja o drama dos brasileiros que precisam de transfusão de sangue para viver

Por Christiane Sales

Aos 50 anos, Luiz Carlos Pacheco foi diagnosticado com uma deficiência na produção de glóbulos vermelhos, que gera dores excessivas no corpo, cansaço e fraqueza. De lá para cá, já são 18 anos em que o bancário aposentado lida com a doença chamada “síndrome mielodisplásica” e precisa recorrer frequentemente aos bancos de sangue para viver. “Normalmente eu preciso de duas ou três bolsas de sangue a cada transfusão”, explica.

Como Luiz, outras milhares de pessoas precisam recorrer com frequência aos bancos de sangue para receber transfusão. Porém, com a pandemia do novo coronavírus, os estoques sofreram forte redução. “Estamos sempre em estado crítico, a pandemia só piorou as coisas. Hoje contamos com um estoque 60% abaixo do que precisaríamos”, revela a dra. Sandra Esposti, médica do Pró-Sangue de São Paulo, um dos 107 hemocentros existentes no Brasil. Somente no Rio de Janeiro, foram três mil bolsas a menos doadas em 2020, segundo dados consolidados do Hemorio. De acordo com o Ministério da Saúde, houve uma redução de cerca de 20% no número de doações em todo o País em 2020. “As demandas dos hospitais permaneceram: pacientes oncológicos, com hemorragias, alguns com Covid. Todos os pacientes crônicos precisam de doação. Com essa baixa, estamos com mais problema ainda. É preciso que as pessoas se conscientizem. A gente está tentando ter o máximo de cuidado possível com o doador. Há pessoas que dependem do sangue e que só sobrevivem com a doação. Doar sangue é importante”, explica dra. Sandra.

A forma como o Ministério da Saúde tem driblado a deficiência de doação é com o remanejamento de bolsas de sangue para estados com maior dificuldade, a partir do Plano Nacional de Contingência do Sangue. “Esse processo conta com todo o apoio operacional e logístico do Ministério da Saúde. Nesses casos, o hemocentro que fornece as bolsas de sangue não necessariamente é o mais próximo, mas sim aquele que no momento tem maior quantidade de bolsas em estoque e que possa disponibilizar sem maiores riscos para suprir a demanda de sua população”, informou a pasta em nota.

Baixa do estoque de sangue

Luiz conta que sempre enfrentou dificuldade para receber transfusão devido à baixa do estoque de sangue, mas, segundo o aposentado, a pandemia acentuou o problema. “A dificuldade de receber a transfusão sempre existe devido à incompatibilidade de sangue e à quantidade de doadores, que são poucos. Sempre estou precisando de sangue, atualmente mais do que nunca. Mas também existem muitas outras pessoas precisando. A realidade é que as pessoas têm medo de doar e, com esse problema da Covid-19, ficou mais evidente ainda essa dificuldade da doação, porque as pessoas também têm medo de ir ao hemocentro. Gostaria que as pessoas praticassem mais o ato de doar sangue. A importância de receber a transfusão é que ela socorre vidas, tira a dificuldade de viver.”

Um dos grupos de pessoas que mais recorrem aos bancos de sangue é o de pacientes em tratamento de câncer. De acordo com a assessoria de imprensa do Instituto Nacional de Câncer (INCA), as doações de sangue ao instituto tiveram uma redução de quase 30% desde o início da pandemia. “O ideal para manter regular o estoque do banco de sangue do INCA são 70 coletas diárias. Atualmente, são coletadas menos de 30 bolsas por dia.”

“Depois dos hospitais de emergência, o INCA é a unidade pública de maior movimento de pacientes no Rio de Janeiro. Além das cirurgias, os pacientes em tratamento quimioterápico ou radioterápico necessitam de transfusões de sangue e de plaquetas, regularmente. O Serviço de Hemoterapia do INCA atende às necessidades das cinco unidades do Instituto”, explica a assessoria de imprensa.

Doadores de vida

Na contracorrente, muitos brasileiros permaneceram doando sangue, apesar da pandemia. Um deles é Leocildes Carvalho, de 62 anos. Major da reserva da Polícia Militar do Rio de Janeiro, é doador há 25 anos. “Eu acredito que a motivação de doar sangue seja mais pelo sentimento humano, sobretudo pela situação que estamos vivendo na atualidade”, conta.

sangue
Pixabay.com

De acordo com a dra. Sandra, os bancos de sangue estão com os protocolos atualizados para manter a segurança dos doadores. Ainda segundo a médica, uma das estratégias adotadas pelos hemocentros é fazer parcerias com condomínios para facilitar o acesso aos doadores. 

Segundo o Ministério da Saúde, para cada coleta de sangue, até quatro pessoas podem ser beneficiadas. “Todo sangue doado é separado em diferentes componentes (hemácias, plaquetas e plasma) e, assim, poderá beneficiar mais de um paciente com apenas uma unidade coletada.”

Quem pode doar?

– Pessoas entre 16 e 69 anos e que estejam pesando mais de 50 kg.

– Mulheres podem doar de três em três meses e homens, de dois em dois meses.

– Pacientes que tiveram Covid-19 com sintomas leves também podem doar um mês depois de recuperados da doença.

– Pessoas que apresentaram sintomas mais graves da Covid-19 e que querem doar, precisam entrar em contato com o banco de sangue, antecipadamente, para uma avaliação.

– Pessoas vacinadas: 

– Coronavac ou gripe – podem doar a partir de 48h da aplicação da vacina;

– AstraZeneca, Pfizer ou outra vacina – 1 semana depois da aplicação.

– Não é necessário jejum, mas é importante evitar ingestão de alimentos gordurosos três horas antes da doação. 

– Pessoas com febre, gripe ou resfriado não podem doar temporariamente, assim como as grávidas e as mulheres no pós-parto.

Para fazer a doação de sangue, é preciso apresentar um documento com foto. Menores de 18 anos só poderão doar com consentimento formal dos responsáveis.

Christiane Sales é jornalista e redatora. Gosta de viajar e de conhecer lugares novos.

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