Rumo à construção da cidadania universal

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Atribuímos a responsabilidade aos líderes políticos para criar ambientes sadios de cidadania, mas existe também uma perspectiva individual em que cada um é responsável pela sua construção

Por Joachim Andrade

A cidadania é um dos temas que trazem muitas preocupações no contexto atual, tanto no Brasil como no mundo. Um olhar fenomênico na realidade atual – violência sem limites, ausência de diálogo, falta de solidariedade – apresenta que a cidadania passa por uma travessia.

Atribuímos a responsabilidade aos líderes políticos para criar ambientes sadios de cidadania, com estabelecimento de estruturas adequadas de convivência. Mas existe também uma perspectiva individual em que cada indivíduo é responsável pela construção da cidadania. Apresentamos isso neste pequeno artigo, a partir dos três pilares que podem ajudar a construir uma cidadania no contexto local, mas com mentalidade global.

O mundo globalizado contemporâneo cada vez mais reúne pessoas de muitas culturas diferentes, embora nem sempre harmoniosamente. Nas últimas quatro décadas, empresas multinacionais têm buscado estratégias mais eficientes para a autêntica colaboração intercultural.

Mas essa realidade multicultural é vista na Igreja, onde as comunidades religiosas, desde paróquias locais até comunidades religiosas internacionais, enfrentam o desafio da vida intercultural. As ciências sociais desenvolveram algumas abordagens construtivas, levando para uma discussão mais ampla sobre o que é a cidadania universal.

História

Jacek Dylag A/ Unsplash.com

Trilhando os caminhos históricos para buscar as origens, pode-se dizer que a “Cidadania” é um conceito que exige o conhecimento do contexto em que ele é invocado, antes de defini-lo. O significado clássico de cidadania remete aos tempos da formação da sociedade grega antiga, onde surgiu a ideia de democracia e, consequentemente, a necessidade da participação política.

A compreensão da cidadania sempre variou em tempo e espaço, sendo moldada de acordo com o que se pretendia obter ao se identificar com cidadão. Tudo consistia em participar na vida pública da cidade – polis grega –, como cidadãos, aqueles que se encontravam no interior do muro da cidade.

Mas, nos tempos de Modernidade, o conceito de cidadania passou a ser atribuído às conquistas sociais, que se iniciaram com a Revolução Francesa e com seu tríplice ideal, de liberdade, igualdade e fraternidade, que acompanhou as gerações até o século XX, com novas roupagens.

No contexto atual, com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, o conceito de cidadania se aproximou muito do conceito de direitos humanos.

Apesar de possuir diferentes aspectos e aplicações, a ideia de cidadania sempre acaba por circundar a relação entre o indivíduo e o Estado, seja na preocupação do próprio indivíduo com a coisa pública, seja na forma como o Estado permite que esse indivíduo participe das suas decisões. A cidadania se refere a um conjunto de direitos que possibilitam à pessoa participar ativamente da vida e do governo na sociedade a que pertence. Assim, são cidadãos as pessoas que gozam desses direitos, estando os “não cidadãos” excluídos da vida social e da tomada de decisões.

Direitos e deveres

Ser cidadão, contudo, não se trata de uma condição passiva de receptor de direitos. A ideia de cidadania abrange também a existência de deveres para com o Estado ao qual se possui o vínculo de nacionalidade. Na teoria constitucional moderna, o cidadão é entendido como o portador de direitos e deveres fixados por uma constituição que compreende as leis e as estruturas legais. Dessa forma, todos são livres e iguais perante a lei, mas subordinados ao Estado; isso ocorre nos regimes democráticos em que os cidadãos participaram ou aceitaram o pacto fundante da nação onde existe a ordem jurídica.

A base da cidadania são as relações de natureza diferente. Nos tempos contemporâneos, nos tempos digitais, a ênfase é dada à virtualidade para realizar os trabalhos, consequentemente levando essa virtualidade, inclusive, para as relações. As relações virtuais focam mais na subjetividade, segundo a qual o indivíduo é mais importante, há pouco espaço para pensar na cidadania e cada um é por si e Deus por todos. Mas a expressão “cidadania” permite a ideia de inserção do indivíduo na sociedade, tendo direitos em diferentes áreas do saber. Não importa sua condição social, mas tem sua dignidade respeitada, sua integridade protegida e suas necessidades básicas supridas. Podem ser identificados três pilares de cuidado que talvez forneçam uma visão global da cidadania no contexto contemporâneo: do acolher, do hospedar e do integrar.

Pilar do acolher

O pilar do acolher é um dos elementos fundamentais da cidadania. Acolher também é a proposta da encíclica Fratelli Tutti, do papa Francisco. Nos últimos anos evidenciamos que as sociedades estão se tornando cada vez mais interculturais, onde as pessoas de culturas diferentes vivem juntas em espaço relativamente reduzido, exigindo que haja relações agradáveis e harmônicas.

Para tal vivência é fundamental que ocorra uma acolhida mútua entre os grupos. Acolher e ser acolhido é a base da relação. A qualidade das relações determina a qualidade de vivência, e, quando há vivência conscientemente construída, há espaço para cidadania. Atribuímos aos governantes a responsabilidade de construir e preservar a cidadania. O pilar do acolher aponta que todos os cidadãos estão em seus lugares (famílias, culturas, etnias) e estão dispostos a receber os outros em seus ambientes, conforme exige o contexto atual. A tecnologia digital e a vivência virtual eliminaram as relações reais e, consequentemente, promoveram as relações antagônicas, dificultando a cidadania.

Pilar do hospedar

O pilar do hospedar revela um segredo de que somos peregrinos e visitantes na terra por um período temporário. Tudo o que está ao nosso alcance é de todos; portanto, todos têm direito de usufruí-lo. Uma vez que temos essa compreensão, torna-se mais fácil hospedar o outro no nosso lar – familiar, cultural e étnico.

Esse pilar conjuga-se em uma ampla série de ações em defesa dos direitos e da dignidade dos outros, independentemente da sua situação. Essa atitude promove certo empenho de todos para termos condições de nos realizar como pessoas em todas as dimensões que compõem a humanidade. Dentre tais dimensões, seja reconhecido o justo valor à dimensão religiosa, à dimensão da educação e à dimensão da sobrevivência digna.

Pilar do integrar

O último pilar situa-se no plano das oportunidades de enriquecimento intercultural, geradas pela presença dos outros. A integração sempre aponta para duplo sentido: preservação da própria identidade cultural e assimilação da identidade cultural do outro. O contato com o outro leva, sobretudo, a descobrir o seu “segredo”, a abrir-se para ele, a fim de acolher os seus aspectos válidos e contribuir, assim, para um maior conhecimento de cada um. Trata-se de um processo prolongado que tem em vista formar sociedades e culturas, tornando-as, cada vez mais, um reflexo das dádivas multiformes de Deus aos humanos. Esse processo pode ser acelerado pela oferta de cidadania, independentemente de requisitos econômicos, linguísticos e culturais.

Cidadania universal

Os pilares que apresentamos ajudam a desenvolver outras virtudes humanas, como diálogo e solidariedade em relação ao outro, apontando para a promoção da cidadania universal. Quando os governantes possuem a compreensão dos pilares, fica mais fácil cuidar do outro a partir da instalação das estruturas públicas adequadas.

No nível individual, exige-se também uma espiritualidade mais concreta encarnada na realidade. Identificamos três segredos que podem ajudar os três pilares na construção da cidadania universal. O primeiro segredo é sobre si mesmo – o reconhecimento de que se foi criado à imagem e à semelhança do divino. O segundo segredo é sobre o próximo – de que o outro também é uma manifestação do divino. Por fim, o último segredo trata do comportamento, em que se percebe que o mais importante na vida é acolher, hospedar e integrar o outro.

Joachim Andrade é sacerdote indiano, missionário do Verbo Divino. Radicado no Brasil desde 1992. Doutor em Ciências da Religião, professor e membro da equipe interdisciplinar da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB).

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