Quando devo ir ao médico, se não estou sentindo nada?

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Infelizmente, os longos períodos sem acompanhamento médico, na vida da maioria dos homens, cobram seu preço

Por Dr. Vitor Last Pintarelli

Uma das maiores preocupações que os pais têm em relação aos filhos é o ensino de bons hábitos que se conservem por toda a vida. Isso inclui comportamentos, normas de boa educação, virtudes, um estilo de vida saudável, além de uma série de outras questões que, se forem aprendidas desde a infância, terão maior chance de produz os efeitos desejados. Dentre esses hábitos, um dos menos lembrados, especialmente pelos homens, é a realização de consultas médicas periódicas.

Considero essa situação muito curiosa, porque, como médico geriatra, duas das perguntas que mais ouço são: “Com que idade devo começar a consultar um geriatra?” e “O que devo fazer para envelhecer com saúde?”. Em certa medida, a mesma resposta pode ser dada para ambas. Realizar acompanhamento médico de rotina, para fins preventivos, não deve ser uma preocupação apenas de pessoas idosas, e cuidar da saúde não deve ser postergado para idades avançadas. Na verdade, quando respondo a estas perguntas, costumo brincar, dizendo que a consulta com o geriatra pode ser marcada a partir do momento em que o paciente alcança a marca dos 18 anos ou dos 40 kg: o que acontecer primeiro… É evidente que estou exagerando, mas não muito.

Bons hábitos

Durante a infância, as mães levam as crianças ao pediatra periodicamente. A maioria dessas boas mulheres se preocupa com seus rebentos, não dá ouvidos aos seus protestos, quando eles sentem medo das agulhas das vacinas e injeções, e se esforça para manter em dia as consultas para monitorar seu crescimento e desenvolvimento. A partir da adolescência, a situação muda por completo. As moças passam a frequentar, com certa regularidade, os consultórios de ginecologia, mas os rapazes praticamente só veem a cara do médico do pronto-socorro quando se machucam no esporte ou apresentam algum outro problema agudo. 

Durante a vida adulta, alegações comuns para não ir ao médico são a falta de tempo e a dificuldade para marcar consultas e exames, o que reduz os atendimentos a situações pontuais, como avaliações de medicina do trabalho, visitas ao oftalmologista, ou quando é descoberta alguma doença mais incômoda. Esse costuma ser o caso, na meia-idade, dos problemas de próstata, que levam muitos homens cinquentões e sessentões a consultarem o urologista.

Quando procurar o médico?

Infelizmente, os longos períodos sem acompanhamento médico, na vida da maioria dos homens, cobram seu preço. Não é raro que, durante esses anos, apareçam doenças silenciosas, como hipertensão arterial, diabetes mellitus, aterosclerose, doença pulmonar obstrutiva crônica (nos tabagistas), cirrose hepática (nos etilistas) e outras. Além disso, nos homens também são muito frequentes, e subdiagnosticados, os quadros neuropsiquiátricos, como ansiedade, depressão e outros, sobre os quais o preconceito atrapalha a busca por atendimento médico.

Quando devo ir ao médico
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O resultado desse fenômeno pode ser expresso em números. As mulheres possuem uma expectativa de vida, em média, sete anos maior do que os homens. Os homens são a maioria dos mortos por causas evitáveis, sejam elas decorrentes de padrões de vida associados ao perigo (mortes por causas externas) ou por doenças preveníveis e tratáveis, que são descobertas em fases avançadas. Perdem-se não somente anos de vida como também qualidade de vida.

Portanto, quando devo ir ao médico, se não estou sentindo nada de diferente? Primeiramente, escolha um médico como referência (clínico, médico de família ou geriatra) e agende uma consulta para ele conhecer e avaliar suas condições de saúde, ou seja, para atualizar seu check-up. Depois, combine com seu médico qual a frequência recomendável, em seu caso, para realizar novas consultas e exames. Assuma o acompanhamento médico como um compromisso importante e lembre-se de que, ao fazê-lo, você está cuidando não somente de si mesmo como também está dando um bom exemplo aos seus familiares, o que é fundamental para que eles também adquiram este e outros bons hábitos.

Dr. Vitor Last Pintarelli é médico geriatra e professor da disciplina de Geriatria da Universidade Federal do Paraná. Autor de artigos científicos e capítulos de livros. É casado e pai de três filhos.

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