Alimentar e ser alimentado: o banquete
da vida

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16 º Domingo do Tempo Comum

Evangelho – Mc 6,30-34

Por Gisele Canário

Na primeira parte do Evangelho de Marcos (cf. Mc 1,1–8,26), está integrado o evangelho que refletimos hoje: a atividade de Jesus na Galileia e nas regiões vizinhas. Aqui temos a formação da comunidade que se encontra com Jesus em casa. A comunidade passa por vários problemas externos e internos, a saber: fome, doenças, individualismo, preconceito (cf. Mc 1,34.44; 3,12; 5,43; 6,30-44; 7,36). Essa primeira parte só termina com a cura do cego de Betsaida (cf. Mc 8,22-26), indicando que a comunidade precisa abrir os olhos para compreender que Jesus é o Messias-servo.

No século I, período em que esse texto da nossa reflexão foi escrito, a quantidade de pessoas pobres e doentes era enorme. A cegueira era comum, podendo ter causa hereditária ou ser consequência de má alimentação ou falta de higiene. Uma pessoa com lepra era considerada morta e totalmente excluída da sociedade, uma ameaça para as pessoas; por isso, era jogada fora. Qualquer doença de pele, contagiosa ou não, era classificada como lepra. Havia muitas pessoas aleijadas, epiléticas ou hidrópicas. Doenças mentais e psíquicas eram associadas ao demônio, por exemplo, os casos de mudez, surdez, epilepsia, esquizofrenia e, até mesmo, depressão ou ansiedade. É nesse contexto que Jesus divide o pão e provoca os seus discípulos à solidariedade mais profunda; é o ápice do seu Projeto. 

Partilhar a vida e o pão

Todos os dias partilhamos as nossas labutas, seja com alguém da nossa família, seja com algum amigo. Faz parte da nossa natureza humana esse não querer estar só. Assim aconteceu com os apóstolos: Jesus os enviou em missão e, na volta, eles se reuniram com o Mestre e relataram seus feitos e ensinamentos. É muito provável que se trate de um momento cheio de carinho e entusiasmo.

Diante da movimentação, do constante ir e vir das pessoas, Jesus convida os apóstolos a buscarem um lugar deserto e a descansar um pouco. Deserto é lugar de recompor as energias, de encontro consigo mesmo e com Deus. Jesus tinha o costume de se retirar para algum lugar deserto em situações de dificuldade, ou para pensar sua vida e sua missão, ou mesmo para rezar ou se proteger (cf. Mc 1,12-13.35.45). Também o deserto tem a ver com a saída dos escravos do Egito em busca da liberdade. Jesus e os apóstolos estão envolvidos com a multidão: “Não tinham tempo nem de comer”.

Partilha
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Nesse texto lemos: “A multidão se apinhou, de tal modo que eles não podiam se alimentar”. A proposta de ir até o deserto não deu certo, pois a sede e a necessidade da multidão falam mais alto, a ponto de o relato dizer que “muitos correram para lá a pé, e chegaram antes”. A luta pela sobrevivência nos faz ter como principal fonte a busca por suprir as necessidades vitais. A multidão agora se encontra no deserto. Ao desembarcar, Jesus vê a multidão e é tomado de compaixão por ela. A compaixão é um sentimento que vem de dentro, das entranhas (cf. Os 11,8).

Partilha, gesto de amor

Jesus provoca seus discípulos para que façam a partilha do pão. Este é o principal ensinamento de Jesus: a partilha e a solidariedade. A vida cristã é um chamado constante à partilha: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Se cinco mil homens foram alimentados, onde estão as mulheres e as crianças? É preciso recordar que elas também fazem parte do movimento de Jesus, e a descrição faz aparecer apenas os homens. De qualquer forma, cinco mil era um número maior que a população de quase todas as cidades da região. 

Assim sendo, a partilha do “pão nosso de cada dia” se faz realidade. Diante da multidão, Jesus sente compaixão, pois “estavam como ovelhas sem pastor”. Esse pequeno ato de Jesus apresenta a sua liderança, convoca seus discípulos para organizar a multidão e realizar a partilha. Logo de início observamos que aderir ao projeto de Jesus exige superar a lógica do mercado, gerida pela lei do lucro e do individualismo, e assumir a partilha e a solidariedade.

O pão partilhado na Eucaristia

Desenvolver uma espiritualidade eucarística – o pão partilhado – é um constante desafio para o qual somos provocados. Superar o perigo do individualismo e empenhar nossa vida na construção de uma sociedade justa e solidária é um grande desafio. A fome de pão e sede de justiça é uma constante em nossa sociedade atual. O papa Bento XVI, na Encíclica Sacramentum Caritatis, nos provoca em relação à responsabilidade social de todos os cristãos: “Com efeito, quem participa na Eucaristia deve empenhar-se na edificação da paz neste nosso mundo marcado por muitas violências e guerras, e, hoje de modo particular, pelo terrorismo, a corrupção econômica e a exploração sexual” (n. 245). Todos esses problemas causam outros fenômenos degradantes que geram preocupação. Essas situações não podem ser encaradas de modo superficial. Precisamente em virtude do mistério que celebramos, é necessário denunciar as circunstâncias que estão em contraste com a dignidade do ser humano, pelo qual Jesus derramou o seu sangue, afirmando, assim, o alto valor de cada pessoa. A caminhada é árdua! A Eucaristia é o pão da vida que alimenta nosso cotidiano e nossa caminhada na prática da nossa existência. 

Gisele Canário é teóloga, licenciada em Geografia, professora do Ensino Superior e da Educação Básica, e, juntamente, mãe da Maria Clara. Encantada e empenhada, por meio do Centro Bíblico Verbo, pelo estudo bíblico produzido em comunidade. O amor pela natureza e pela bicicleta são uma constante, mesmo que, por vezes, apenas sonho! Facebook: Hora da Pastoral. Instagram: @giselecanario.

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