Pandemia afasta jovens e adolescentes do direito à educação

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Especialistas apontam a necessidade de uma rede de apoio para motivar estudantes a permanecerem na escola

Por Renata Rocha

Desde que começaram as aulas on-line, a vida de muitas famílias virou do avesso. Antes da pandemia, a temática da educação já era desafiadora. Porém, neste período de distanciamento social, a suspensão das aulas presenciais nas escolas públicas e particulares evidenciou uma série de desigualdades.

A publicação “Retratos da educação no contexto da pandemia do coronavírus – um olhar sobre múltiplas desigualdades” reúne cinco estudos, realizados entre maio e julho de 2020, que se propuseram a coletar dados e depoimentos sobre o ensino no país.

O objetivo do estudo, fruto da parceria entre a Rede Conhecimento Social, as Fundações Carlos Chagas, Lemann, Roberto Marinho, Iede, Instituto Península e Itaú Social, era servir como subsídio para que redes de ensino e escolas pudessem ter se preparado melhor para 2021.

Uma das pesquisas que integram a publicação mostra que, três meses depois do início da suspensão das aulas presenciais, ainda havia cerca de 4,8 milhões de estudantes, o equivalente a 18% do total de alunos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio da rede pública, que não teriam recebido nenhum tipo de atividade, nem por meios eletrônicos nem impressos.

Educação, direito de todos

Além disso, mais de quatro em cada dez estudantes, o equivalente a 42%, não teriam, segundo seus familiares, equipamentos e condições de acesso adequados para o contexto da educação não presencial.

Educação on-line
Vlada Karpovich/ Pexels.com

A questão é que a educação é um direito de todos, garantido pela constituição, porém, fazer de fato esse direito valer tem sido um grande desafio há anos. “O Brasil sempre foi o país em que a educação não recebeu a devida atenção. Até porque, vale ressaltar que qualquer investimento em educação não significa retorno eleitoral. Para muitos políticos, investir em obras, estradas, metrô, que é algo concreto e visível, acaba ganhando mais atenção do que um projeto para o país por meio da educação, uma vez que a educação traz retornos a médio e longo prazo, já uma obra traz impacto imediato. O político não investe porque a própria sociedade não cobra isto como uma prioridade”, destaca o sociólogo e cientista político, Rodrigo Prando.

Dificuldades a serem superadas

Um dos grandes impactos a ser sentido ainda este ano, de acordo com os estudos, poderá ser o aumento da evasão escolar daqueles que não seguirão estudando em 2021. Mais de um em cada quatro jovens do Ensino Médio já pensou em não voltar para a escola ao final do período de suspensão das aulas. “Na pandemia a escola se distanciou das necessidades do estudante, isto gerou no aluno o sentimento de isolamento e abandono. Muitos não têm acesso à Internet, a um dispositivo para acessar as aulas, além das próprias dificuldades de aprendizado. Eu sempre me questiono se, dentro disso tudo, foi o aluno que abandonou a escola ou se a escola que abandonou os alunos? Mas o mais grave disso é culpabilizar o aluno ou as famílias por esse abandono escolar”, destaca a assistente social e doutoranda do curso de Serviço Social da PUC São Paulo, Carla Teodoro.

Vitor era aluno num curso técnico, numa instituição pública, quando as aulas foram suspensas por conta do coronavírus. Diante da insegurança do momento, ele resolveu abandonar o curso e traçar novas metas. “Na metade de março de 2020, as atividades na escola foram suspensas e, só depois de 2 meses, que o ensino à distância começou. Durante esse tempo, todas as outras escolas já tinham testado e implementado um tipo de ensino remoto. Isso me deixou muito inseguro para fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), então decidi que, se eu quisesse estudar em 2020, seria por minha conta. Assinei um curso on-line de pré-vestibular e, em julho, decidi sair de vez e fazer um supletivo para estar 100% focado no ENEM”, lembra.

Se, para os estudantes, a pandemia tem sido desafiante, para os professores a realidade não é diferente. A professora Silvia Fernandes é doutora em Engenharia Civil e atua num curso técnico no Espírito Santo. Ela relata que tem buscado várias alternativas para ajudar seus alunos a seguirem em frente. “Mostrei à turma que utilizaríamos as ferramentas disponíveis no momento para que eles conseguissem trabalhar o aprendizado. Foi um grande desafio, porque nem eles nem eu estávamos acostumados com o ensino remoto. Então as aulas passaram por uma mudança na dinâmica. Aos poucos, fui usando os recursos disponíveis para prender a atenção deles nas aulas e fazer com que, mesmo com a pandemia, eles não desistissem de estudar”, relata.

Apoio da família e dos educadores

A iniciativa da professora tem gerado resultados positivos. Um de seus alunos, Yuri, relata que, mesmo com as dificuldades, optou por continuar. “Eu pensei em trancar o curso em 2020 e voltar quando as aulas normalizassem, mas, quando parei para pensar nos pontos positivos e negativos sobre essa decisão, acabei vendo que a melhor opção seria continuar, e vejo hoje que essa foi a melhor escolha”, diz.

O apoio da família e dos educadores pode ter feito a diferença na história do Vitor, do Yuri, e de tantos outros estudantes que, mesmo tendo motivos para desistir, persistiram. “O apoio da família é muito importante, mas nós temos muitos analfabetos funcionais, onde os responsáveis pela criança ou adolescente sabem escrever apenas o nome. Em outras situações, temos aqueles que são alfabetizados, mas precisam dar conta do trabalho fora de casa, e o aluno caminha sozinho. Mas esta rede de apoio é muito importante nesta atual realidade, uma responsabilidade dos familiares, mas também dos profissionais de diversas áreas”, destaca Teodoro.

Preocupação com o futuro

Na rede pública ou privada, no contexto de cada realidade, as famílias se preocupam com os impactos deste tempo, principalmente, para o futuro. Larissa Zatta tem dois filhos no Ensino Fundamental que estudam numa instituição privada. Mesmo tendo contato remoto com os professores diariamente, ela teme pelo aprendizado das crianças. “Eu acho que eles estão aprendendo, mas não na mesma medida, da mesma forma, na mesma proporção se estivessem vivendo a normalidade da sala de aula”, avalia.

Necessidade de políticas públicas

A assistente social Carla Teodoro acredita que é necessário um olhar conjunto das instituições para resolver a questão: “É preciso olhar a realidade de cada aluno para trabalharmos cada situação de forma particular. É algo que precisa ser muito dialogado e, a partir daí, pensar em projetos de ação que vão acessar as necessidades do estudante e das famílias, neste contexto educacional”.

“A educação brasileira é um fenômeno que merece atenção dos estudiosos, mas especialmente daqueles que são formuladores de políticas públicas. Não existe nenhuma possibilidade de se imaginar o crescimento econômico, a melhoria da distribuição de renda, a qualidade da mão de obra, se não for por meio da educação”, finaliza o sociólogo e cientista político, Rodrigo Prando.

Renata Rocha é jornalista, radialista e mestra em Comunicação. Tem vinte anos de experiência na área e já fez muitas coisas legais nesta vida, mas a melhor de todas foi ter-se casado com o Wayner e construído uma família linda! Seu grande aprendizado se constitui aí!

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