“Tu tens palavras de vida eterna”

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21 Domingo do Tempo Comum

Evangelho – Jo 6,60-69

Por Maria Antônia Marques

Diante das exigências de assumir a prática de Jesus, muitos dos seus discípulos desistiram: “Essa palavra é muito dura! Quem pode escutá-lo’” (cf. Jo 6,60). No fim do século I, a perseguição enfrentada pelas comunidades levou muitas pessoas a abandonarem o seguimento de Jesus. Havia uma expectativa na vinda de um Messias-rei, poderoso e que viesse para restaurar Israel (cf. Jo 6,15). Mas Jesus era um Messias diferente e sua proposta não se restringia a um grupo, mas ao mundo todo.

No contexto do século I, na Ásia Menor, quem assumiu a vida e a prática de Jesus acabou sendo expulso da sinagoga, e, fora desta instituição, as pessoas estavam sujeitas à perseguição do Império Romano. Para manter seus privilégios, muitos preferiram ficar na sinagoga. No discurso do pão da vida, é possível identificar que há uma mística do entregar-se a si mesmo: “Aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele” (cf. Jo 6,56). Comer a carne e beber o sangue de Jesus é fazer-se um com ele. É preciso entender que carne significa a vida de Jesus com sua palavra e prática, e sangue, a sua paixão e morte. Esse é um caminho que pode levar à entrega da vida (cf. Mc 8,34-35).

Abraçar o projeto de amor

A situação é crítica e exige ser enfrentada, Jesus não foge nem ameniza as exigências do seu discipulado. Ele questiona e sugere que o escândalo pode ainda ser maior: “E se vísseis o Filho do Homem subir para onde estava antes…?” (cf. Jo 6,62). O subir pode ser uma referência à cruz ou voltar para o Pai. Assumir a cruz é ser fiel ao projeto do amor até o fim. É preciso mudança de mentalidade para compreender que a morte não é a palavra final, o que é impossível para quem ainda está apegado aos valores e às honras propostas pela sociedade. Afirmar que ele subiria para onde estava também provocou escândalo e desconfiança. Afinal, as origens de Jesus eram conhecidas.

Palavras de vida eterna
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Tentando convencer a sua audiência, o Evangelho afirma: “As palavras que eu vos disse são espírito e vida” (cf. Jo 6,63). Para o autor, carne e espírito são duas maneiras de o ser humano viver. Viver segundo a carne significa a pessoa entregue às limitações impostas pela condição humana. A pessoa que vive segundo o espírito tem uma força de vida que a ilumina e a conduz (cf. Gl 5,19-22). O fruto do Espírito é o amor, fundamento de uma vida em plenitude.

A pessoa que rejeita a vida nova proposta por Jesus diz não ao dom de Deus. Diante da retirada de muitos, Jesus questiona os Doze: “E vós, não quereis partir?” (cf. Jo 6,68a). É momento de decisão de fé. Pedro, usando a linguagem joanina, expressa a sua adesão: “Senhor, a quem iríamos? Tu tens palavras de vida eterna?” (cf. Jo 6,68b). “Quanto a nós, cremos e conhecemos que tu és o Santo de Deus”. Uma afirmação que expressa a visão de fé a partir da experiência. Pedro representa os Doze e a comunidade (cf. 1Jo 1,1-3). O título Santo de Deus é um reconhecimento de que ele é o Filho de Deus.

E vós, não quereis partir?

Muitas vezes, abandonamos o projeto de Deus, revelado em Jesus, para fazer viver nossos próprios projetos. O questionamento feito à comunidade dos anos 90 continua sendo atual. Diante de tantas realidades que excluem e matam as pessoas, como professamos a nossa fé? Somos chamadas e chamados a dar continuidade à missão de Jesus: implantar o Reino de Deus, que é vida em abundância para todas as pessoas.

O quarto domingo é dedicado ao Ministério do Leigo. Questionemo-nos de que maneira vivemos o nosso seguimento de Jesus? Como continuamos a ser fiéis diante das negações e rejeições dos valores do Reino de Deus. O papa Francisco convida as leigas e os leigos cristãos a serem testemunhas de Jesus no espaço da vida onde atuam. Além de servir no âmbito da Igreja institucional (ex.: ministros da Palavra, da Eucaristia, da música litúrgica, da catequese etc.), leigas e leigos podem ser semeadores do ensinamento de Jesus nos seus espaços do trabalho, onde ganham o pão de cada dia. Que as famílias sejam espaços de educação para a vivência cristã.

Maria Antônia Marques é assessora do Centro Bíblico Verbo e professora da área de Bíblia no ITESP – Instituto São Paulo de Estudos Superiores. Além de ter feito mestrado e doutorado em Bíblia, ela afirma que aprende constantemente com as pessoas que encontra nos cursos e encontros bíblicos.

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