E então ergui os olhos para o céu…

Olhar
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O caminho cristão é um caminho em que aprendemos, constantemente, a olhar

Por Mariana Venâncio

A Bíblia está recheada de alusões ao olhar de Deus. Foi assim que o Senhor se revelou a Moisés e a todo o povo, quando tirou Israel da escravidão no Egito: “Eu vi, eu vi a miséria do meu povo…” (cf. Ex 3,7). Desde então, o povo espera em Deus como Aquele que olha dos céus com um olhar terno e protetor: “Olha do céu e vê, visita esta vinha: protege o que tua direita plantou” (cf. Sl 79,15-16). Jesus, rosto visível do Pai, também dirigiu seu olhar terno às pessoas, especialmente àquelas que não eram enxergadas pela sociedade. Com frequência, os Evangelhos anunciam os encontros de Jesus pelo olhar. Ele olha e percebe as situações mais aflitivas, que ninguém estava disposto a perceber.

Abrir os olhos

Quero chamar a atenção para dois episódios bíblicos que são extremamente significativos a esse respeito. O primeiro deles refere-se mesmo ao encontro com Jesus e é contado por São Marcos (8,22-26). A cura do cego em Betsaida é um dos episódios do ministério de Jesus fora da Galileia, que Marcos concentra mais ou menos no centro do seu Evangelho. A cena é intrigante: trazem um cego a Jesus pedindo que ele o toque. Jesus inicia uma série de experiências sensíveis que farão com o que o cego possa sentir sua presença. Não é suficiente que Jesus o olhe, porque ele não pode sentir esse olhar. Então, Jesus o toma pela mão, leva a outro lugar, cospe em seus olhos, impõe sobre ele as mãos. Jesus dirige-lhe um olhar diferente, um olhar que se traduz em toque, em proximidade, em presença. O efeito desse encontro não é uma simples cura, no entanto. O cego recupera a visão em um processo também. Sempre me perguntei o que significava esse: “Vejo as pessoas como se fossem árvores andando…” (v. 24), e foi então que a sugestão de Anselm Grün me abriu os olhos…

Segundo a leitura do monge alemão, Jesus não realiza simplesmente um milagre instantâneo para o cego, mas o ensina a ver as pessoas, em um caminho pedagógico ao qual todo discípulo é convidado. É por isso que essa narrativa está muito bem situada no conjunto em que Marcos vai narrar o convite que Jesus faz a novos discípulos, fora da Galileia. Ser discípulo inclui aprender muitas coisas com Jesus – e uma delas é olhar.

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Quando o cego passa pela primeira etapa da cura, ele vê as pessoas como árvores andando. Isso é suficiente para que ele as enxergue e não tropece nelas. Em outras palavras, é suficiente para que ele saiba desviar das pessoas quando as encontra pelo caminho. Mas não é para isso que serve o olhar do discípulo, se ele deseja enxergar como Jesus. É então que o discípulo avançará para uma segunda etapa do aprendizado. Ele precisa ser capaz de enxergar as pessoas por inteiro, distintamente, ver a expressão de seu rosto e, assim, alcançar sua interioridade. É assim que Jesus enxerga as pessoas: não com um olhar que permite desviar, mas com um olhar que permite encontrar, desvendar, sentir, um olhar que vai além da imagem e se traduz em experiência e sensibilidade.

Aprender a olhar

E então acho oportuno recordar um pequeno detalhe em uma narrativa do livro apocalíptico de Daniel. Em uma de suas narrativas densamente figuradas, Daniel irá contar os tormentos passados pelo rei Nabucodonosor em seu orgulho. Do alto de sua vaidade, ele será castigado e se tornará desumano, praticamente um animal, durante longo tempo. Segundo a narrativa, “ele foi expulso da convivência dos homens; comeu erva com os bois; seu corpo foi banhado pelo orvalho do céu; seus cabelos cresceram como penas de águia e suas unhas como garras de pássaros” (cf. Dn 4,30). No tempo marcado, no entanto, tem fim seu castigo com uma simples ação: “Eu, Nabucodonosor, ergui os olhos para o céu” (cf. Dn 4,31). Olhar para o céu é o que distingue homem e animal, é o que faz com que o rei recupere sua humanidade, é o que lhe devolve sua vocação e identidade. De fato, o ser humano é quem pensa sobre o divino e busca o transcendente, quem olha para os céus na esperança de lá encontrar Alguém…

Assim, o caminho cristão é um caminho em que aprendemos, constantemente, a olhar… Olhamos para as pessoas à nossa volta, olhamos para os céus, olhamos para Deus e para a eternidade. Olhamos, porque Deus nos olhou primeiro. Quem dera fizéssemos de cada breve olhar uma experiência do amar… Nossas relações estariam mais recheadas de responsabilidade e intensidade, não seriam tão marcadas pela efemeridade de quem enxerga as pessoas como árvores. Será que ainda há tempo para que aprendamos a enxergar, para além dos nossos olhos?

Mariana Aparecida Venâncio é teóloga leiga, doutoranda em Estudos Literários. Dedica-se à pesquisa da Bíblia como Literatura, é autora de roteiros homiléticos para a CNBB e oferece cursos bíblicos online. É encantada pela arte de criar: escrever, tecer, cuidar, amar.  Contato: [email protected] Instagram:@cursosbiblicos.mv

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