O que os sonhos dizem sobre nós?

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Por Elizete Moura dos Santos

Desde a Antiguidade, recorrer a um ancião, curandeiro ou sábio para interpretar um sonho era uma prática recorrente. As crenças e os mitos eram forças poderosas que desmistificavam a obscuridade dos símbolos presentes em um sonho. 

Nos caminhos empreendidos por Sigmund Freud (1856-1939), a investigação dos conteúdos obscuros ganha novos rumos. Em sua obra sobre a Interpretação dos Sonhos, publicada em 1899, mas com registro de 1900, Freud define a magnitude da interpretação dos sonhos como sendo a via régia do inconsciente.

Ao lançar importantes contribuições, o fundador da Psicanálise, médico e neurologista, descentraliza o lugar privilegiado da razão. A janela para entender o inconsciente abre-se nos sonhos.

O advento da clínica 

A clínica psicanalítica não é alheia à etimologia da palavra. Do latim clinicus, seu significado está atrelado ao médico que visita os pacientes em seus leitos. Advém do grego klinike tekhne, que significa “prática à beira do leito”. 

Toda prática que tem como objetivo “inclinar-se” para escutar o sofrimento do outro nos remete ao que Freud (1913) afirma sobre o “início do tratamento” psicanalítico: “Fale-me tudo aquilo que lhe vem à mente”. Nas tramas das formações do inconsciente, nada passa despercebido. Sintomas, chistes, atos falhos e os sonhos. 

Silenciar para escutar-se, falar para compreender-se. Condições de quem se dispõe a encarar as “verdades” ocultas de um eu que insiste em proteger-se dos conflitos da vida. “Conte-me aquilo que sonhas, direi como é o seu íntimo.”

Sonhar, relatar e interpretar

Para o método psicanalítico, um sonho “não é apenas um sonho”. Porém, não se trata de simples interpretação. O contexto clínico se revela na relação entre analista e analisando. Característica essencial para se compreender o elemento simbólico. Cada sonho tem sua singularidade.  

Interpretação do sonho
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Os conteúdos manifestos e latentes, o trabalho do sonho, os restos diurnos, as recordações do passado… Os sonhos se revelam como a realização do mais sublime desejo. Imagens e palavras descritas pelo sonhador são as marcas mais profundas de sua história. 

Nos sonhos, o movimento consciente se refaz, as barreiras se rompem e o solene espaço cede lugar aos devaneios inconscientes. Desejos reprimidos e recalcados são fenômenos da vida psíquica que, nas entrelinhas de uma elaboração, fazem emergir contradições. 

O “que lhe ocorre em relação a esse sonho?” (Freud, 1900) 

Esse questionamento, a teoria psicanalítica não pode dispensar. Segundo Freud, na elaboração secundária de um sonho, busca-se racionalizar, perdendo-se o horizonte do desejo reprimido. No relato de um sonho, manifesta-se a censura. O inconsciente encontra seu êxito nos tropeços das palavras. 

A teatralização faz parte da deformação do sonho, sendo um mecanismo importante. Nos relatos, alguns detalhes se perdem, outros espontaneamente deslizam na cadeia de significantes, aliando-se a associações que fazem parte da história do sonhador. 

Muito além de um sonho 

Personagens desconhecidos, características familiares. Diversos elementos se deslocam, perdendo-se os detalhes importantes de um sonho. Nas travessias da vida, a interpretação se enriquece pelas infinitas possibilidades associativas.   

O valor psíquico de um sonho se expressa na capacidade de agregar várias características em um único detalhe. Do mundo interno e externo, surgem ideias representadas pelas imagens. Na intensidade da frase “eu te amo”, o significante da palavra “amor” surge em uma peça de roupa usada em uma ocasião especial. 

Todo sonho pode ser interpretado? Mesmo dentro de um espaço analítico, a interpretação dos sonhos tem seus limites. A essa impossibilidade Freud denominou de “umbigo do sonho”, ponto insondável que não se esgota. 

Portanto, “sonhar é acordar-se para dentro”, conforme afirma o poeta Mario Quintana (1906-1994), podendo dizer muito sobre nossa realidade interna, pois cada sonho só é possível de ser interpretado à luz da história do sonhador. Mistério que revela apenas a alegria de poder afirmar para si mesmo: “Eu nunca teria imaginado tal coisa, nem mesmo em meus sonhos mais fantásticos!” (Freud, 1900, p. 98).

Elizete Moura dos Santos é membro da Pia Sociedade Filhas de São Paulo (Irmãs Paulinas); graduanda em Teologia; licenciada em Filosofia; psicóloga clínica CRP-06/177899; especialista em adolescência e juventude; associada ao Corpo Freudiano, Escola de Psicanálise de João Pessoa.

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