O que a Covid-19 trouxe de bom para mim?

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Pode parecer estranho falar assim, mas tudo que acontece de ruim sempre tem algo bom para nos mostrar

Por Simone Oliveira

Falta de ar, dores no peito, febre alta, perda do gosto ou cheiro das coisas. Assim foram alguns dos sintomas apresentados por aqueles contaminados pela Covid-19. Além dessas alterações físicas, algumas dessas vítimas apresentaram sequelas que permaneceram no decorrer da recuperação. 

Outras mudanças ocorreram também no campo afetivo e emocional, e essas permanecem agora na caminhada de vida deles, que passaram pela dura realidade que a Covid-19 apresentou. A dor de quase morte nos lembra da finitude de todos nós e o quanto a vida poderia ser bem mais bem vivida. Como nos fala a Sagrada Escritura: todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus (cf. Rm 8,28).

Foi a força do amor que me fez vencer a Covid. (Raffael Teixeira, enfermeiro)
Covid-19
A Covid -19 é um desprezar, afirma o enfermeiro Raffael Teixeira. Arquivo pessoal

“A Covid é um desprezar.” Esta é a frase sempre dita por Raffael Teixeira, enfermeiro de 22 anos que trabalha na linha de frente no combate à doença e que acabou contraindo o vírus ainda na primeira onda. “Senti os primeiros sintomas de maneira intensa: febre que não passava, gosto de nada na boca, sem fome nenhuma. Deitado o tempo todo pronado (posição de bruços). Graças a Deus não precisei de internação”, relata Raffael.

A Covid-19 o obrigou a permanecer quase um mês afastado do trabalho. “Tinha medo de tudo, não andava direito com receio de cair, medo da falta de ar, de passar o vírus para outras pessoas… Perdi 11 quilos, além da queda intensa de cabelo. Foi terrível!”

Se, por um lado, a Covid-19 trouxe todos esses danos ao jovem enfermeiro, por outro, reforçou algo que o rapaz já trazia consigo no trato com os pacientes: essas pessoas são o amor da vida de alguém. “Fui taxado como louco, pois comecei a ver cada paciente como um parente meu. Pensava sempre: esse homem ou essa mulher é o amor da vida de outra pessoa.”

Brevidade da vida. Não temos todo esse tempo que achamos que temos. Estamos aqui por período determinado. Ame hoje, viva hoje. O amanhã é uma surpresa. (Raffael Teixeira, enfermeiro)

A saudade da esposa e do filho e a dedicação médica, aliadas à fé, foram necessárias para que o auxiliar administrativo Leonardo Catanho, de 41 anos, superasse os dez dias internado na luta pela vida. Foi em uma festa de aniversário, restrita a alguns parentes, que Leonardo contraiu a doença. Todas as pessoas presentes foram contaminadas, inclusive idosos vacinados.

Tive muito medo de me despedir da minha esposa. De nunca mais vê-la. (Leonardo Catanho, auxiliar administrativo)
Coronavírus
Pixabay.com
COVID-19
Leonardo Catanho com a esposa e o filho. Arquivo pessoal

A Covid-19 rapidamente se instalou no seu organismo e o levou a buscar o hospital no terceiro dia dos sintomas apresentados. “Senti muita moleza e febre, e, quando cheguei ao hospital, fui informado de que já tinha minha vaga na UTI. Estava com 75% do pulmão comprometido. Aquilo me causou muito mal-estar”, diz Leonardo.

Durante os dias de internação, Leonardo sentiu o quanto o cuidado com o próximo faz toda diferença. “Um médico que veio me avaliar me incentivou com palavras encorajadoras, ao me dizer que havia pessoas rezando e me esperando lá fora, e que isso deveria ser a minha força para sair do hospital. Chorei muito.”

Leonardo sentiu forte o poder das orações que os familiares, amigos e até desconhecidos fizeram pela recuperação dele, e isso o marcou profundamente. “O amor que recebi através de mensagens de fé e de muita energia positiva não se compara com nada; senti Deus ao meu lado. Foi a fé em Deus que me salvou”, afirma.

Quantos outros morreram de Covid e não tiveram a sorte que eu tive. Isso me deixou muito sensibilizado. Hoje agradeço a Deus pelo dom da minha vida. (Leonardo Catanho, auxiliar administrativo)
luto
Psicóloga Eliane Ferreira. Arquivo pessoal

Para a psicóloga Eliane Ferreira, as experiências de quase morte ou o luto nos levam a viver sentimentos e emoções extremas. “Tendemos a nos ocultar ou fugir mediante situações difíceis. É importante entrar em contato com essa realidade, sentir cada emoção. Só assim transformamos essa dor em algo positivo, aproveitando cada instante da nossa vida de maneira única e especial.”

O maior cuidado conosco é o de nos acolher, sentir as nossas emoções e nos respeitar acima de tudo. Viver bem com leveza. (Eliane Ferreira, psicóloga)

Ela nos lembra também de que a valorização e a boa vivência do nosso dia a dia é algo muito particular, e que sabemos o que nos é importante em determinado momento. “O momento presente para mim é um verdadeiro ‘presente’, mas para o outro pode ser apenas mais um dia.”

No entanto, há caminhos que podem nos ajudar a valorizar o nosso maior dom, que é a própria vida, como a prática de atividades físicas, a meditação, uma alimentação equilibrada, sem falar de sentir, acolher e escutar aquilo que o nosso coração nos fala. Amar-nos para amar o nosso próximo.

Simone Oliveira é jornalista, radialista e assessora de Comunicação e Imprensa das maiores festas religiosas católicas de Pernambuco. Uma das alegrias que a vida lhe traz é contemplar o mar junto de quem ama. O simples faz toda a diferença.

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