O futuro da Igreja no pós-pandemia

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Não se fala de futuro sem uma leitura do passado e do presente

Por Crispim Guimarães dos Santos

O futuro da Igreja entra nessa análise, porque as pessoas percorrem essas fases temporais, inseridas na sociedade. Mas a Igreja deverá fazer uma avaliação à luz da revelação.

Se o chronos é um limite, a humanidade é convidada a viver o kairós, dando ressignificação aos fatos.

O impacto da pandemia

A pandemia exige uma análise do agir humano. Esse, desencadeou o presente e seus impactos no futuro da humanidade. Aos bispos do Brasil, o Cardeal Tolentino disse: “Apercebemo-nos, e de uma forma dramática, que os nossos discursos, as nossas práticas estabelecidas, os nossos espaços, a nossa organização foram, de um momento para outro, também colocados em crise ou declarados inadequados. E transcorridos esses meses, dentro de nós sabemos como era o passado, mas não sabemos ainda exatamente como será o futuro. Contudo, Jesus também aqui é o nosso Mestre, pois Ele nos incita a uma auscultação mais profunda da realidade”.

Se a gripe espanhola levou meses para chegar ao Brasil e ao mundo, a globalização fez se alastrar rapidamente o contágio da Covid-19. Eis um elemento para o qual a Igreja deve estar atenta, sem globalizar a solidariedade no compartilhamento dos bens temporais e espirituais, nas descobertas científicas, nos relacionamentos interpessoais e na relação com o Criador, o futuro está ameaçado! O caminho a ser construído e vivido é a “fraternidade universal”.

O patriarca ortodoxo Bartolomeu, em 20 de junho de 2012, advertiu que o modo predatório da sociedade globalizada é um crime contra o Criador e que traz consequências nefastas para o ser humano. E o Papa Francisco, na encíclica Laudato Sì, faz uma defesa veemente da pessoa, protegendo a criação na qual ela está inserida.

Sistemas condicionantes invertidos

Com a pandemia, o mundo e a Igreja foram desafiados, nossos sistemas condicionantes foram invertidos. As pessoas foram atingidas em todos os âmbitos, com muitas mudanças bruscas. Tristemente, observamos que alguns poucos aumentaram em trilhões de dólares suas fortunas, enquanto milhões entraram na linha da pobreza.

As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE) 2019-2023, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), falam da evangelização do mundo urbano, o nosso mundo. Se o anúncio de Jesus sofreu reveses, também abriu possibilidades. Jesus é o caminho da Igreja ontem, hoje e amanhã, mas será preciso redesenhar, repensar e redescobrir como anunciar a Palavra revelada.

Necessidade de uma nova evangelização

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O Papa Francisco insiste que o todo é maior que a parte e que a realidade é mais importante que a ideia. “Será preciso mais evangelização e menos sacramentos”. A pandemia é também uma crise existencial, que denuncia um estilo de vida. A Igreja precisa ser sensível para encontrar e implementar uma “nova evangelização”, que passa pelo caminho do acompanhamento mais personalizado, com menos eventos de massa, um olhar mais atento para as mídias e novas tecnologias, utilizando-as com sabedoria, sem, no entanto, cair nas suas armadilhas.

Família no centro da evangelização

Precisa-se de uma pastoral profética e misericordiosa, que coloque a família no centro da evangelização, saindo do discurso e assumindo que, se, de fato, a família não for acolhida, acompanhada, num processo constante e vivencial de discernimento e inserção, todas as outras pastorais, e a sociedade em si, estarão fadadas ao fracasso, porque as pastorais trabalham com famílias. Vale recordar que, de 19 de março de 2021 a 26 de junho de 2022, o Papa Francisco novamente volta a propor a temática, com o ano Familia Amoris Laetitia, porque a Família é o Santuário da Vida, onde se forma o caráter e de onde emanam as vocações e profissões.

A Igreja existe para a evangelização, o seu futuro passa pela defesa, promoção e cuidado com a vida. Por isso, é tempo de plantar, de construir e de ter esperança, porque tudo na vida tem seu propósito (cf. Ecl 3,1-8).

Crispim Guimarães dos Santos é padre e assessor da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida da CNBB e secretário executivo nacional da Pastoral Familiar.

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