“O barulho não faz bem e o bem não faz barulho”

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Por Elizete Santos

A Organização Mundial da Saúde (OMS) instituiu o dia 7 de maio como o Dia do Silêncio. Embora não se saiba ao certo sua origem, é consenso o alerta sobre os diversos males que a poluição sonora produz no mundo. Entre eles, os impactos na saúde e na qualidade de vida.

O objetivo principal do Dia Mundial do Silêncio consiste em despertar para a conscientização dos benefícios que a ausência de barulho produz em toda a dinâmica da vida; hoje, entrelaçada por uma vasta rede de informações, a internet. Abraçar a causa – “silenciar-se” – é uma forma de desenvolver o autocuidado sem descuidar da relação de alteridade, que se pauta na ética, na justiça, na solidariedade e na responsabilidade comum.

“Todos somos responsáveis por tudo, perante todos”, segundo afirma Dostoiévski (1879). Nessa ótica, assumir o compromisso de contribuir para que os impactos da poluição sonora não agrida a comunicação torna-se um ato de respeito e de empatia, que, inevitavelmente, nos leva a experimentar, como São Francisco de Sales, que de fato “o barulho não faz bem e o bem não faz barulho”.

Espaço para o silêncio

É uma oportunidade para se pensar sobre o lugar que a escuta de si e do outro ocupa em nossa vida e em nossas ações. Para algumas pessoas, o silêncio pode até ressoar estranho. No entanto, imersos nesse universo tecnológico, a mente humana parece corresponder às sobrecargas que as mais diversas mídias nos oferecem.

A exposição aos inúmeros ruídos tende a absorver os instantes mais preciosos da vida. São alertas, toques, imagens, sons, notificações… Demasiados estímulos que nos distanciam de uma pausa primordial para o silêncio. Além do mais, a poluição sonora é uma das grandes causas, segundo a OMS, relacionadas aos altos níveis de estresse, proveniente do ritmo frenético em que o mundo moderno está mergulhado.

Para uma maior conscientização, o nível recomendado de ruído deve ser abaixo de 50 decibéis. Contudo, não é isso que se constata, especialmente, nos grandes centros urbanos. Até mesmo os barulhos dentro de casa, considerados, muitas vezes, inofensivos, podem desencadear danos à audição, assim como problemas nos sistemas nervoso e cardiovascular.

Em meio aos barulhos causados por aquilo que é efêmero, passageiro e descartável, falta-nos “aquele” tempo, suficiente, para escutar a linguagem do silêncio que eleva o espírito. Não obstante, há uma insistência perseverante mesmo em meio aos ritmos inusitados do mundo, pois, viver em uma intensidade confortável e suportável, é uma busca cotidiana da existência humana.

Pausa para escutar

A grandeza do silêncio se faz comunhão quando esta se revela em atitude de escuta atenta de si e do outro. Esse é o grande convite que se expressa na relação de alteridade mais íntima. Em meio às dicotomias que envolvem a conexão entre a linguagem e o silêncio, ressurge-nos a oportunidade de fazer uma pausa para escutar e sentir a comunicação da vida, isto é, ser presença e diálogo.

Talvez a primeira ideia que perpassa nossa mente seja a de que a comunicação é algo fundamentalmente contrário ao silêncio. Todavia, nessa concepção se encontra a realidade dicotômica da definição de signos, imagens e palavras associadas ao ato de se comunicar, deixando-nos transparecer que um sem o outro não existe, pois ambos se tornam expressão da linguagem humana, que se faz narração dinâmica e intensa, em um fluxo que age e influi na nossa existência.

Cultivando o silêncio

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Proveniente de práticas milenares, a meditação, como um caminho para exercitar-se na escuta de si e do outro, pode trazer benefícios para a saúde física e mental, promovendo interna e externamente um bem-estar pessoal e profissional.

Simples atitudes podem se tornar uma verdadeira postura diante da vida:

  • Estabelecer um momento do dia apropriado para silenciar;
  • Encontrar um ambiente confortável;
  • Evitar os barulhos externos;
  • Acolher os movimentos internos;
  • Sentir o ritmo cardíaco ressoar livremente em sintonia com a respiração;
  • Desfrutar o silêncio que se manifesta no momento presente.

Segundo o filósofo e psicólogo norte-americano William James (1842-1910), “O exercício do silêncio é tão importante quanto a prática da palavra”. Essa fundamental certeza nos faz compreender que, em meio a tantos ruídos ensurdecedores do mundo atual, um dia para escutar e apreciar o silêncio se torna um oásis em meio ao deserto e à aridez da vida.

Elizete Santos é uma irmã paulina, filósofa, psicóloga e especialista em Adolescência e Juventude. Amante da filosofia e aprendiz na arte da escuta psicanalítica, que possibilita fazer falar o “indizível” e compreender o incompreensível.

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