Ninguém está bem: cuidemos uns dos outros

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O que era uma ameaça, virou realidade, que não pôde mais ser negada, mascarada ou maquiada

Por Rodrigo Simões

Ô tempo difícil! De repente, o que só víamos em filmes, tornou-se realidade. Fomos obrigados a nos recolher em casa, fugindo de um inimigo invisível, que pouco a pouco foi nos roubando; primeiro, estranhos, depois, pessoas queridas e cada vez mais próximas. Veio a falta de dinheiro, a perda dos empregos e de qualquer segurança. O que acreditamos que duraria alguns meses, caminha para dois anos, sem previsão de término.

O inimigo ganhou rosto

No começo, alguns viveram como aventura, tiraram proveito. As máscaras customizadas criaram estilo e se tornaram um acessório de moda. A pandemia foi glamourizada. Tudo parecia um exagero, politicagem, jogo da mídia, até que começou a morrer um amigo, meu parente, minha mãe, meu pai, meu irmão, e até eu e você caímos doentes. Inverteu-se a ordem da vida: os pais começaram a enterrar seus filhos e isso mostrou que, realmente, as coisas não iam bem. O que era uma ameaça, virou realidade, que não pôde mais ser negada, mascarada ou maquiada. 

As medidas a serem tomadas e a responsabilidade pelas escolhas não puderam mais ser transferidas. Se contaminados, ninguém sabia prever a extensão das consequências. A morte, que era um fantasma longínquo, ganhou rosto e as certezas dissolveram-se em um mar de ansiedade, medo, reticências e interrogações.

O inimigo real generalizou o medo, impôs ansiedade e pânico e, com o estresse, castigou a todos. De repente, ninguém mais estava bem. Ninguém mais está bem e demoraremos a alcançar o bem-estar, equilíbrio e conforto de outrora: tudo isso se deslocou para um horizonte distante.

O melhor e o pior

Pandemia
Etut subiyanto/Pexels.com

Interessante observar como esses momentos podem extrair o melhor e o pior do ser humano. Ao mesmo tempo que o absurdo toma forma no comportamento de alguns, a empatia e a compaixão geram atos cada vez mais elevados de amor e generosidade. 

Pratico empatia quando me sinto por dentro, participo do mundo interior de outra pessoa, embora permaneça eu mesmo. É sentir como se eu fosse o outro, por um momento. Olhar para alguém dessa forma significa, até onde for possível, sentir a estrutura interna de referência dele, tentando ver o mundo através dos seus olhos, como se fossem os meus próprios, para compreender com ele até onde for possível. Estando lá, posso compreender com ele, mas, somente quando retorno a mim mesmo, ao meu próprio espaço vital, é que me torno capaz de ajudar. Já a compaixão é um sentimento de pesar, de tristeza causada pela tragédia alheia, que desperta a vontade de confortar quem dela padece, de ajudar, de aliviar o sofrimento do outro. Empatia, de mãos dadas com a compaixão, incendeia o mundo de esperança.

Esperança

E é disso que mais precisamos! Não somente esperar, mas construir de forma ativa e responsável um mundo e um futuro melhores, e, por que não, um presente com mais sentido. Já que não podemos mudar totalmente a realidade, façamos como nos ensina Viktor Frankl, mudando a interpretação que fazemos dos fatos, tingindo cada quadro da existência com nuances de aprendizado e evolução. Resumindo: se eu olho para você e você para mim, sentimos a dor um do outro e nos envolvemos em um abraço – mesmo que simbólico – de mútua empatia e compaixão, encontramos sustentação e cura. Esse é o caminho. 

Nosso desafio é encontrar proximidade no distanciamento, partilha na pobreza, sementes de eternidade no luto, esperança no caos, resiliência na dor, gerando luz nas trevas, gritando amor ao ódio, semeando a paz na guerra e vislumbrando a ressurreição após a cruz. 

Rodrigo Simões é sacerdote há dezessete anos e pároco da Paróquia Nossa Senhora do Rosário. Psicólogo especializado em atendimento clínico, pela abordagem da Terapia Cognitivo Comportamental, e fundador do Espaço Terapêutico Coração Jovem. Coautor do livro Um Coração bem cuidado, publicado pelas editoras Santuário e Canção Nova. Apaixonado pelo desenvolvimento do ser humano, orquídeas e cachorros, vê na natureza as impressões digitais do Criador.

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