Mensagem para o 56º Dia Mundial das Comunicações: um chamado à caridade por meio da escuta

Artigos Recentes

Por Juliano Rigatti

Minha filha tem dois anos e já é a pessoa que mais me ensinou sobre a prática da escuta, sobre o ouvir com atenção, interesse e despojamento genuínos. Para muitos pode parecer cedo, mas o desafio de compreendê-la e saber lidar com suas vontades, suas necessidades e seus incômodos já é enorme. Como todas as crianças, ela tem um ritmo próprio, um jeito singular de ver o mundo e uma curiosidade que quase sempre a obriga a parar qualquer coisa que esteja fazendo para descobrir o novo que acabou de chegar. Além do esforço de entender seus códigos e linguagem em construção, escutá-la requer de mim e de minha esposa muita disposição para abrir mão de nossas vontades, de nossos hábitos e até de muitos de nossos planejamentos. Desde muito cedo o ser humano dá lições de que só um coração aberto e disponível é capaz de gerar conexão, de dignificar o outro e de construir relações fraternas.

Sob o título “Escutar com o ouvido do coração”, o Papa Francisco divulgou no último dia 24 de janeiro, data dedicada a São Francisco de Salles, a sua mensagem para o 56º Dia Mundial das Comunicações Sociais (56º DMCS). A data será celebrada no dia 29 de maio de 2022, Domingo da Ascensão do Senhor. A analogia com a minha filha tem muito sentido. A parentalidade consciente vem ensinando que é desde cedo que o ser humano tem sede por ser ouvido; é desde cedo que o ser humano precisa ser escutado.

A riqueza da mensagem

Se em 2021 o Papa Francisco já havia nos surpreendido pedindo para que fôssemos ao encontro do outro, para vê-lo, em plena pandemia, agora ele pede que novamente o encontremos, ambos “em saída”, desta vez para escutá-lo com a qualidade de quem ouve com o coração. A mensagem divulgada no ano passado desacomodou a muitos que, isolados ou distanciados por exigência sanitária, se viram exortados pelo sumo pontífice a descobrir as ricas e diferentes realidades e narrá-las não pelo que se imagina ou fantasia, mas a partir da experiência dos acontecimentos e do encontro com as pessoas. Fomos lembrados que, mesmo com a facilidade e a potencialidade dos meios digitais, é no encontro físico que a comunicação fraterna se realiza.

Este ano, o recado não é menos oportuno: é urgente converter nosso coração para uma escuta sincera. A invasão da Ucrânia pela Rússia e a guerra, que já destruiu tantas vidas, demonstram que a surdez em nossas relações mesmo em 2022 pode nos levar às mais trágicas consequências. No Brasil, vivemos um cenário de polarização política e ideológica nunca antes visto – e que tende a se agravar com as eleições deste ano. E, não menos grave, há o que vivemos dentro da Igreja Católica, e que Moisés Sbartelotto, doutor em Ciências da Comunicação e membro do Grupo de Reflexão sobre Comunicação da CNBB, chega a chamar de “ódio digital intracatólico”. Uma divisão silenciosa que ora se mistura com partidos políticos, ora endurece a tradição, a doutrina e a liturgia, extinguindo a compaixão das interações, a ponto de pôr em cheque nada menos que o pontificado do atual sucessor de Pedro.

A comunicação na ação pastoral da Igreja, aliás, merece destaque no conteúdo da mensagem do 56º DMCS. Para o Papa, precisamos do “apostolado do ouvido” entre aqueles que comungam da mesma fé. “Há grande necessidade de escutar e de nos escutarmos. É o dom mais precioso e profícuo que podemos oferecer uns aos outros. Nós, cristãos, esquecemo-nos de que o serviço da escuta nos foi confiado por Aquele que é o ouvinte por excelência e em cuja obra somos chamados a participar”. A impressão é que não resistimos às tentações da fragilidade e do imprevisível deste mundo. Em meio à ameaça do mundo BANI, sigla de Brittle, Anxious, Nonlinear, Incomprehensible, criada pelo antropólogo Jamais Cascio para conceituar o mundo pós-pandemia, não confiamos mais em quem promete vida em abundância. Tomados pela insegurança, muitos católicos imitam os fariseus, tão criticados por Jesus Cristo, quando não se mostram capazes de escutar o Evangelho à luz das exigências do nosso tempo. 

Ouvir à semelhança de Deus

Antes de abordar a escuta em situações sensíveis da sociedade, como na política, na problemática da migração e nos graves efeitos da pandemia, o Papa Francisco nos situa na relação dialogal entre Deus e a humanidade. Embora Deus nos fale e nos chame permanentemente, há no ser humano o traço da recusa da voz, da fuga do compromisso que quer, no fundo, apenas que nos tornemos plenamente aquilo que somos. Repetimos o pequeno Samuel (cf. 1Sm 3,1-19) na dificuldade em discernir a voz de Deus em meio a tanta distração. “O Senhor chama explicitamente o homem a uma aliança de amor, para que possa tornar-se plenamente aquilo que é: imagem e semelhança de Deus na sua capacidade de ouvir, acolher, dar espaço ao outro. No fundo, a escuta é uma dimensão do amor”, afirma um trecho da mensagem.

Quando a nossa filha Olívia quer brincar mais um pouco e já está tarde, ou chora e grita para não sair do banho, fica muito claro por que a escuta é uma dimensão do amor. É preciso ouvi-la para além do choro e do escândalo que nos irrita. Que necessidade ela busca satisfazer? O que está vivo nela naquele momento em que a minha vontade é confrontada? Quando minha esposa expressa o que em minhas atitudes a incomoda, ouvi-la com compaixão só é possível com amor. Quando eu preciso ter uma conversa difícil, só o amor justifica reconhecer os sentimentos pelos quais sou tomado. Em sua encíclica Caritas in Veritate, é possível compreender do Papa Bento XVI que, sem caridade, não há verdade. Sem amor, o ouvir é protocolar. Sem amor, não consideramos a versão do outro. Sem amor, não usamos o ouvido do coração. “Oferecer gratuitamente um pouco do próprio tempo para escutar as pessoas é o primeiro gesto de caridade”, sublinha o Papa Francisco.

Mas para que serve tanto esforço, questiona a mensagem para o Dia Mundial das Comunicações deste ano. E uma das respostas é de um grande diplomata da Santa Sé, o cardeal Agostinho Casaroli, que cunhou a expressão “martírio da paciência”. Paciência para seguir na busca da verdade. “A escuta requer sempre a virtude da paciência, juntamente com a capacidade de se deixar surpreender pela verdade – mesmo que fosse apenas um fragmento de verdade – na pessoa que estamos escutando”, explica o Papa. Em todas as nossas relações, vivemos um tempo em que a escuta é essencial para encontrar, talvez, não ainda a verdade, mas novas soluções. Em muitos contextos, não será mais suficiente a minha versão nem a versão integral do outro, mas uma terceira que será construída de forma colaborativa. 

56º Dia Mundial da Comunicações
Pexels.com

Escutar a si mesmo… 

E como colocar em prática, nas realidades que nos defrontam no dia a dia, uma escuta sustentada pelo coração? Podem vir da Comunicação Não Violenta algumas pistas. Trata-se de uma abordagem criada pelo psicólogo norte-americano Marshall Rosenberg para a filosofia da Não Violência, consagrada por Mahatma Gandhi na luta pela independência indiana e por Martin Luther King no enfrentamento da legislação segregacionista americana. A CNV (sigla pela qual a Comunicação Não Violenta é conhecida) busca resgatar a compaixão nas relações humanas a partir do ouvir de si mesmo e do outro e da expressão compassiva.

A tão famosa empatia ganha na CNV uma etapa fundamental que a precede: a autoempatia. É por meio do processo silencioso e individual que eu analiso o que se passa comigo com o objetivo de não reagir como fazia habitualmente. Passa a ser indispensável investigar a mim mesmo não só para saber o que motiva minha comunicação como também para compreender o que se passa na outra parte, enquanto se busca um “autêntico diálogo”, como refere o Papa Francisco.

E ouvir o que se passa em nós requer silêncio. Tal necessidade é defendida por voz importante da espiritualidade cristã contemporânea. Para o cardeal português José Tolentino Mendonça, o silêncio é pressuposto inadiável para uma escuta verdadeira de si mesmo. “Diria isto: por vezes, o que nos aproxima da autenticidade é o continuar, por vezes é o parar. E só o saberemos no exercício paciente e inacabado da escuta. Mas esta audição de nós mesmos não se faz sem coragem e sem esvaziamento.” 

… para escutar o outro

Só depois que escutamos a nós mesmos suficientemente, estamos aptos para ouvir alguém. E eu gosto da metáfora do tubo de lenços para visualizar o processo de um ouvir mais consciente. Imagine que entre você e com quem você conversa há um tubo, e toda linguagem verbal passa necessariamente por este tubo em forma de lenços. Enquanto o outro fala, você recolhe os lenços que chegam até você pelo tubo. Recolhe um, recolhe dois… Às vezes o tubo se enche de lenços, e você recolhe todos, um a um. Os seus lenços não podem passar pelo objeto que liga você e a outra pessoa, até que lhe tenham chegado todos os lenços. É uma via de mão única, como se diz. 

56º Dia Mundial da Comunicações
Pixabay.com

Rubem Alves vai além. Para ele, depois que ouvimos tudo o que uma pessoa tem para dizer, deveríamos ter condição de fazer uma breve pausa, quando pensaríamos no que queremos responder. “Se falo logo a seguir, são duas as possibilidades. Primeira: ‘Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado’. Segunda: ‘Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou’”.

Quase sempre é assim hoje em dia, como bem lembra o Papa em sua mensagem. “Estamos simplesmente à espera que o outro acabe de falar para impor nosso ponto de vista. Nestas situações, como observa o filósofo Abraham Kaplan, o diálogo não passa de duólogo, ou seja, um monólogo a duas vozes.” 

Uma nova empatia

Empatia é mais do que colocar-se no lugar do outro simplesmente. Mesmo quando isso é possível, reduzimos o que nos é trazido à nossa própria experiência, sem ter a oportunidade de apanhar a riqueza do que nos é desconhecido. A escuta ativa ou escuta empática – e com “o ouvido do coração” – leva consigo um completo desinteresse pela nossa opinião, pelo que vivemos e pela forma que podemos ajudar a quem estamos emprestando o ouvido. “Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”, já defendia o poeta Alberto Caeiro. E quando ouvimos um lamento, um desabafo, como é difícil não dar um conselho, não recomendar uma leitura, não fazer algum comentário que queira curar. 

Mesmo assim, parece-me muito importante resistir a alguns hábitos que temos. Em nome de uma verdadeira conexão com o outro, acredito que escutar requer mais atenção, curiosidade e interesse do que altruísmo. Escuta de verdade quem faz as vezes de um investigador amoroso. Recebe cada relato com curiosidade e, mentalmente, encaixa trechos interrompidos e corrige falas desencontradas pela emoção. Quando fala, tem a disciplina de apenas dar palpites do que ouviu e entendeu – não do que interpretou ou concordou –, como se elucidasse um caso célebre. Resiste ao silêncio, como se aguardasse a próxima cena ou um desfecho completamente inesperado. 

Em trecho de sua principal obra sobre a CNV, Marshall Rosenberg cita a descrição de Carl Rogers sobre o impacto da empatia de quem a recebe: “Quando alguém realmente o escuta sem julgá-lo, sem tentar assumir a responsabilidade por você, sem tentar moldá-lo, é muito bom. (…) Quando sinto que fui ouvido e escutado, consigo perceber meu mundo de uma maneira nova e ir em frente. É espantoso como problemas que parecem insolúveis se tornam solúveis quando alguém escuta. Como confusões que parecem irremediáveis viram riachos relativamente claros correndo, quando se é escutado”.

O cardeal José Tolentino propõe um tipo de surdez para salvar a escuta. “A verdadeira escuta pede que nos tornemos surdos. (…) Que surdez é essa? É aquela que brota do abandono. Quando deixamos, deixamos, deixamos. A nossa escuta é permanentemente interrompida por urgências que se impõem, sobretudo falsas urgências, ficções que nos povoam e barram o abraçar do instante. Sempre que a nossa escuta desiste de ir até o fim, ela desiste de si.” 

Juliano Rigatti (@uzina) é jornalista e possui mais de vinte anos de experiência na facilitação de grupos de jovens, adultos, casais e dependentes químicos. É autor do livro “O CLJ me enganou” (@ocljmeenganou), criador do Sineiro.com (@sigaosineiro), idealizador do canal Comunicação com Consciência (@comunicacaocomconsciencia) e ao longo dos últimos quatro anos esteve à frente da Assessoria de Comunicação da Arquidiocese de Porto Alegre. Atua como consultor na Uzina.co e professor da capacitação em Comunicação Interpessoal @obviotemquerserdito.

Deixe seu comentário

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

error: Ação desabilitada