Maternidade sem exaustão

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Como driblar as armadilhas que comprometem a saúde das mães e evitar a síndrome de Bornout

Por Carla Ferreira

A maternidade, sem dúvida, proporciona uma verdadeira mudança na vida de um casal – especialmente na das mulheres. Basta atender ao chamado de ser mãe que as brasileiras reavivam um papel que pode ser uma armadilha, se elas não souberem gerenciá-lo em sua rotina e em suas prioridades: ser a responsável pelo cuidado de todos da família e do lar.

A mulher acaba “abraçando o mundo com as mãos”, trazendo para si uma sobrecarga de tarefas que pode afetar sua saúde física e mental. É por conta disso que surgiu, nos últimos dez anos, uma abordagem diferenciada para a síndrome de Burnout: a Bornout Materna.

Os primeiros estudos, iniciados pela psicóloga belga Moira Mikolajczak, adequaram a terminologia da doença ocupacional à realidade de vida das mães; é definida como uma exaustão severa causada por estresse crônico descontrolado.

Psicólogo Vinícius Farani – Arquivo Pessoal

A Bornout Materna traz um conjunto de sintomas como tristeza, ansiedade, falta de energia, apatia, irritabilidade, mau humor, depressão; os mesmos da enfermidade no ambiente de trabalho, mas com motivações diferentes. “A mulher acha que pode cuidar de tudo, de todos, e acaba sobrecarregada; isso é bem tradicional na família brasileira. E ainda que venham mudando na última década, com espaços conquistados, os casais mais novos continuam repetindo os padrões”, explica o psicólogo clínico e doutor em Família na Sociedade Contemporânea, Vinícius Farani, que também é autor do livro Liberdade a dois: democracia nos relacionamentos contemporâneos.

Segundo a psicóloga clínica Luciana Borges, é preciso que as mães aceitem suas próprias fragilidades e selecionem prioridades. Arquivo Pessoal

Cuidar da casa, dos filhos, das tarefas escolares, do cardápio de casa, do mercado, do marido, leva a mulher ao esgotamento; as consequências afetam sua própria autoestima e, por consequência, o relacionamento matrimonial. “Ela tem pouco cuidado consigo mesma, a intimidade fica em último lugar, o marido cobra, questiona, o corpo não responde”, pontua Farani, ao destacar: as próprias mulheres reafirmam esse papel, que, de acordo com a psicóloga clínica Luciana Borges, é marcado pelo recorte do gênero. “O arquétipo da mãe que cuida, que protege, que ampara se estabelece também porque a mulher se ancora em suas forças e não aceita sua sensibilidade, sua fragilidade. Nas famílias, não costuma haver diálogo sobre as demandas que são de todos, e não exclusivas da mulher”, explica Borges, que é especialista em Terapia Cognitiva Comportamental.

Para a psicóloga, quando o papel da mãe subjuga os dos outros membros da família, se cria uma instabilidade: “É preciso balancear. As mães transitam muito bem entre a fragilidade e a força. O desgaste pode ocorrer quando ela se ancora numa força. Quando se apoia na fragilidade, aí aparece a força”, analisa Luciana Borges.

Ela afirma também que a mulher precisa falar o que sente, pedir ajuda e abrir mão da ideia de que é “onipresente”; exemplifica esse equilíbrio recordando o episódio bíblico em que Jesus Cristo visita Marta e Maria, e alerta Marta de estar esquecendo o que é “essencial”, na tentativa de deixar “tudo perfeito”.

Mulher Maravilha

No país, 70 milhões de mulheres atenderam ao chamado da maternidade; 29 milhões destas são chefes de suas famílias e 11,5 milhões são mães sozinhas, segundo dados divulgados pelo Projeto Segura a Curva das Mães, com base em números do Instituto Locomotiva, do IBGE, da PNAD e da USP. Mesmo com variações de faixa etária e classe social, o perfil-padrão da mãe “faz tudo”, à beira ou acometida pela síndrome do Bornout, persiste, segundo os especialistas.

Candice Araújo com seus dois filhos, Yago e Bianca: “não sou a Mulher Maravilha”. Arquivo Pessoal

Muitas delas até percebem que chegaram ao próprio “limite”, colocando a saúde em cheque. A contadora Candice Araújo, mãe de Yago (19 anos) e Bianca (11), conta que, quando percebeu que chegou ao seu limite, procurou ajuda na terapia e também ressignificou sua rotina. “Não sou a mulher perfeita e percebi que eu não ia ofender ninguém se eu deixasse de lavar o prato naquela determinada hora, porque precisava descansar. Antes, eu só descansava depois que fizesse todas as obrigações de casa e após um dia inteiro de trabalho”.

Quando questionada se estava satisfeita com a mudança no comportamento, Candice respondeu que não, que sempre acha que pode melhorar, mas hoje admite que não é a “Mulher Maravilha”. “As tarefas domésticas são de responsabilidade de toda a família. O pai não ‘ajuda’, ele integra a família”, disse, ao confessar que a pandemia foi um fator que agravou a sua situação, que a fez perceber que não estava sustentando psicologicamente a nova realidade, também com a responsabilidade de suporte financeiro da casa, até buscar a mudança nas atitudes e ajuda profissional.

A dermatologista Ana Lísia Cunha, mãe de Guilherme (11) e Alice (8), conta que encarou o papel de mãe como algo natural, como uma obrigação, e estava sempre pensando em alguma demanda da família, que não era a dela. Até que aprendeu uma técnica que ouviu em uma palestra: “Ao levantar e perceber tudo o que tenho para fazer, eu escolho o que eu vou botar embaixo do tapete naquele dia”.

Segundo Ana Lísia, ela já aceita que não dá conta de tudo, que não quer ser perfeita, mas sim ser boa e ser o melhor que pode dentro das possibilidades. “Antes eu tinha a sensação de ver minha vida passando como se eu estivesse numa vitrine, vendo tudo se mover, e eu parada, estática”, conta a dermatologista, ao destacar que ninguém estuda para ser mãe, que toda mãe é uma eterna aprendiz e que os filhos nunca deixam de ser a finalidade última, uma constância na vida dela.

Driblando as armadilhas

Pesquisa feita pelo site The Bump revelou que 92% das mulheres que trabalham e 89% das que ficam em casa sentem-se sobrecarregadas com as multitarefas. Mas é possível mudar esse quadro, e só depende das próprias mães! Vejam as dicas fornecidas pelos psicólogos Vinícius Farani e Luciana Borges, entrevistados para esta reportagem:

* Pare para pensar em como está sua situação de vida atualmente e como gostaria que ela estivesse. Pense em todas as instâncias: familiar, acadêmica, sexual, profissional;

* Crie a consciência de que você não vai dar conta de tudo sozinha;

* Abra um espaço de diálogo dentro de casa e diga como você se sente e que precisa de ajuda;

* Esteja pronta para ouvir o que o outro diz e aceitar as opiniões;

* Organize sua rotina diária, estabeleça horários e prioridades. A pandemia conspira a seu favor;

*Crie uma rede de apoio com outras mães, vizinhos, amigas, avós.

Carla Ferreira é jornalista e empresária, proprietária da Cannal de Ideias. Atua com Comunicação Católica, mas sua atividade principal é ser mãe de dois meninos, de 8 e 10 anos. É catequista, além de membro do Movimento Escalada e do Grupo Oração Pela Arte. Gosta de cinema, de dançar e de escrever.

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