Do ultimato de João Batista ao amor incondicional de Jesus

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Por  Pe. Gilson Luiz Maia, RCI

“Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu. Eu nem sou digno de desatar-lhe a correia das sandálias. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com o fogo. Ele está com a pá na mão para limpar o trigo na eira: o trigo, ele o guardará no celeiro; mas a palha, ele a queimará num fogo que não se apaga” (cf. Lc 3,16-17).

São duras e ameaçadoras as palavras de João Batista, o profeta que atuava à beira do Jordão e se vestia com pele de camelo, usava um cinto de couro e se alimentava de gafanhotos e mel silvestre (cf. Mc 1,6). Mas Jesus, que também se apresentou para o batismo de João às margens do rio, não correspondeu plenamente às palavras e às expectativas do profeta oriundo de uma família sacerdotal, filho de Zacarias e Isabel (cf. Lc 1,5). Jesus batizará com o Espírito Santo, mas nunca com o fogo, como dizia o Batista, e tampouco trazia uma pá nas mãos para limpar o trigo. Ele também não se mostrava disposto a queimar as palhas no fogo que não se extingue. O jeito e as palavras de Jesus são sempre positivos e só ameaçavam os demônios nos exorcismos e os inimigos do Reino (cf. Mc 1,25).

Jesus apresentava a sua mensagem e missão com expressões de amor e esperança. Nos evangelhos, reiteradas vezes ele dirá que veio para libertar, salvar, e não para punir (cf. Mt 18,11). Quando, em dia de sábado, leu o livro de Isaías na sinagoga de Nazaré, Jesus escolheu apenas os versículos que assinalavam a bondade de Deus, “o ano da graça do Senhor”, e interrompeu a leitura ao evitar falar da “vingança de Deus”, discordando, neste ponto, do profeta Isaías (cf. Is 61,2; Lc 4,19).

O Messias anunciado por João Batista não tem os traços de Jesus, mas expressa o conceito da tradição de Israel. A mensagem do Batista é baseada na Torá, que, assumida integralmente, seria a garantia de salvação para Israel. O jeito, a maneira de agir e a pregação de Jesus não correspondem à expectativa messiânica do Batista. João havia anunciado um Messias segundo a tradição de Israel, que aguardava o severo juízo divino, que jogaria ao fogo os que não produzissem frutos segundo a Lei de Moisés (cf. Lc 3,9). Jesus não ameaça os pecadores, não evita os pagãos, nem foge dos impuros segundo a Lei. Muito pelo contrário. Ele se aproxima dos publicanos, conversa com as prostitutas, toca os leprosos… Suas ações e palavras são de amor e misericórdia para com todos.

João Batista
Arquivo Paulinas

João, que com criatividade inventou um ritual nas águas do Jordão e contava com grande admiração do povo que lhe deu o nome de Batista – aquele que batiza –, não tinha medo de denunciar as injustiças e criticar os governantes. Ouvindo falar de Jesus, enviou dois de seus discípulos para perguntar-lhe sem rodeios: “És tu aquele que há de vir ou devemos esperar outro?” (cf. Lc 7,19). Na surpreendente resposta de Jesus, não se vê a ira implacável de Deus, pronto para exterminar os pecadores (cf. Is 13,9), mas a bondade do Pai e a ação amorosa do Messias, especialmente a favor dos pobres (cf. Lc 7,22). Jesus convida a todos, inclusive João Batista e seus seguidores, a mudar a imagem de Deus. Passar de um Deus severo juiz de Israel, terrível na vingança e capaz de castigar, a um Deus misericordioso, que ama todas as criaturas e está sempre pronto para perdoar.

Jesus não muda o discurso e muito menos recua diante dos questionamentos de João Batista, enviado por Deus (cf. Lc 3,3). Um pouco mais tarde João será preso e sentenciado à morte (cf. Lc 9,9). Jesus continuará a sua missão de revelar o Pai, até ser traído, condenado e morto na cruz. Após a morte e a ressurreição de Jesus, os seus discípulos serão chamados de cristãos não apenas porque reconheceram nele o Cristo de Deus, mas porque já haviam superado as fronteiras do judaísmo. Nota-se que, dentre os primeiros discípulos de Jesus, ao menos cinco eram seguidores do profeta do Jordão: André, o anônimo discípulo amado, Pedro, Filipe e Natanael (cf. Jo 1,35-51).

No Quarto Evangelho, escrito no final do primeiro século, João Batista não é apresentado apenas como o precursor que veio preparar os caminhos do Senhor, como também a primeira testemunha de Jesus. João Batista foi quem reconheceu a identidade de Jesus e não se considerou digno de desatar suas sandálias. E, apontando para Jesus que passava, declarou: “Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo” (cf. Jo 1,29.35). E mais adiante disse: “É preciso que ele cresça, e eu diminua” (cf. Jo 3,30).

Se João Batista pensava e agia na esfera do judaísmo, Jesus se apresentou como um Messias itinerante, e sua Boa Notícia é aberta a todos os povos e culturas. Não compreenderemos bem a pessoa de Jesus e o seu Evangelho sem antes conhecer a figura de João Batista e sua maneira de agir e pregar. João Batista traz o ideal de justiça segundo a Lei de Moisés, o conceito de pecado, de culpa e a certeza do juízo iminente de Deus, embora a sua atuação profética fosse distante das instituições de Jerusalém. Sua fala na forma de “grito” indicava a ira divina e a urgência de conversão no fiel cumprimento da Lei e na observância da Torá. Jesus, o Messias que se apresentou de um jeito que nem João Batista imaginava, revelou a misericórdia de Deus e se entregou por amor.

Gilson Luiz Maia é padre rogacionista e traz um coração esperançoso. De sorriso fácil, acredita que há algo de errado com uma religião sem caridade. Seu último livro, O Pai-Nosso: palavra por palavra, publicado pela Paulinas Editora, reflete sobre a oração do Senhor e insiste na intimidade com Deus. Longe do Pai, diz ele, não temos futuro.

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