Não é porventura Jesus, o filho de José
e de Maria?

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19 Domingo do Tempo Comum

Evangelho – Jo 6,41-51

Por Maria Antônia Marques

O tema que predomina no texto de Jo 6,41-51 é a rejeição de Jesus por causa de sua humanidade. O Evangelho de João foi escrito para que as pessoas acreditassem que “Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (cf. Jo 20,31). A expressão “crer em” aparece 98 vezes, o que indica um contexto de dúvidas, descrenças e esvaziamento das comunidades no fim do século I, em Éfeso, na Ásia Menor. Nesse período, as comunidades que seguiam Jesus foram expulsas da sinagoga, e uma vez fora desta instituição, sem o direito de religião, elas perderam a proteção legal, tornando-se vulneráveis à perseguição do Império Romano e das autoridades judaicas (cf. Jo 16,1-2).

A discussão entre os judeus e Jesus deve ser entendida como o conflito vivido pelas comunidades joaninas e as autoridades da sinagoga. O v. 41 afirma que havia um murmúrio a respeito da afirmação de Jesus: “Eu sou o pão que desce do céu”. A palavra murmúrio indica rejeição do projeto de Jesus e lembra as constantes reclamações do povo no deserto (cf. Ex 15,24; 16,2.7).

A missão de Jesus não termina

A rejeição a Jesus é pelo fato de eles conhecerem suas origens. Para os que seguiam os rigores da Lei, era difícil aceitar um Deus próximo das pessoas. Portanto, a afirmação de Jesus é inaceitável. Há uma diferença entre pão que desce do céu e desci do céu. A primeira afirmação indica que a ação é contínua. A missão de Jesus não termina, é para sempre, ao passo que a expressão “eu desci do céu”, repetida pelos judeus, refere-se a um acontecimento no passado.

Jesus
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Jesus não discute e ordena que cessem as murmurações. Em seguida, faz a seguinte revelação: “Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o atrair; e eu o ressuscitarei no último dia” (v.44). A crença na ressurreição já fazia parte da fé judaica desde o século II a.C., porém os judeus acreditavam que a ressurreição era para os justos – os que seguiam a Lei (cf. Dn 12,1-3; 2Mc 7,14.23). Aqui há uma ruptura com a tradição ao afirmar que a ressurreição é para quem adere a Jesus. Ele é a Nova Lei.

Ao interpretar Is 54,13, o autor afirma: “Todos serão instruídos por Deus”. Quem escuta o Pai segue Jesus. É o próprio Deus que nos ensinará e não a Lei. Nos profetas (cf. Jr 31,33-34; Ez 26,26), a instrução e a nova aliança estavam destinadas ao povo de Israel. Relendo estas passagens, o Evangelho afirma que a instrução é para todas as pessoas que aderem a Jesus, não está restrita a um povo. Não é a Lei que nos ensina e aponta o caminho, mas o próprio Jesus, que é caminho para o Pai (cf. Jo 14,6).

Jesus garante a vida plena

De maneira solene, lemos a seguinte proclamação: “aquele que crê tem a vida eterna” (cf. Jo 6,47). Diferente do maná e da Lei, Jesus garante a vida plena que começa agora: “a vida eterna é que eles te conheçam a ti, o único verdadeiro Deus, e àquele que enviaste, Jesus Cristo” (cf. Jo 17,2). Jesus é o “pão que desce do céu” (cf. Jo 6,50). Ele continua, por meio do Espírito, orientando e conduzindo a nossa vida. Aprofundando o sentido do pão da vida, o Evangelho afirma que ele é o pão vivo e “quem comer deste pão viverá para a eternidade” (cf. Jo 6,51). Ele é o corpo que se faz carne e se entrega para o mundo. Comer a carne de Jesus é fazer-se um com ele. É assumir a vida nova que ele nos propõe. E este compromisso nós renovamos toda vez que recebemos a Eucaristia.

As autoridades judaicas não aceitam a humanidade por causa de suas origens. Quando chega até nós a notícia de que uma pessoa de origem simples passou no vestibular para uma faculdade considerada prestigiosa, como Medicina na Universidade de São Paulo (USP), ficamos admirados e felizes. Nos últimos tempos, temos ouvido muitas notícias de que filhos de famílias de origem simples passaram no vestibular de faculdades renomadas. Que notícias como essas não sejam exceções e que a nossa procura de Jesus nos torne pessoas livres de todos os preconceitos. Parabéns a todos os pais e mães que não medem esforços para garantir uma educação integral a seus filhos. Que Jesus Cristo, que continuamente entrega a sua carne, para que tenhamos a vida, ilumine a nossa realidade, especialmente nossas famílias.

Maria Antônia Marques é assessora do Centro Bíblico Verbo e professora da área de Bíblia no ITESP (Instituto São Paulo de Estudos Superiores). Além de ter feito mestrado e doutorado em Bíblia, ela afirma que aprende constantemente com as pessoas que encontra nos cursos e encontros bíblicos.

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