Etarismo: é preciso debater sobre este assunto

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Você já se sentiu muito jovem para assumir um cargo, muito velho para mudar de profissão? Este texto vai ajudá-lo a refletir um pouco sobre o etarismo

Por Fabiane Pita

Você já se sentiu discriminado devido a sua idade? Muito novo para fazer determinadas coisas, muito velho para certas atitudes. Para iniciar a conversa, a psicóloga e psicanalista Rosilara Cioatto, pós-graduada em Saúde Mental e Gerontologia, o ajuda a entender mais sobre o etarismo.

De acordo com ela, também chamado de “idadismo”, o etarismo refere-se às atitudes e/ou práticas negativas geradas por alguém em relação ao outro, por conta exclusivamente da sua idade. Importante salientar que não se refere somente a idosos. No caso de preconceitos contra os idosos, usa-se o termo “ageismo”, referente a algo negativo só pelo fato de a pessoa ser idosa.

Mulher x etarismo

Rosilara chama a atenção para o fato de que as mulheres são as que mais sofrem com o etarismo. Novidade? Nenhuma! É uma questão que precisa ser debatida, além de se trabalhar na conscientização sobre o assunto, que limita, adoece e deprime. Apesar de o etarismo atingir ambos os sexos, a cobrança em relação aos homens é bem menor, enquanto as mulheres lidam com inúmeras exigências na sociedade. 

“Só vai se seu irmão for”, “Quando vai arranjar um namorado?”, “Você está na idade de casar”, “Quando terá filhos?” ou, ainda, “Está muito velha para ter filhos”, “Não vai pintar os cabelos brancos?”, “Você nem aparenta a idade que tem”, “Corta esse cabelo que rejuvenesce”, “Vai usar short nessa idade?”, “Vai trocar de profissão a uma altura dessas da vida?” Quem nunca ouviu ou passou por uma dessas situações? 

As mulheres estão sempre na mira do julgamento, e o etarismo é uma das formas de preconceito entranhado na sociedade machista. A desconstrução desses conceitos e a quebra de paradigmas são importantes para servir como exemplos para os mais novos. Dentro da família, quando os pais oferecem uma educação igualitária e com equidade, diálogo, exemplo, escuta sem julgamento, promovem atitudes importantes nessa mudança.

Autoestima

Rosilara Cioatto fala da importância da opinião própria: “Todos temos nossa subjetividade e é importante darmos valor aos nossos desejos próprios”. E foi pensando dessa forma que a publicitária Débora Burgos, de 48 anos, que atuou durante 23 anos em ambiente corporativo, resolveu fazer uma transição na carreira, desengavetou o sonho e começou este ano uma nova faculdade. Ela credita essa guinada à coragem aliada à maturidade e à sabedoria adquiridas ao longo dos anos.

“Com o tempo, ouvimos mais nossos desejos e aprendemos a não ser reféns do olhar do outro. A psicologia sempre foi um plano B, que nunca consegui priorizar. Confesso que no início enfrentei meu próprio preconceito. Trabalhei isso em terapia, tive muitos exemplos positivos e recebi bastante incentivo das pessoas, inclusive dos meus filhos de 18 e 20 anos, que cursam medicina. Hoje somos os três na faculdade”, conta Débora.

Ageísmo

E não tem como falar de etarismo sem falar de ageísmo. O termo foi utilizado pela primeira vez em 1969, pelo gerontologista Robert Neil Butler, em um artigo publicado no periódico médico The Gerontologist, para descrever o preconceito, a discriminação e os abusos cometidos contra idosos. Segundo o Papa Francisco, os idosos são a memória e a sabedoria dos povos.

Entretanto, Rosilara Cioatto diz que muitas pessoas ainda enxergam o idoso como dependente, frágil, incapaz. “Desde cedo, em nossos lares, escolas, devemos ensinar as crianças a conviver e a aceitar o idoso, respeitando-o e praticando as leis e direito do idoso”.

Etarismo
Pexels/ Cottonbro 5264859

Regra de ouro: não trate o idoso de modo infantilizado, como se fosse uma criança. “Mesmo que precise de mais cuidados, o idoso nunca voltará a ser criança, pois suas experiências o tornam uma pessoa madura. O envelhecimento é um processo natural e que deve ser aceito. Cada pessoa é única e tem sua história e seu jeito de viver. O que deve ser promovido são mais oportunidades de relacionamentos intergeracionais”.

Ela completa: “O mais jovem pode ajudar a desenvolver novas capacidades exigidas e utilizadas no mundo moderno, como a era digital. O idoso, com sua vasta experiência, pode ensinar, inclusive, ao mais novo a ter paciência em ajudá-lo, a resgatar memórias e lembranças que fazem parte da cultura e do progresso do mundo”, diz Cioatto.

Relação intergeracional

Sob o mesmo ponto de vista, a psicóloga organizacional Renata Villela defende a convivência de crianças, adolescentes e idosos. “Eu vejo uma convergência de saberes como fundamental para a saúde de todos. Falo de saúde do ponto de vista mais holístico, considerando saúde física, mental, espiritual e social.”

A psicóloga pondera que o idoso vive uma curva descendente de sua qualidade de vida, no sentido físico. Já na sabedoria e na experiência, ele vive uma ascendência. A criança e o jovem estão em um nível mais baixo do saber, da experiência, mas em um nível alto de vigor físico; então, isso faz com que seja uma relação muito complementar.

Só não envelhece quem morre

Renata, de 57 anos, divide sua experiência pessoal. Ela afirma que a sociedade impõe uma série de padrões para que você seja aceito. Conta que se deu um tempo para assumir os cabelos brancos, pensando que as pessoas achariam que ela teria mais idade, que ficaria com cara de velha, entre outros pensamentos, até se libertar.

“Assumir os cabelos brancos foi reconhecer que já passei dos 50 anos, estou quase nos 60, e tenho história para contar, estrada para percorrer e sonhos a realizar. Tenho uma liberdade que me diz aonde eu quero ir e o que eu quero ser, sem precisar ficar me balizando na aprovação das pessoas”, declara.

Fabiane Pita é mulher negra, católica, jornalista, especialista em Gestão da Informação para Multimeios. Curiosa por natureza, foi assim que criou seu perfil no Instagram com uma amiga @curiando_o_role. Ama ler, escrever, contar boas histórias e viajar. Coloca amor em tudo o que faz. Seu sorriso é sua marca registrada.

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