A virtude do esperançar

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Precisamos levar a sério os avisos da Mãe Terra e mudar profundamente o modo de vida, cuidando e convivendo com o bioma em que estamos

Por Ivo Poletto

Começo minha reflexão recordando Paulo Freire:

É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…

É verdade que o apóstolo convertido Paulo lembrou que a maior das virtudes cardeais é o Amor – mais do que a Fé e a Esperança. Mas ele não disse que estas duas não são decisivas. Afinal, como conseguiria amar quem não tivesse esperança, e como esperaria sem fé? Por isso, o melhor é desejar que as três estejam no coração da gente, cada uma retroalimentada pelas outras. É provável que, assim, o Amor trinitário nos mantenha firmes na vivência histórica das três virtudes.

É disso que se trata: da história. E a realidade da história em que vivemos hoje desafia, de forma quase absurda, a nossa capacidade de manter-nos esperançosos, na perspectiva do verbo esperançar. Uma das tentações características do nosso tempo é preferir esperar, deixando de esperançar. É sobre isso que desejo convidá-los a refletir comigo.

Tempo de colapso socioambiental

O Papa Francisco não publicou a Carta Laudato Si’ por se deixar envolver pela moda de ser ecologista. Ela é a expressão da sua conversão para viver e anunciar a mensagem de Jesus de Nazaré no tempo real em que lhe cabe viver a missão que Deus lhe deu. Ao se comunicar com o Amor na sua Criação, ele ouviu os clamores da Terra e dos pobres. Sua Carta é um convite para sentir o sofrimento em que se encontram a Terra e os pobres.

É neste tempo que vivemos, e é nele que precisamos esperançar. Não podemos deixar de levantar-nos para dizer “não” a tudo que aprofunda a crise socioambiental e civilizacional, que coloca em risco o futuro da espécie humana no planeta. Já enfrentamos eventos climáticos extremos, e isso se agravará porque a ciência está prevendo que poderemos chegar a um aumento da temperatura média da Terra de 1,5ºC, logo mais, em 2030.

esperançar
Kaique Lopes. / Pexels.com

Por isso, precisamos levar a sério os gritos e avisos da Mãe Terra e mudar profundamente nosso modo de vida, cuidando e convivendo com o bioma em que estamos, e participando das lutas para que a economia e as políticas públicas abram caminhos para que todas as pessoas possam viver com dignidade e a Mãe Terra possa recuperar seu equilíbrio.

Caminho do esperançar

Quando o Amor decidiu fazer-se ser humano em Jesus, de Nazaré, nos indicou o caminho do esperançar: assumir a sorte dos marginalizados para que todas as pessoas se descubram e vivam como filhas e filhos de Deus e da Mãe Terra. A partir dele, o Reino, isto é, a melhor forma histórica de sociedades de Bem Viver, passa a ser sonhado e tornado real em toda inquietude humana profunda, toda luta social humanamente digna.

Há boas práticas de convivência com cada bioma em todas as regiões do país. Se vocês já participam delas, parabéns! Se ainda não, procurem descobrir como iniciar mais uma boa prática, ou, pelo menos, como apoiar e tornar mais fortes as práticas existentes. Se quiserem dicas, entrem no site www.fmclimaticas.org.br.

Ivo Poletto, formado em filosofia, teologia e ciências sociais, é assessor nacional do Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Socioambiental e autor do livro Biomas do Brasil: da exploração à convivência, disponível em versão digital em: http://fmclimaticas.org.br/wp-content/uploads/2017/03/livro_BIOMAS_DO_BRASIL_2017_final.pdf.

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