Centenários ilustres

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Três brasileiros e um francês: saiba quem são os líderes ilustres que celebram seus centenários neste ano

Por João Décio Passos

Paulo Freire
Paulo Freire. Foto: Msabba on VisualHunt.com

Um século é uma longa temporalidade para cada geração. Embora a longevidade tenha aumentado nas últimas décadas, a marca dos cem anos é uma conquista para poucos. Nas narrativas míticas antigas, os heróis eram premiados com longevidades extraordinárias. Enoch viveu 365 anos, Matusalém 969, Noé 950, Abraão 175. A vida longa é um desejo humano. Os heróis encarnam esse desejo. Alguns deles alcançam a imortalidade, como no caso de Elias, que foi arrebatado aos céus, ou do profeta Mohamed. A morte de Moisés permaneceu um mistério. Morreu com 120 anos e foi sepultado pelo próprio Deus em um lugar desconhecido.

Neste ano de 2021 celebramos o centenário de alguns líderes ilustres: três brasileiros e um francês. Todos marcados para voltar ao pó, porém ungidos de modo original pelo dom da sabedoria. A eles daríamos a idade dos heróis antigos como prêmio pelo bem realizado à humanidade, em seus respectivos contextos. Alguns morreram em idade avançada; outro, nem tanto. Todos viveram intensamente e sem reservas a missão que assumiram como caminho de vida. Não viveram tanto como os heróis míticos, mas viveram mais que os grandes homens do passado. Na ordem ascendente: Paulo Freire viveu 75 anos, Paulo Evaristo Arns 95, Carlos Josaphat 99 e Edgar Morin já ultrapassou os 100, desde 8 de julho deste ano.

Semelhanças e diferenças

Os quatro líderes conscientes e educadores da justiça brilham em nossa história. Nenhum deles negociou a justiça em nome de qualquer prestígio pessoal e comodidade política. Paulo Freire e Carlos Josaphat sofreram o castigo do exílio, prêmio para os autênticos que não temem os poderes autoritários. Paulo Evaristo foi perseguido pelo mesmo regime e pagou o preço de sua autenticidade dentro e fora da Igreja. Edgar Morin assumiu a causa dos povos e do planeta contra o etnocentrismo europeu e o status da ciência normal, que credencia os bons teóricos na hegemônica epistemologia do norte. Estrelas que brilham no céu da história como grandes guias para as gerações que seguem a marcha da humanidade em busca de dias melhores; tempo em que a justiça e a paz se abracem e se transformem em casa comum para todos os iguais e diferentes.

Pastores da humanidade

Dom Paulo Evaristo Arns
Dom Paulo Evaristo Arns. Foto: Arquidiocese de São Paulo – Brasil on VisualHunt

Celebrar os cem anos de nascimento desses homens significa trazer à luz aquilo que os faz heróis, sem os holofotes dos poderes e das próprias mídias.

As quatro figuras foram, antes de tudo, pastores da humanidade e, sobretudo, pastores das ovelhas perdidas. Todos cobraram da modernidade suas promessas de igualdade, de liberdade e de fraternidade; cuidaram dos mais frágeis com suas ideias, ensinamentos e posturas; cuidaram da vida planetária e sustentaram a esperança de outro mundo possível, mesmo quando as forças dos poderes econômico e político pressionavam na direção oposta. Foram humanistas nos sentidos clássico, bíblico e moderno. O ser humano foi assumido e ensinado como valor inegociável, como dignos por si mesmos e sujeitos de direitos inalienáveis. Todos beberam dos grandes humanistas do século XX: do pensamento libertário que se edificou nos tempos modernos e se expandiu para as ciências humanas e para a teologia.

Vidas que são inspiração

Nessa fonte comum, os quatro se encontraram e nela teceram seus itinerários intelectuais. Paulo Freire foi o grande educador do século XX; ensinou que a educação é o caminho de libertação das consciências e de construção da justiça social. Sem educação, os poderes dominam as sociedades e a alma humana e reduz o ser humano à pequenez de seus desejos egoístas e violentos. Paulo Evaristo Arns, o franciscano, filho autêntico do pobre de Assis, ensinou que a luta pela justiça e pelos direitos humanos são causas éticas e cristãs indissociáveis e que a esperança por dias melhores não pode jamais ser enfraquecida. Repetia sempre seu lema episcopal: de esperança em esperança! Nessa dinâmica viveu seus dias conturbados como bonança dos justos. Carlos Josaphat, o dominicano revolucionário, incomodou seus pares e, sobretudo, seus ímpares de dentro e de fora da Igreja. Teceu um caminho original entre o sul e o norte do planeta injusto. Ensinou que o evangelho traz o germe da revolução social e que esse germe libertário eclodiu na história nas figuras de Tomás de Aquino, de Bartolomeu de las Casas, de João XXIII, de Marie-dominique Chenu e Yves Congar, de Gustavo Gutiérrez, do Papa Francisco.

Edgar Morin
Edgar Morin completou 100 anos, no dia 8 de julho deste ano. Foto: UNESCO Headquarters Paris on VisualHunt

Edgar Morin, legado vivo

Edgar Morin, antropólogo, filósofo ou, simplesmente, pensador da complexidade, ensinou que a vida planetária está conectada e constitui o parâmetro teórico, biológico, antropológico e ético para se pensar e, antes de tudo, viver a vida de todos na comunhão universal. Em seu mapa geral, os iguais e os diferentes encontram seu lugar digno, criativo, crítico e responsável. Sua longa existência o fez cada vez mais universal e sábio, capaz de ver as fraquezas humanas no âmbito das debilidades biológicas inerentes à vida e, ao mesmo tempo, acreditar no futuro da humanidade.

Celebrar os 100 anos desses líderes é atualizar os grandes ideais da humanidade por eles vivenciados e pregados, não como repetição do passado nem como exaltação mítica de heróis dignos de altares e galerias de ilustres, mas como busca de um mundo mais justo e fraterno.

João Décio Passos é livre-docente em Teologia pela PUC-SP e editor da Paulinas. Autor de vários livros, sendo o último sobre a temática do tradicionalismo católico: A força do passado na fraqueza do presente: o tradicionalismo e suas expressões, publicado pela Paulinas Editora.

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