Da solidariedade à fratelli tutti:
a urgência da convivência entre as diferenças

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Problemas mundiais, como a pandemia do novo coronavírus, distanciam ainda mais países e classes sociais, favorecendo interesses egoístas e atitudes corruptas

Por Elias Wolff

A realidade é plural, desde o átomo até às religiões. A vida se desenvolve à medida que se complexifica e pluraliza: a formação das espécies e a evolução conduziram a vida como auto-organização, autonomia criativa e relações equilibradas. Daí emerge a biodiversidade ou o biopluralismo, mostrando que a riqueza da vida está em sua pluralidade.

Na história da humanidade, povos, culturas e credos, com seus diferentes estilos de vida, se entrecruzam formando a tessitura do complexo social nas diferentes regiões do planeta. Atualmente, à esteira da globalização, esses estilos de vida rompem fronteiras milenares e aproximam os povos em uma “aldeia global”. Não há mais espaços para hegemonias de culturas ou religiões. Viver com a própria diferença implica saber conviver com as diferenças das outras pessoas.

Não obstante, ao mesmo tempo que a humanidade cresce na consciência da realidade global plural e do valor das diferenças, observa-se também o acirramento de posturas que se pretendem hegemônicas, imperialistas, absolutistas. Universos culturais e religiosos buscam se afirmar como únicos, ideologizando culturas e credos. Posturas fundamentalistas causam tensões e conflitos que fragmentam as relações, fragilizam a convivência, o diálogo e a cooperação entre pessoas e grupos.

A dificuldade de conviver com o diferente

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Observamos em nossos tempos governos totalitários, culturas colonizadoras e religiões fundamentalistas. A consequência é a exclusão das relações de quem pensa ou crê diferente, e o fortalecimento de atitudes xenofóbicas, que aumentam a desigualdade de gênero e das classes sociais, com maior marginalização e exclusão de quem não pertence à ideologia que se impõe, principalmente as maiorias empobrecidas.

Quando se busca reduzir o todo no uno, consideram-se as diferenças como heresia, apostasia, idolatria, anormalidade, apenas porque não se conseguiu integrar na “minha” realidade. Então, a universalidade não mais é formada pelas diferenças, mas circunscrita ao horizonte do uno, do mesmo, como totalidade fechada, em um despotismo devastador das riquezas da realidade plural.

A humanidade sofre com essa realidade: a desintegração das relações entre pessoas e povos gera injustiças socioeconômicas e colonização cultural; as religiões concorrem para a aquisição de adeptos; a exploração da criação gera efeitos devastadores com a devastação das florestas e as consequentes mudanças climáticas, a ameaça aos diferentes biomas, o fim da biodiversidade. Problemas mundiais, como a pandemia do novo coronavírus, que deveriam integrar os povos na busca de soluções comuns, polarizam posturas politiqueiras, distanciam ainda mais países pobres e ricos e classes sociais, favorecendo interesses egoístas e atitudes corruptas. E isso justamente em um momento em que a humanidade inteira clama por solidariedade para livrar-se do vírus.

O valor da alteridade

Como superar tal fato? Afirmando, convictamente, o plural, o múltiplo e a diferença como categorias paradigmáticas. Cada pessoa é convidada a formar uma identidade relacional. Tem direito a afirmar suas convicções, sua cultura e sua fé. Mas em relação com outras convicções, outras culturas, outras formas de crer? A experiência da alteridade configura a experiência do mistério do viver e do conviver, aberto para o Absoluto em sua verdade indesvendável e em sua presença frágil em nossas vidas.

São fundamentais para isso o exercício da hospitalidade, da solidariedade, do cuidado, do respeito, da ética, da justiça. Por esse exercício, supera-se a exclusão, a marginalização, o estrangeirismo. Constrói-se a solidariedade, com raízes culturais e teológico-espirituais diversas, unindo-nos a todos num tronco comum.

Cada pessoa é “ser com” e “vive com”, onde encontra sua força vital na relação inter-humana, intergeracional, intercultural, inter-religiosa e com toda a criação. Em tudo e com todos importa o sentimento de pertença e relações de cuidado mútuo, numa integração existencial em uma mesma força e energia vital. Então, homens e mulheres, de todas as etnias, culturas e crenças, em uma relação harmoniosa com todas as formas de vida no planeta, sentem-se, de fato, fratelli tutti (todos irmãos).

Elias Wolff é professor no Programa de Pós-Graduação em Teologia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), com especificidade em Teologia Ecumênica e Teologia das Religiões. Coordenador do Núcleo Ecumênico e Inter-religioso da PUCPR e membro da Rede Ecumênica da Agua (Conselho Mundial de Igrejas).

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