Dá para combater o racismo estrutural? 1/2

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Entre tantas histórias que o Brasil coleciona, a da discriminação racial é uma das mais cruéis

Por Ana Luísa Pereira 

Essa é uma pergunta que cada vez mais a sociedade vem fazendo. Entre tantas discussões e reflexões no decorrer do ano de 2020 no mundo, a pauta sobre o racismo teve destaque. O movimento Black Lives Matter e a morte de George Floyd nos EUA suscitaram manifestações antirracistas e trouxeram um novo fôlego para o debate sobre as relações de raça. 

No Brasil, a luta antirracista nunca teve tanta visibilidade e, apesar de já existir há muitos anos, ganhou mais espaço através da adesão de diversos agentes na esfera social e virtual. Está na mídia, nos realitys, nos jornais, nos números de mortos, nas universidades. E não é para menos. Para se ter ideia da relevância do tema, é preciso olhar para trás e observar o nascimento das relações raciais no país. 

Possuímos, enquanto nação, mais tempo de escravização que o contrário. São 338 anos de escravidão. Ou seja, há apenas 132 anos escravizar alguém passou a ser crime. Esse dado, que assusta quando trazido à tona, reforça o quanto essa história foi e ainda é fundamental dentro do conceito de construção da sociedade brasileira.

O período escravocrata trouxe a solos brasileiros quase cinco milhões de negros vindos da África, fundamentais para a expansão do país. Sem os negros escravizados – e os indígenas – seria impossível que os portugueses dominassem as imensas terras do Brasil, pois foi através da mão de obra explorada que o país se ergueu. Comercialização, tortura, abusos são apenas algumas das práticas escravocratas durante a história brasileira. 

Assim, sob a égide do racismo, o Brasil se constituiu.

Por isso, antes de pensar se dá para combater o racismo estrutural, é preciso refletir sobre o significado deste termo, levando em consideração que as relações raciais no Brasil foram construídas com base nessa realidade.

Uma estrutura inabalável?

Muhammadtaha/Pexels.com

Logo após esse período, o que se viu no Brasil foi a negação dos corpos pretos. Depois de “abolida” a escravidão, famílias inteiras de escravos foram largadas à rua, sem empregos, moradias, sem o mínimo necessário. Em contrapartida, políticas de imigração foram estabelecidas no país, concedendo benefícios aos europeus para que viessem ao Brasil alavancar a economia. Ora, se havia terra para brancos, europeus, e políticas de incentivo para produção e trabalho no campo para eles, por que não havia para os negros, que tanto ajudaram no crescimento do país?

Além desse fator, que levou um número grande de ex-escravos à miséria, à aceitação de subempregos e à falta de oportunidades, o Brasil, logo após a abolição, ainda amargou o fardo de ter sido um dos países em que a eugenia se desenvolveu com força. Eugenia é o movimento que deu origem ao nazismo e que acredita que as raças devem ser purificadas para que sejam fortalecidas. Ou seja, em um país com a maioria negra, acreditava-se que somente a raça europeia era digna de evoluir, atribuindo aos negros que aqui viviam o estigma da marginalidade, do subdesenvolvimento, da incapacidade, entre diversos outros fatores.

Outro fator que deve ser levado em consideração, quando falamos de racismo estrutural, foi o fato de que, após a constatação de que a eugenia não era um movimento positivo para o desenvolvimento da nação, o Brasil passou a lidar com o mito da democracia racial. Acreditava-se que não seria possível o racismo no Brasil, uma vez que pretos e brancos conviviam bem, e a máxima: “Não sou racista, minha empregada é negra e convivemos muito bem” normalizou a exploração e a falta de oportunidades concedidas aos negros. 

E hoje?

Entre tantas histórias que o Brasil coleciona, a da discriminação racial é uma das mais cruéis.

Em um país que tem sua maioria negra, ter de lutar por um lugar para o povo negro é renegar o quanto pretos e pretas fizeram, e ainda fazem, para o país ser uma grande potência. E ter de levantar bandeiras antirracistas nos dias atuais é a prova de quanto o país caminhou devagar em todos esses anos. 

A relação racial no Brasil ainda é uma ferida aberta e que segue pulsando.

Assim, faz-se urgente muito mais que apenas manifestar apoio às causas em todos os âmbitos. É preciso lutar por políticas que combatam a exclusão em todos os campos. É preciso não só ter uma visão crítica das relações de raça, como também incentivar novas práticas, que permitam que os negros de fato estejam presentes em mais campos, seja na esfera política, econômica, social e cultural.

Ana Luísa Pereira é jornalista e mestra em comunicação pela UFPR. Desenvolve pesquisa na área de representação da mulher negra na mídia brasileira.

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