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Ao longo da pandemia, 8 em cada 10 famílias das favelas não teriam se alimentado se não tivessem recebido doações

Por Juliana Borga

De repente passamos a ver as ações desta instituição nos telejornais e redes sociais. Mas não é de hoje que a Central Única das Favelas (CUFA) atua nos âmbitos político, social, esportivo e cultural em benefício das pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade.

Criada por jovens negros, no início seu foco principal era buscar espaço de expressão para esta faixa etária, por isso é longa a lista de oficinas de profissionalização e eventos musicais e esportivos. Só que diante da pandemia de Covid-19, a CUFA decidiu concentrar seus esforços em captar doações para diminuir os impactos causados pela nova realidade mundial. E, ao lado de outras organizações não-governamentais, encabeça uma série de ações humanitárias como o Panela Cheia e o Mães da Favela que já beneficiaram mais de 2 milhões de brasileiros que vem enfrentando dificuldades para colocar comida na mesa nos últimos meses, uma das consequências mais cruéis da pandemia no Brasil.

Nesta entrevista a vice-presidente nacional da CUFA, Kalyne Lima, fala sobre a origem da instituição e os esforços atuais no combate à fome. Confira!

Kalyne Lima CUFA
Kalyne Lima,vice-presidente nacional da CUFA. Foto: CUFADivulgação

A atuação de vocês sempre esteve ligada ao movimento hip hop. Ele serve como ferramenta de inclusão entre os jovens. Fale sobre a importância das oficinas de capacitação.

A CUFA foi criada a partir da união entre jovens de várias favelas, principalmente negros, que buscavam espaços para expressarem suas atitudes e que perceberam as potências que as favelas possuem. Desde então, a instituição busca capacitar e criar oportunidades para que os moradores de favela se desenvolvam e para que a visão social que se tem das favelas seja ressignificada. A capacitação é um caminho importante para que esses jovens elevem a sua autoestima e descubram as suas potências. O hip hop também é um desses caminhos e, através da sua própria linguagem, a CUFA em muitos momentos une os dois. 

Hutúz Rap Festival, Liga Internacional de Basquete Rua, Taça das Favelas… O histórico de projetos de grande alcance é recorrente. Por que é importante ter o jovem como principal foco?

Historicamente, os jovens de favela são vítimas recorrentes da violência e da ausência de políticas públicas que promovam oportunidade e inclusão. Apesar de termos projetos em diferentes áreas e atendendo diferentes recortes sociais, os jovens sempre foram um público alvo como investimento no futuro. Mas hoje, podemos afirmar que a CUFA promove ações com múltiplas linguagens e atuação intergeracional e é essa diversidade que nos permite qualificar nossas ações em territórios e públicos tão distintos. Cada um dos nossos projetos são pensados com um objetivo, por exemplo, a Taça das Favelas promove integração entre as favelas, através do esporte, além de dar visibilidade para territórios conhecidamente férteis na revelação de novos talentos esportivos, já o CineCUFA tinha como objetivo, difundir as produções dos cineastas de favela do mundo inteiro. Mas todos eles têm um objetivo maior que é, de diferentes formas, mostrar a potência da favela e dos favelados, gerando uma visibilidade positiva para esses territórios e essas pessoas.

Alguns projetos tiveram que ser interrompidos em função da realidade atual? A necessidade básica de alimento teve que ser priorizada? Quais foram as estratégias sobre a atuação de vocês diante do panorama da pandemia?

Sim, na realidade a  maior parte dos nossos projetos foram interrompidos. Sabendo que a pandemia do novo coronavírus e a crise atingiriam ainda mais as favelas, concentramos todos os nossos esforços em captar doações para diminuir os impactos causados pela pandemia. Nossas quadras e sedes viraram verdadeiros centros de captação, distribuição e armazenamento de doações. Criamos o projeto Mães da Favela, que consiste na entrega de cestas básicas, física e digital, e chips com internet gratuita por 6 meses, garantindo assim uma segurança alimentar maior e a educação de muitas crianças, que precisaram migrar para as aulas on-line. Além disso,  em conjunto com a Frente Nacional Antirracista e a Gerando Falcões, criamos o Panela Cheia Salva. Uma campanha feita para arrecadar recursos para a compra de cestas básicas para pessoas em situação de vulnerabilidade.

CUFA
CUFADivulgação

O Movimento Panela Cheia está fazendo a diferença na vida das pessoas em situação de vulnerabilidade… Qual é a sua abrangência e quantas pessoas já foram beneficiadas?

O Movimento Panela Cheia possui abrangência nacional, como ele foi criado pela CUFA, a Frente Nacional Antirracista e a Gerando Falcões, possui a capacidade de atingir muitos territórios. Até o momento, R$ 60.477.633,06 já foram arrecadados e revertidos em donativos para as famílias presentes nas favelas do país. Cada instituição distribui as cestas de acordo com suas políticas internas. No caso da CUFA, cada líder local, a partir do conhecimento que tem do seu território e de um cadastro prévio, distribui as cestas para as famílias.

Não são poucas as mulheres que assumem sozinhas o comando da casa. A soma de mulheres responsáveis financeiramente pela renda familiar é crescente a cada ano. Quais foram as razões que motivaram vocês a criar o Mães da Favela?

O Mães da Favela surge justamente do nosso conhecimento de que a maioria das mulheres da favela são arrimos de família. Quando a pandemia começou, sabíamos que as favelas receberiam com mais força o impacto da crise sanitária e financeira, por isso decidimos, enquanto instituição, voltar todos os nossos esforços para arrecadar alimentos e itens básicos, e ajudar ao máximo essas famílias. No entanto, também sabíamos que, dentro da própria favela, existe um grupo de pessoas ainda mais vulnerável: as mães. Mulheres que, além de tomarem conta de seus filhos e dos idosos da família, também são responsáveis pela maior parte da renda da casa. O programa não ajuda apenas mães solo, até mesmo as mulheres casadas podem ser responsáveis por trazer a maior parte da renda da casa, mas sabemos que ser mãe solo é uma realidade muito comum no Brasil. Essas mulheres não têm onde se amparar quando situações como essa acontecem, e ao deixá-las desamparadas, também se deixa uma série de pessoas das quais elas cuidam, desamparadas. Ajudar essas mães é criar uma rede de proteção social.

Do que depende a viabilização dos projetos? Como ajudar?

Qualquer pessoa, instituição ou empresa pode ajudar os projetos a atingirem mais famílias nas favelas brasileiras, seja por meio de transferência bancária, doação de cestas básicas e outros donativos. Todas as informações e orientações para as doações podem ser encontradas nos sites dos projetos:

*Mães da favela

*Panela cheia salva

Juliana Borga é jornalista, três vezes vencedora do Prêmio Dom Hélder Câmara de Imprensa. É mãe coruja da Helena e adora escrever sobre temas que colaboram para um mundo mais humano e solidário. Instagram: @juborgajornalista

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