Criando leitores

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A formação de leitores é um processo constante, que começa em casa, se aperfeiçoa na escola e continua por toda a vida

Por Juliana Borga

Arquivo Pessoal

Qual é a relação da sua família com os livros? Qual é a pessoa da sua casa que mais visita as obras da prateleira? Você incentiva a leitura das crianças? Já percebeu como acontece o processo de formação delas enquanto leitores? 

A leitura é um dos meios mais importantes para a construção de novas aprendizagens, já que possibilita o fortalecimento de ideias e ações, permite ampliar e adquirir novos conhecimentos, além de elevar o desempenho cognitivo e desenvolver a análise crítica. 

É na família que a criança tem o primeiro contato com a leitura. Os pais devem relacionar o livro com momentos de prazer, pois isso reforça os laços de afetividade e constrói o hábito de ler. O desenvolvimento da leitura não é fixo, não segue uma receita de bolo, porque está ligado ao repertório e às vivências individuais de cada um. Mas é importante ter em mente as fases do desenvolvimento da leitura, que são pautadas pela idade da criança: bebê-leitor (0 a 3 anos), pré-leitor (4 a 6 anos), leitor iniciante (7 a 10 anos) e leitor autônomo.

Para Ana Leme, pedagoga e fundadora do Movimento Literário, uma empresa que faz curadoria de livros infantis, é importante os pais não restringirem sua observação apenas ao que o livro ensina, mas perceber quais provocações ele causa, quais experiências ele desperta. “O livro é um laboratório para a criança; ela vai se conectar com ele de diversas formas, cada uma com seu repertório, sua bagagem. Por isso, a experiência com o livro é única. Numa roda com 30 crianças que leram o mesmo livro, teremos 30 experiências diferentes. Por isso, a escuta literária requer atenção por parte da família e do professor”, explica.

Etapas de leitura

Letícia Justo Bock

Você sabe com que idade os pais devem iniciar a leitura com os filhos? Desde quando ainda estão na barriga da mãe! Esse papel de mediador vai perdurar por alguns anos: os pais vão se aprimorando em contar histórias e os filhos vão se habituando a ouvir a voz dos pais e os sons que produzem, ritmados pela levada dos contos.

Depois vem a fase de pré-leitor, em que as crianças ainda não sabem ler as palavras, mas são capazes de viajar por histórias que possuem narrativas potentes de imagens. As leituras compartilhadas com o adulto como mediador se intensificam, mas é bom lembrar que, independentemente da idade, as crianças têm necessidade de fazer leituras solitárias. “As leituras solitárias permitem descobertas sem interferências. É importante destacar também que, nas leituras compartilhadas, o mediador não deve entregar respostas, mas potencializar a experiência. O adulto deve provocar hipóteses antes de virar a página do livro, fazendo perguntas que ajudem a criança a construir o sentido, adquirindo referências e desenvolvendo sua maturidade de leitura”, completa Ana Leme.

Com o início do processo de alfabetização, o leque de opções aumenta. Escolham livros que usem caixa-alta ou letra bastão para facilitar a leitura da criança. Nessa etapa ela já possui algumas competências e, por isso, consegue traçar referências entre as histórias e a sua vida, e é capaz também de enxergar o que está implícito nas narrativas.

Preferências

O leitor iniciante ganha fluência conforme vai adquirindo conhecimentos e experimentando sentimentos e emoções. Aqui tem início o contato com textos de ficção e biografias. Agora a criança já começa a desenvolver preferências e tem maior poder de escolha sobre os títulos e temáticas das obras. Para a pedagoga, o importante é que os pais permitam que o filho seja protagonista nesse relacionamento com os livros. “Quando a gente se desapega da ideia do que ele tem que entender com aquela história e permite que ele seja protagonista daquela experiência, colhemos bons resultados. Mesmo tendo a sensação de que ele não entendeu nada, saiba que algo foi assimilado. Deixem que as crianças revisitem as obras; elas precisam se apropriar daquela história. Por isso, é comum que leiam muitas vezes o mesmo livro, sinal de que aquilo faz muito sentido para elas”, afirma Ana Leme.

Mesmo depois de ter conquistado autonomia de leitura, a criança segue precisando de orientação e mediação; o acompanhamento é essencial e vale como incentivo para o hábito de ler. “É comum os pais cobrarem dos filhos que leiam, mas, como agora a criança lê sozinha, eles deixam de acompanhá-la. Isso faz com que a criança desanime e deixe de ler. Por isso é tão importante continuar cultivando momentos de leitura compartilhada. Não é ler para, mas ler com (o filho)”, orienta a pedagoga.

Pais + escola

Freepik.com

Um pai, um filho e um livro, os três entrelaçados em uma só história. Esse é o “triângulo amoroso na primeira infância”, segundo Yolanda Reyes, escritora colombiana e pesquisadora das relações entre leitura e primeira infância.

Em um de seus livros, ela afirma que precisamos lembrar que os educadores são a voz que conta, a mão que abre portas e traça caminhos entre a alma dos textos e a alma dos leitores. “Seu ofício privilegiado é, basicamente, ler. E seus textos de leitura não são apenas os livros, mas também os leitores. Não se trata de um ofício, mas de uma atividade de vida… Quando saírem do colégio e esquecerem datas e nomes, poderão recordar a essência dessas conversas de vida que se teciam entre as linhas. No fundo, os livros são isto: conversas sobre a vida. E é urgente, sobretudo, aprender a conversar.”

A formação de leitores é um processo constante, que começa em casa, se aperfeiçoa na escola e continua por toda a vida. Segure na mão do seu filho e faça o convite: vamos juntos “aprender a conversar”?

Juliana Borga é jornalista, três vezes vencedora do Prêmio Dom Hélder Câmara de Imprensa. É mãe coruja da Helena e adora escrever sobre temas que colaboram para um mundo mais humano e solidário. Instagram: @juborgajornalista

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