Como ser resiliente diante de um tratamento de saúde?

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O processo de lidar com a possibilidade de perder alguém que amamos engloba algumas fases; compreendê-las é um grande passo

Por Rodrigo Simões

Vivemos um tempo em que a ameaça à saúde se tornou uma realidade próxima. Para muitos, isto tem sido motivo de aumento significativo nos níveis de ansiedade e medo, por vezes levando ao desenvolvimento do Transtorno de Ansiedade Generalizada e de crises de ansiedade e pânico. Mas o que fazer quando nós, ou alguém próximo, desenvolve uma patologia de difícil tratamento, com possibilidade de óbito? Nesse processo, passamos por algumas fases.

Em um primeiro momento, a primeira reação é a NEGAÇÃO. Ela funciona como um amortecedor. “Não parece verdade!”, “Não consigo acreditar!”, “Isso não pode estar acontecendo comigo!”, são pensamentos comuns nesta fase. Geralmente, isso passa rápido e abre espaço para o que chamamos de NEGOCIAÇÃO ou BARGANHA.

Nessa segunda fase, as pessoas procuram soluções mágicas ou instantâneas para seu problema. Muitas começam a fazer promessas, dizendo: “Se Deus me curar, nunca mais vou fazer tal coisa!”, “Eu prometo que a partir de hoje serei melhor nisso e naquilo!”. Acreditam que, se forem seres humanos melhores, o sofrimento acabará. Isso dura até perceberem que nada aconteceu, ou que não conseguem mudar algumas coisas tão rápido quanto gostariam. A cura não vem e os sintomas evoluem cada vez mais. É quando experimentam uma REVOLTA grande, caracterizando outro estágio chamado fase da RAIVA.

“Eu não mereço isso!”, “Deus não está sendo justo comigo!”, “Isso é ilógico! Eu fiz tudo certo até hoje!”, são exemplos de pensamentos muito comuns nesse momento. A revolta se dirige contra Deus, o mundo, a vida e até mesmo contra pessoas queridas. Sem resultados positivos com essa postura e necessitando do apoio do outro, as pessoas começam a ceder à realidade e a experimentar grande melancolia, denominada fase da DEPRESSÃO.

Não é uma depressão clássica medicamentosa, mas uma tristeza profunda, advinda da percepção da impotência de mudar uma realidade sofrida, que não estava nos planos. Geralmente se questiona o sentido da vida: “Por que as coisas têm de ser assim?”, “Isso não faz sentido!”, “A vida parece um absurdo!”, “Nada disso vale a pena!”. Depois de um tempo, começa-se a experimentar uma adaptação à nova realidade, fruto de uma ACEITAÇÃO. Não que a pessoa goste ou deseje o que está passando, mas desiste de resistir e dispõe-se internamente a encontrar um sentido para o sofrimento. Entende que não adianta brigar com os fatos, mas apenas conformar-se e adaptar-se a eles. É a partir daqui que tem início uma fase produtiva, na qual se entende que, por algum motivo, tudo devia ser como foi e se passa a praticar o velho e sábio ditado que diz: “Se a vida lhe trouxer limões, faça uma limonada!”.

O sofrimento ensina

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Compreender e permitir-se viver cada fase é o primeiro passo para a autoajuda. É importante dizer que esses momentos se alternam e se revezam, não seguindo uma ordem fixa. Cada pessoa experimenta essas fases de modo particular e leva um tempo diferente para superá-las.

O neuropsiquiatra austríaco Viktor Frankl ensina que um dos caminhos para se atribuir sentido à vida é escolher uma atitude digna para se enfrentar um sofrimento inevitável, o que tem uma função de aprendizado. Desconhecemos nossos limites e nossa fortaleza até que a vida nos force a prová-los, através do sofrimento, da culpa e da morte.

Para finalizar, vale lembrar São Paulo, quando nos recorda: “Tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” (cf. Rm 8,28). Portanto, se a vida é uma escola e nosso lugar é o Céu, vivamos os sofrimentos desta vida como apenas mais uma lição necessária, neste longo caminho de aprendizado e evolução.

Rodrigo Simões é sacerdote há dezessete anos e pároco da Paróquia Nossa Senhora do Rosário. Psicólogo especializado em atendimento clínico, pela abordagem da Terapia Cognitivo Comportamental, e fundador do Espaço Terapêutico Coração Jovem. Coautor do livro Um coração bem cuidado, publicado pelas editoras Santuário e Canção Nova. Apaixonado pelo desenvolvimento do ser humano, orquídeas e cachorros, vê na natureza as impressões digitais do Criador.

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