“Cinco pães e dois peixes”: a partilha que
mata a fome

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17 Domingo do Tempo Comum

Evangelho – Jo 6,1-15

Por Gisele Canário

Sem sombras de dúvida, o episódio da multiplicação dos pães é popular entre os seguidores de Jesus de ontem e de hoje. Interessante notar que essa passagem foi relatada tanto por Marcos, Lucas quanto Mateus. É notável o que esse evangelho causa só de imaginar Jesus buscando alimentar uma grande multidão que não tinha nada para comer. Seja por curiosidade ou nostalgia, trata-se de um evangelho de grande impacto às primeiras comunidades cristãs. 

Para entender a multiplicação dos pães a partir da perspectiva joanina, é necessário compreender um contexto em que a comunidade era proveniente de pessoas pobres e marginalizadas que começaram a viver de um jeito novo. Irmãos e irmãs unidos não pela lei, mas pelo amor. Nesse período, a opressão era comum, as pessoas viviam sob a custódia de uma lei que não era justa. Elas conseguiram ver na proposta cristã um caminho alternativo. Vivenciaram o amor mútuo e a certeza de que a presença do Verbo Encarnado, em cada mulher e homem, era a base que sustentava e animava sua vida. Tratava-se de um grupo plural e misto, com uma população proveniente de vários grupos e religiões. É nesse contexto em que a passagem da multiplicação dos pães é reinterpretada a partir da visão do ambiente joanino.

Comunidade joanina

A comunidade joanina era um grupo de discípulos e discípulas que buscava ultrapassar as barreiras impostas pela Lei, classe social, origem, sexo, idade etc. A presença forte de samaritanos, estrangeiros e a liderança das mulheres provocou a perseguição dos judeus fariseus. A situação dos samaritanos, um povo marginalizado e desprezado que acolhe Jesus, era semelhante à situação dessa comunidade. Por professar sua fé em Jesus Cristo, essas pessoas sofreram várias ameaças, inclusive alguns membros foram mortos. Nesse contexto de sofrimento interno e externo, e na tentativa de manter vivo o projeto de Jesus de Nazaré, nasce o Evangelho de João. Aí nesse chão é que Filipe faz Jesus ver que não possui dinheiro; isso porque todos os discípulos eram pobres e não podiam comprar pão para tanta gente, e Jesus sabia disso.

Cinco pães e dois peixes

Pobreza
Pixabay.com

Jesus direciona os discípulos a ampliar o olhar ao redor, ou seja, não há como reservar o que é seu enquanto há pessoas que passam fome. Os seus discípulos terão que aprender a colocar à disposição tudo o que possuem, mesmo que seja apenas “cinco pães e dois peixes”.

A atitude de Jesus é simples, humana. Mas é claro que abrir os olhos dos cristãos de ontem e de hoje para a necessidade dos famintos é um grande desafio. O desejo por acúmulo fala mais alto. Jesus é insistente e provoca todos a compartilhar ao invés de acumular. Como essa provocação é vista na sociedade atual? Só aqui no Brasil são 14 milhões de pessoas na extrema pobreza, e, claro, passam fome. Como seremos libertados em meio a tamanha indiferença diante dos que morrem de fome? O milagre da solidariedade econômica, o sistema que domina o mundo, pode ser a grande esperança.

Alimento para todos 

Jesus é o próprio Reino de Deus e, ao abrir o coração ao Pai, não lhe é possível crer em Deus como Pai de todos caso este deixe seus filhos passarem fome. Por isso, o gesto de recolher as sobras e agradecer ao Pai pode provocar todos a entender que tudo o que a terra produz para nos alimentar vem de Deus. O que a terra produz é para todos, sem exceção. Privar os mais necessitados do fundamental para a sobrevivência é esquecer que esse dom provém da bondade infinita que vem de Deus.

Ao partilhar o pão eucarístico, os primeiros cristãos se sentiam alimentados e cabendo dentro do Projeto de Jesus como parte integrante. Era aí que compartilhavam seus bens com os mais necessitados, sentindo que todos eram irmãos. Não haviam se distanciado do espírito de Jesus.

João é o evangelista que mais destaca o caráter eucarístico da multiplicação dos pães. Para os primeiros cristãos, a Eucaristia era mais do que só fazer memória da vida de Jesus; tinha a ver com uma fraternidade que acolhia e partilhava, com uma vivência autêntica do Reino de Deus instaurado por Jesus. 

A Eucaristia deve ser, para os cristãos de hoje, um convite constante a compartilhar o que é seu aos mais necessitados, mesmo que não seja mais que “cinco pães e dois peixes”.


Gisele Canário é teóloga, licenciada em Geografia, professora do Ensino Superior e da Educação Básica, e, juntamente, mãe da Maria Clara. Encantada e empenhada, por meio do Centro Bíblico Verbo, pelo estudo bíblico produzido em comunidade. O amor pela natureza e pela bicicleta são uma constante, mesmo que, por vezes, apenas sonho! Facebook: Hora da Pastoral. Instagram: @giselecanario.

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