Pandemia altera, pelo segundo ano consecutivo, a celebração do Corpus Christi

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A celebração do Corpus Christi não terá novamente os tradicionais tapetes coloridos, a procissão será motorizada e as missas serão transmitidas pelas redes sociais

Por Melissa Maciel

A celebração de Corpus Christi é uma das datas mais significativas da Igreja Católica. Tradicionalmente realizada com tapetes coloridos de serragem ou cobertores, a data que reunia milhares de fiéis em torno do preparo da celebração encontrou com a pandemia da Covid-19 o desafio, pelo segundo ano consecutivo, de inovar nos rituais. 

Origem da solenidade

A história narra vários fatos acontecidos com pessoas com dificuldade em acreditar na presença real de Cristo na Eucaristia. Porém, a mais original e que despertou maior interesse foi o milagre de Orvieto.

Conta-se que um padre, em peregrinação a Roma, acabou parando na cidade para passar a noite. No dia seguinte, durante a celebração da Santa Missa, pediu ao Senhor que o ajudasse com a dificuldade que tinha em acreditar que Jesus estava presente na Eucaristia. No momento em que ergueu a hóstia, ela começou a sangrar, escorrendo sobre o corporal. Com medo e assustado com o que via, embrulhou a hóstia no corporal e avisou ao bispo da Igreja local o ocorrido. O bispo foi ao local e verificou que, de fato, a hóstia sangrava e que a toalha do altar estava manchada de sangue. Ainda hoje é possível observar as provas de tal milagre na Catedral de Orvieto, na Itália.

Em 1317, a procissão com pão consagrado passou a ser recomendada para toda a Igreja. É considerada uma celebração de manifestação de fé e sempre encontrou nas multidões de fiéis parte do significado dessa solenidade.

A fé na Eucaristia em tempos de pandemia

Por todo o Brasil, os meses que antecediam a celebração de Corpus Christi eram de planejamento para a confecção dos tapetes. Neste ano, como em 2020, diante da incerteza de quais protocolos estariam vigentes na semana do dia 3 de junho, as comunidades católicas não conseguiram definir como realizariam a celebração.

O dia que rememora Jesus Cristo como pão da vida, em forma de Eucaristia, entrará mais um ano para a história em cada região do país, não pela beleza dos tapetes, das procissões, nem pelos cantos cheios de fé nas ruas próximas às igrejas, mas sim pelas missas transmitidas on-line e pelas procissões motorizadas, com bênção aos fiéis que estiverem dentro de carros, ou no pátio ou nas janelas das suas casas e apartamentos, para evitar aglomerações. 

A Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), tem disponibilizado, desde o início da pandemia, roteiros para a celebração em família das celebrações litúrgicas da Igreja no Brasil. E não será diferente com a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, festa inserida na retomada da caminhada da Igreja no Tempo Comum.

Para a celebração, a Comissão indica uma manifestação pública de fé na presença real de Jesus Cristo no sacramento da Eucaristia, incentivando que as famílias em todo o país decorem a frente de casa (porta, varanda, janela etc.) com flores, velas e algum símbolo eucarístico, colocando-se em sintonia com a Igreja, como Igreja doméstica que é.

Solidariedade na celebração do Corpus Christi

Pelo Brasil afora, mediante o ensinamento que “Celebrar a festa do Corpo do Senhor é celebrar a festa da partilha”, muitas paróquias realizarão o incentivo à solidariedade, recolhendo alimentos e agasalhos a serem destinados às famílias em vulnerabilidade social e econômica. Na grande maioria das paróquias, a motivação é para a participação desse gesto de solidariedade na Solenidade de Corpus Christi.

A Igreja tem reforçado entre o clero que, apesar as dificuldades do momento, é importante que a celebração de Corpus Christi aconteça mesmo com um grupo reduzido de fiéis e transmissão on-line.

Quanto à procissão, onde for possível, tem-se sugerido que os presbíteros passem com o ostensório, em carro aberto, pelas principais ruas da paróquia, abençoando as pessoas e casas de saúde, onde houver. As famílias que residem no itinerário da procissão podem também, com criatividade, ornamentar suas casas e prédios, na acolhida da passagem do Corpo de Cristo na Eucaristia.

Iniciativas de celebração do Corpus Christi

celebração do Corpus Christi
Cathopic.com

No Rio Grande do Sul, todas as paróquias aguardam os protocolos das bandeiras do Modelo de Distanciamento Controlado, do Governo do Estado, para saber se contarão com público ou não, mesmo que reduzido. Havendo possibilidade de público presencial, de toda forma, se respeitará a capacidade determinada, o uso de máscara e álcool em gel, respeitando as medidas de distanciamento. As celebrações serão transmitidas, por meio das equipes da Pastoral da Comunicação, na grande maioria das Dioceses e Arquidioceses gaúchas, pelas redes sociais Facebook e YouTube. As lives são compartilhadas pelas paróquias e comunidades. Existem ainda muitas iniciativas na Igreja gaúcha para a realização de procissão motorizada, percorrendo as principais ruas da cidade.

Dentre as paróquias do Rio Grande do Sul, destaca-se a Paróquia São Domingos de Torres, no litoral norte gaúcho, a qual já há alguns anos, a partir de uma reflexão comunitária, substituiu os tapetes coloridos de serragem pelo calor da solidariedade. 

De acordo com o pároco Pe. Leonir Alves, já antes da pandemia a comunidade católica em Torres aderiu fortemente à confecção de tapetes em torno da praça em frente da igreja Santa Luzia, no Centro, com doações de agasalhos e alimentos.

“Com a pandemia, a solidariedade nos interpela mais fortemente ainda, especialmente neste ano, segundo com a pandemia, impondo muita dificuldade a todos, porém, de forma muito mais cruel às famílias mais vulneráveis. Será para elas novamente nosso auxílio com doações da Solenidade de Corpus Christi”, conta o pároco.

A Paróquia São Domingos, desde o final de maio, tem sensibilizado os paroquianos e famílias que estão retomando a catequese para realizarem a doação de agasalhos, cobertores e alimentos, entregando na igreja ou na secretaria paroquial, mediante todos os cuidados sanitários e uso de máscara.

No Paraná, a Diocese de São José dos Pinhais emitiu um documento de orientações para a Solenidade de Corpus Christi de 2021. No documento, o bispo diocesano, dom Celso Antônio Marchiori, e o assessor diocesano de Pastoral Litúrgica, Pe. Rafael Fuchs, sinalizam que neste tempo de pandemia algumas precauções devem ser tomadas para a realização da Solenidade.

Como celebrar o Corpus Christi em tempos de pandemia

Dom Celso afirma que a Igreja celebra a Eucaristia sem cessar, mas a festa de Corpus Christi nos recorda a grandeza desse mistério que nos atinge eficazmente. “A Eucaristia renova a presença de Jesus, que, sendo grande, se fez pequeno em favor da humanidade. Que o Senhor nosso Deus sempre nos alimente com o Pão da Vida e que a Eucaristia seja cada vez mais celebrada no amor, na piedade, na partilha e no serviço missionário aos irmãos”, reforça o bispo de São José dos Pinhais.

Dentre as orientações, há o alerta de que, diante das restrições que visam ao cuidado sanitário de toda a sociedade, as tradicionais manifestações com procissões e confecções de tapetes podem gerar aglomerações; então, estão impossibilitadas de se realizar.

É observado ainda que as restrições à participação de fiéis na Missa sejam mantidas (quantidade, evitar pessoas dos grupos de risco etc.) e, dentro das possibilidades, sejam oferecidos mais horários de realização da Missa, seguida de uma breve Adoração Eucarística.

O bispo ainda orienta que cada pároco verifique junto às lideranças a melhor forma de realizar a Missa e a manifestação pública, seja por transmissão ao vivo pelas redes sociais, pela passagem do Santíssimo nas ruas em carro aberto, pela celebração da Missa em grande espaço, em drive-in, entre outras formas.

Na impossibilidade da confecção dos tradicionais tapetes coloridos, a Diocese de São José dos Pinhais sugere realizar a procissão com a passagem do Santíssimo em carro aberto e, quanto aos fiéis, orientar para que enfeitem os portões das casas com tecidos, flores, frases eucarísticas etc.

Melissa Maciel é jornalista e radialista, atua na assessoria de comunicação e na Pastoral da Comunicação da Diocese de Osório (RS), e na emissora de inspiração católica, Rádio Maristela 106.1 FM. Para ela, a comunicação é relação; sendo assim, valoriza a família e sempre procura estar reunida com amigos.

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