Crônica: Na cadência do tempo

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Por Carmen Maria Pulga

Foi um dia agitado, um congestionamento enorme, meus olhos no semáforo e a pergunta impaciente: por que demora tanto para abrir este sinal? O corpo é atropelado por uma agenda de resultados e o sinaleiro na configuração precisa de seu ciclo. Olhos e semáforos na cadência do tempo. 

Obrigada a viver aquele instante, procurei a calma até uma melodia bater em meu ouvido: o tempo vem, o tempo vai, o tempo passa, o tempo voa. E, de súbito, me apanhei interrogando o tempo. Por que esta sensação de estar sempre te perdendo? Por que nos escapas? Por que existes? Onde moras, qual teu limite? Soberano, incontestável, convoca-nos a estar presente e nos deixas culpados quando te ausentas? Então, o sentido do tempo se abriu elástico e infinito: Eu sou teu melhor amigo, teu sopro e teu alimento. Nasci contigo e estou contigo até o fim. Tenho tua idade e teus limites. Moro contigo, sou teu espaço, teu mestre. Enquanto sou teu, não me repartirás com ninguém; acumularás riqueza no aprendizado de minha convivência. Aproxima-te, sem rebelião, sem contradizer o ritmo de meu fluxo, e conquistarás a paz, o equilíbrio das emoções, o momento certo da pergunta e da resposta. Compreenderás que a lentidão pode ser tão, ou mais, preciosa que a pressa. O prazer de esperar a pessoa amada, o momento certo daquela foto, a vigília de uma celebração, é puro encantamento. Sou eu que valorizo a espera para que ela te dê a fineza dos detalhes, a marca-d’água na paisagem, a fruição das emoções. Minha medida é justa em todas as coisas. Não me antecipo nem me retraio. Apenas te acompanho, sem limites para guardar a tua bagagem. 

Ah, compreendo… Somos, em certo sentido, obras do tempo. A sabedoria está na gestão deste tesouro, breve em seu presente, irrecuperável em seu passado e incerto em seu futuro. No compasso justo de nossas inter-relações, negociamos com o tempo o ajuste de nossa escultura. Tudo isso exige desprendimento, propósito interior.

cadência do tempo
Kosuki/Pexels.com

O sinal continuava vermelho, novas perguntas me instigavam: será sempre uma perda de tempo o ter que esperar? Ou uma necessária paciência para com os processos criativos, vitais no resgate de significados? Que valor tem a espera em uma sociedade que se adequou a encontrar tudo pronto e de imediato? A espera nas filas nos desconforta, a lentidão da tecnologia nos irrita; sempre ansiosos por melhores notícias, pelo diferente que nos atualiza. Sim, os novos tempos exigem eficiência e nos obrigam a sermos ágeis para não ficarmos para trás. Mas saber curtir o tempo do processo é arte, virtude que se adquire. Sem a espera não há como degustar o sabor, o calor, as cores. Sem a espera não há o cuidado, a arte, o encanto, a surpresa. Caminhamos sobre essa corda bamba de opostos que se completam; saber entrelaçar, com maior equilíbrio, tudo o que produzimos é perpassar de significado o tempo. É tornar-nos equilibristas em um mundo que demanda pressa, velocidade, eficiência.

Esperar o sinal abrir era tudo o que eu precisava aprender.

Aprender a respeitar a dinâmica do tempo, seu curso e seu fluxo. Caminhar com o progresso sem perder o olhar sobre a dinâmica da criação. Sentir o pulsar calmo da vida que espera a semente brotar, o embrião germinar, a chuva cair, o sol despertar e o sinal abrir. E ele abriu quando me lembrei do escritor José Tolentino Mendonça: Libertar o tempo é a atitude de descobrir o essencial, de ver o invisível e de saciar-se somente do necessário.


Carmem Maria Pulga é filósofa, teóloga, mestra em Novas Tecnologias da Comunicação e autora do livro A pétala, da Paulinas Editora. Gosta de arte, desde a culinária até a sucata, e ama ler os autores mais ecléticos.

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