O valor do abraço

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O abraço, um gesto cultural que demonstra afeto e acolhe o outro

Por Fabíola Medeiros

O que é o abraço? O abraço é o encontro de dois corações. Esta frase atribuída a Cazuza demonstra literalmente o significado do abraço, na dimensão física e afetiva, pois, quando abraçamos alguém, o nosso corpo se inclina e, ao mesmo tempo, se move, enquanto os braços se abrem para ir ao encontro de outros braços, de outro corpo, de outro ser; e com esse encontro com o outro é possível encontrar-se, tocar-se, acolher-se. 

Dessa forma, podemos afirmar que, entre os vários tipos de abraço, o mais completo é aquele frontal, que supõe a entrega de amor entre duas pessoas, em que uma abraça e ao mesmo tempo é abraçada e envolvida nos braços da outra.

Quando há no abraço esses dois corpos, ambos próximos e um de frente ao outro, esse gesto permite que os corações se aproximem o máximo possível, em que um ouve a frequência cardíaca do outro, ao ponto de chegarem a uma sintonia de batimentos e, quem sabe, a uma harmonia sonora e dinâmica que acalma e tranquiliza as emoções. 

Benefícios do abraço

Por que não dizer que o abraço é a sinfonia do coração? Quando abraçamos alguém que amamos, as palavras são dispensadas; daí é chegado o momento de o coração, que está de frente a outro, comunicar o que sente. Com certeza, esse encontro de dois corações provoca uma profunda experiência naqueles que estão abraçados: transmite sentimentos de confiança, proteção, acolhida e tranquilidade. 

Segundo estudos psicológicos, o abraço, enquanto demonstração de afeto, está associado à produção de hormônios que nos causam sensação de bem-estar e aliviam o estresse, como a ocitocina. Segundo a psicóloga Lina Sue, “a ocitocina é o hormônio do amor, ele melhora a confiança, a empatia e a generosidade”. Podemos confirmar isso ao recordarmos alguns momentos importantes de nossa vida em que o abraço de uma pessoa especial nos marcou e nos falou mais do que muitas palavras não ditas.

Um gesto cultural

Além de refletirmos sobre o significado do abraço em nossa vida e seus benefícios, podemos reconhecer que ele também faz parte da cultura que vivemos. Talvez para nós, brasileiros, o abraço possua um sentido bem mais forte do que para outra cultura, que não tenha muito essa prática de cumprimentar.

Como sabemos, o abraço em nossa cultura é usado em muitos momentos e tem como característica principal ser um gesto de acolhida do outro. Basta recordarmos os momentos mais comuns que abraçamos as pessoas no cotidiano: o abraço pode ser usado como gesto de saudação, ao cumprimentarmos alguém que não encontramos há um tempo; como despedida, quando abraçamos as pessoas que sabemos que vão se distanciar de nós, seja por motivo de viagem ou por um serviço específico que irão empreender; para demonstrar nosso apoio e encorajamento diante da dor; para celebrar a felicidade da outra pessoa…

Enfim, abraço é chegada e partida, e rápido ou demorado, pequeno ou grande, é sempre um gesto de afeto. Passaríamos muito tempo aqui elencando os momentos que usamos o abraço para dizer ao outro “Eu te amo, eu estou contigo!”. Dessa forma, no âmbito cultural, praticamos o abraço como um gesto de afeto, que nos ajuda a demonstrar o sentimento que temos e que muitas vezes não cabe na linguagem das palavras.

Abraço em tempos de pandemia

Desde o início da pandemia, com a experiência do distanciamento social que vivemos, por causa do novo coronavírus, uma das restrições que seguimos é evitar o abraço. Isso nos faz pensar que precisamos substituir o abraço por outras demonstrações de afeto com aqueles que amamos; entre tantas coisas que estamos perdendo, não deixemos que a pandemia nos impeça de manifestar o amor. Uma vida sem gestos de afeto se torna árida, fria, superficial, e não somos máquinas para operar sem sentir, sem nos afetar. 

Resgatar o sentido 

benefícios do abraço
Ylanite Koppens/ Pexels.com

Acredita-se que agora, mais do que nunca, o ser humano tem necessidade de sentir-se amado, cuidado e protegido, sensações experimentadas quando somos abraçados. E como podemos abraçar alguém sem o abraço? É possível? Claro que sim! 

Podemos nos sentir abraçados por alguém através de uma chamada telefônica, seja de áudio ou vídeo; através de um gesto de carinho, quando ajudamos uma pessoa a fazer algo que ela não pode fazer; podemos abraçar alguém e fazer com que essa pessoa se sinta acolhida por nós quando a escutamos, sem ter pressa de dar respostas prontas ou apresentar soluções para seus problemas; podemos abraçar alguém proporcionando que este se sinta protegido, quando usamos máscaras, álcool em gel e tantas outras formas de higienização e cuidados, para que não seja infectado por nós. 

Nesse sentido figurado, podemos, sim, nos sentir abraçados e abraçar, mesmo sem termos o tradicional abraço, em que os braços se abrem; podemos, sim, unir novamente dois corações, mesmo que estes não escutem as batidas do outro e não sintam o calor do corpo da pessoa que tocamos ao abraçá-la.

Por isso, enquanto não se puder dar abraços, façamos a experiência de sentirmo-nos abraçados e abraçar (em seu sentido mais amplo) a causa pela vida. O gesto do abraço, mesmo quando não podemos praticá-lo, vem nos ensinar a sermos sinais de confiança, proteção e carinho na vida das pessoas que mais precisam de nós. Deixemos que o nosso coração se encontre com o coração do outro, para tocarem juntos a mesma melodia do amor, da ternura e da acolhida, que é o grande significado do abraço.

Fabíola Medeiros é irmã paulina, filósofa e graduanda em Letras. Realiza sua missão na Editora Paulinas. Gosta de escutar Deus e as pessoas, naquilo que lhe revelam nas surpresas da vida. Ama viajar e aprender coisas novas.

6 COMENTÁRIOS

  1. Com o abraço a gente pode expressar muito afeto, e sem usar a linguagem verbal. Com o abraço a gente sente, ouvi, acolhe, acalma e deseja. Ótimo texto!

  2. Que delícia Fabíula! Me senti abraçada. E abracarei a todos que encontrar pela frente neste dia. Usando apenas um olhar, um sorriso, tocando uma música clássica para os vizinhos ouvires e enviando anedotas engraçadas para meus amigos.
    Bj
    tye amamos.

  3. Querida Ir. Fabíola,
    O abraço é o gesto mais simples e profundo nas relações humanas. Um abraço cura, um abraço faz com que vivamos o que a outra pessoa está sentido. Se é amor, somos contagiados por tão firme sentimento; se é tristeza, o abraço nos envolve da vontade de ser útil, de ser presença.
    Feliz por tua publicação!
    Grande abraço!

  4. Pandemia medonha, na realidade. Sentimos falta de tantos abraços que hoje nos impedimos de dar e receber. Outros, no entanto, foram privados de receber tantos abraços de seus entes queridos em momentos terminais; outros tantos, impedidos de doá-los. A pandemia nos impõe a limitação corporal, mas não devemos perder a sensibilidade. É preciso manter sempre viva a consciência cristã, sem perder de vista a atuação ética, política e estética. Paz e bem! Parabéns, Ir. Fabíola!

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