Belezas e fragilidades da Mata Atlântica

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São Paulo (SP), uma das maiores cidades do mundo, está na Mata Atlântica

Por Carmen Maria Pulga

A Mata Atlântica talvez seja um dos biomas onde a relação entre a natureza e os avanços do progresso mais se conectam. Muitos têm a falsa impressão de que a Mata Atlântica está restrita àquelas grandes áreas de florestas distantes das cidades. Na verdade, ela está muito próxima de nós. Somos 145 milhões de pessoas que habitam 3.429 cidades do bioma, entre elas algumas das maiores do País, como Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), Salvador (BA) e Curitiba (PR).

Originalmente, a Mata Atlântica cobria mais de 131 milhões de hectares do território nacional; hoje, esse ecossistema está reduzido a 7% de sua extensão original. Infelizmente, não temos mais florestas primárias, apenas uns poucos e pequenos fragmentos de mata.

Para sabermos quais são os 17 estados inseridos no bioma, basta pensarmos naqueles que são banhados pelo Oceano Atlântico, do Rio Grande do Sul ao Ceará, além de Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Goiás e Piauí. Hoje, restam 16 milhões de hectares do que um dia foi floresta. Os motivos para tamanha devastação recontam a própria história do Brasil.

Um país diverso e fecundo

Desde sua descoberta, o Brasil encanta qualquer um por suas belezas naturais. Quando Pero Vaz de Caminha chegou à costa do território brasileiro, maravilhou-se com tudo o que viu. Descreveu minuciosamente os indígenas, a flora, a fauna e as águas que tinha diante dos olhos. Estava de tal forma maravilhado que, ao final da carta, escreveu literalmente ao rei de Portugal: “Águas são muitas, infinitas. Em tal maneira graciosa a terra que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!”.

Alguns anos mais tarde, após a chegada dos colonizadores, começa a ocupação e a exploração do paraíso descrito por Pero Vaz de Caminha. Com o decorrer da história, os colonizadores avançam para o interior de nosso território como aventureiros e conquistadores. Conhecem um país continental com imensa variedade de formas de vida e extensos mananciais de água.

Chegou o progresso e, com ele, muitos problemas. Por exemplo, a crise hídrica que assolou o Sudeste do Brasil em 2014 e 2015, região de domínio da Mata Atlântica, pegou de surpresa os moradores da região. As pessoas acostumadas com a falsa sensação de abundância de recursos naturais não conseguiram entender a crise.

Segundo a coordenadora da Rede das Águas da Fundação SOS Mata Atlântica, Malu Ribeiro, a cobertura florestal nativa na bacia hidrográfica e nos mananciais que compõem o Sistema Cantareira, centro da crise de abastecimento, foi uma das principais causas da falta de água. Restam apenas 488 quilômetros quadrados (21,5%) de vegetação nativa na bacia hidrográfica e nos 2.270 quilômetros quadrados do conjunto de seis represas que formam o Sistema Cantareira.

Kelly Lacy – Pexels

A degradação da nossa Casa Comum

O desmatamento dessas áreas não é a única causa da seca, mas uma maior cobertura vegetal evitaria o esgotamento dos reservatórios, ou seja, os impactos seriam muito menores. As áreas verdes, sobretudo as matas ciliares, aquelas que ocorrem nas margens dos rios e mananciais, protegem as nascentes e todo o fluxo hídrico.

Nos últimos 50 anos, a Mata Atlântica vem sendo destruída de forma acelerada para dar lugar ao desenvolvimento. A degradação por esgotos, agrotóxicos, resíduos industriais e domésticos varridos das grandes metrópoles para os mananciais hídricos e outras tantas ações insensatas do ser humano com o meio ambiente comprometem nosso futuro.

Na opinião de Maurício Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil (Fundo Mundial para a Natureza), a sustentabilidade, no que diz respeito à conservação florestal, é uma das questões-chaves para definir o futuro que queremos projetar para as atuais gerações. “As escolhas que fizermos agora dirão se teremos futuro – ou não.”

O modelo de ocupação do território adotado até agora no Brasil nos trouxe ao limite, expôs a nossa fragilidade e a necessidade urgente de promover mudanças.

Mas não basta apenas cobrarmos medidas preventivas de empresas e autoridades. Precisamos também colocar a mão na massa e ser agentes desses processos de preservação, conscientes, colaborativos, capazes de estabelecer relações amistosas, protetoras da vida e da natureza. O planeta Terra, nossa Casa Comum, tem pressa, é urgente nossa colaboração.

Carmen Maria Pulga é filósofa, teóloga, mestra em Novas Tecnologias da Comunicação e autora do livro A pétala, da Paulinas Editora. Gosta de arte, desde a culinária até a sucata, e ama ler os autores mais ecléticos.

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