Assobio: muito além do “fiu-fiu”

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O assobio como forma de comunicar ultrapassa povos e gerações

Por Luciana Rocha

comunicação
Luciana e a mãe, Maria das Graças. Crédito: Arquivo Pessoal

“A história do assobio teve início na infância da minha mãe, Maria das Graças Pereira de Souza, que sempre cantarolava e assobiava enquanto trabalhava na roça. Sempre sorridente, encantava a todos com seu jeitinho único de assobiar. Nem sempre sabia as letras das músicas, mas assobiava lindamente. Eu comecei a me comunicar com minha mãe pelo assobio após meu casamento, pois passávamos muito tempo sem nos ver, e, quando ela chegava, assobiava ‘querida, cheguei’, e eu respondia da mesma forma!” Este relato cheio de afeto e memórias é da empresária Luciana Pereira de Souza Braga, que conta a forma de se comunicar com sua mãe. 

O assobio foi e é, até hoje, uma marca registrada em culturas, povos e gerações. Segundo o dicionário, o assobio nada mais é que um som agudo e prolongado que o ser humano pode produzir e que acaba chamando a atenção. Logo, quando uma pessoa deseja ser percebida, o assobio surge como uma ótima forma de chamar essa pretendida atenção. 

De acordo com a linguista e consultora em comunicação Rafaela Lôbo, é natural que familiares e amigos se comuniquem por meio dele. “Mas o assobio também é usado até entre desconhecidos, quando, por exemplo, uma pessoa está na rua e outra assobia a ela para indicar algo. O importante é se certificar de que o outro está não só compreendendo como também se sentindo bem com essa forma de comunicação”, ressalta. 

Histórico do assobio

Para a psicóloga Telma Maria de Oliveira Gomes, o assobio é uma forma de linguagem bem inusitada. “A linguagem assobiada e o desenvolvimento da sua prática envolvem destreza com assobio, pois é utilizado no lugar das palavras.” Ela explica que esse tipo de comunicação se faz presente desde os tempos mais remotos, além de ser muito utilizado em alguns lugares do mundo, principalmente nos povoados das regiões montanhosas e de difícil acesso. “Na Turquia, nas cidades montanhosas de Kuskoy, a prática se tornou muito usada, tornando-se conhecida por grande parte da sua população”, explica.

ASSOBIO
De acordo com a linguista e consultora em comunicação Rafaela Lôbo, é natural que familiares e amigos se comuniquem por meio assobio. Crédito: Arquivo Pessoal

Rafaela Lôbo explica também que o assobio é uma forma de linguagem que provavelmente se iniciou muito antes do surgimento de qualquer língua, ainda na ancestralidade humana. Isso porque é muito simples o ser humano emitir esse som, que é, inclusive, inteligível em qualquer cultura. “Claro que em culturas diferentes ele pode ser mais ou menos utilizado, mas é um fenômeno simples e até bastante preciso, quando se fala em linguagem humana”, ressalta. 

Moradores de uma ilha espanhola chamada La Gomera usam o assobio como uma forma de comunicação complexa e emitem tons de assobio diferentes para se comunicar. Isso porque, quem mora na ilha, mora longe e os vizinhos enfrentam a geografia emitindo sons longos. Nesse local, as crianças aprendem a assobiar em casa e na escola. 

Não é possível saber exatamente quando começou o uso do assobio. “Alguns relatam que foram marinheiros que imitavam sons de apitos para se comunicar durante tempestades; outros dizem que era uma tentativa de os homens tentarem imitar os sons de animais. Mas, por ser uma linguagem e não uma língua, como linguista, suponho que o assobio tenha surgido antes de qualquer língua e, nessa teoria, podemos imaginar que, por ser uma forma de linguagem milenar, ele exista desde os homens das cavernas e pode ser usado tanto de forma positiva quanto negativa. Por exemplo, para chamar a atenção de alguém que vai se acidentar, podemos emitir um som mais curto, agudo e direto. Já para alguém que deseja relaxar, é possível assobiar até cantando. Há também o ‘fiu-fiu’, que tanto incomoda muitas mulheres, por associá-lo ao assédio sexual”, destaca Rafaela. 

Reconhecimento

“Em casa nunca teve esse ritual de chamar as pessoas por assobio. Adquiri esse costume com um amigo meu, pois o pai o chamava pelo assobio. Ele poderia estar em qualquer canto, parava, escutava o assobio e sabia que era o pai”, relata o empresário Cássio Luiz da Silva. 

De tanto presenciar, Cássio gostou da ideia do assobio. “Quando tinha 21 anos, minha primeira sobrinha nasceu e a primeira coisa que eu ensinei foi ela reconhecer meu assobio. Toda vez que eu assobiava, ela levantava a mãozinha ou chamava quem estava próximo. E virou costume na minha família! Quando eu assobiava, minha mãe, meus primos, amigos, já sabiam que eu estava chegando. Sou de São Paulo, constituí minha família em Minas Gerais, e minha enteada já entende esse sinal de assobio. Tenho uma filha hoje com 3 anos, e ela já levanta a mão, vem correndo. O mais interessante é que eu assobio diferente para minha família de São Paulo, minha família de Minas Gerais e meus amigos. Todos sabem que sou eu, independentemente de onde estiver.”

As formas de uso do assobio são inúmeras e o mais interessante é que são bastante inteligíveis entre grupos diferentes. “Morei na Inglaterra durante um ano e conheci um estrangeiro de origem árabe que também havia se mudado, mas ainda não falava inglês. Quando precisava comprar algo e queria dizer para o vendedor que a quantidade era suficiente ou que ele gostava de algo, ele emitia um assobio duplo. Sempre funcionava”, destaca Rafaela Lôbo.

Animais

Outros animais também assobiam, e pesquisas relatam que os golfinhos também usam o assobio para se comunicar. Na casa da chocolatier Laiz Lopes Carneiro Verdasca, um papagaio fez as vezes no assobio. Laiz conta que ela e o marido possuem uma chamada e uma resposta há mais de dez anos. “Quando ele chega em casa, abre a porta, assobia, e eu assobio respondendo que ouvi que ele chegou. Quando a gente vai ao supermercado e se separa nos corredores, a gente assobia para se encontrar. Era assim também no shopping, nas lojas. Temos uma chocolataria, trabalhamos juntos e assobiamos o dia todo por aqui. A gente morava em apartamento e o vizinho tinha um papagaio. Só que o bichinho começou a assobiar e a gente começou a se confundir. A gente ouvia e achava que era um chamando o outro. Depois descobrimos que era o papagaio”, conclui Laiz. 

Luciana Rocha é jornalista, especialista em Jornalismo e Práticas Contemporâneas e mestra em Comunicação Social e Tecnologia. É mãe da Beatriz, acredita no bem e sonha com um mundo mais humano e justo. Deus sempre em primeiro lugar!

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