Centenário do Modernismo celebra a
legítima Arte Brasileira

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Na Semana de Arte Moderna de 1922, artistas brasileiros se reuniam para iniciar o processo que promoveu a afirmação nacional para além da cultura

Por Cristiane Del Gaudio

Conhecidos como vanguardistas, nomes como Mário de Andrade, Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Oswald de Andrade, Heitor Villa-Lobos, Victor Brecheret e tantos outros, respeitados no meio intelectual, organizaram um movimento que marcou definitivamente a produção artística no Brasil. Era fevereiro de 1922, quando se reuniram em São Paulo para realizar o que ficou registrado no calendário histórico como a Semana de Arte Moderna de 22. O evento provocou diversas manifestações que mostravam a verdadeira identidade artística brasileira, marcada por regionalismos e por trazer a tendência modernista que também ocorria na Europa, principalmente a partir da França, onde surgiram vários movimentos, como Surrealismo, Futurismo, Cubismo, Dadaísmo, Expressionismo e Vanguarda Russa.

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Márcio Amêndola de Oliveira, jornalista e historiador. Foto: Arquivo Pessoal

Durante a Semana de 22, realizada no Theatro Municipal de São Paulo, surgiram produções nas artes plásticas, na literatura, na música e na dramaturgia, que valorizavam o caráter popular e típico, rompendo com padrões estabelecidos. Foi o primeiro passo para mostrar a personalidade própria dos brasileiros.

Como conta o jornalista, historiador e escritor Márcio Amêndola de Oliveira: “O movimento se propunha a realizar uma revisão crítica do passado colonial brasileiro; abandonar a estética rebuscada e arcaica da arte clássica academicista; valorizar a identidade nacional; buscar a originalidade, contra a ‘cópia’ estética rígida e repleta de regras literárias e gramaticais na literatura, e a pintura e escultura acadêmicas […]. Isso levou a um ‘racha’ no movimento, surgindo o ‘Manifesto Pau-Brasil’, de Oswald, mais anárquico e que leva em conta as contribuições indígena e africana; e outro mais nacionalista, chamado ‘Movimento Verde e Amarelo’, tendo à frente figuras polêmicas, como Plínio Salgado”.

Novas referências

Os modernistas ficaram marcados como questionadores dos padrões da Arte mantida pela elite brasileira. Mas os efeitos foram além do campo artístico-cultural. Ao abrir caminhos para a cultura legitimamente brasileira, o movimento acabou tendo “relevância intelectual no aspecto ideológico, porque, em termos políticos, foi importante, pois preparou o terreno estético e ideológico para a Revolução de 1930”, segundo avalia Martim Vasques da Cunha, doutor em Ética e Filosofia política pela Universidade de São Paulo (USP).

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Martim Vasques da Cunha, filósofo e escritor. Foto: Divulgação

Martim considera que, artisticamente, a realização do evento representou para as demais capitais brasileiras “a criação artificial de uma identidade nacional, feita de cima para baixo e que justificou, na área artística e cultural, a importância da interferência do Estado na imaginação do cidadão comum”. Passados cem anos, o filósofo defende outra compreensão do que foi a Semana de 22: “O Modernismo Brasileiro é, sem dúvida, o Cânone Acidental (para usar uma expressão do poeta Marco Catalão) da literatura brasileira”. Para ele, “o Modernismo solidificou o mecanismo de cooptação da consciência dos intelectuais em função de um projeto de poder disfarçado de hipocrisia ideológica, seja do espectro da direita ou da esquerda”.

A Semana de Arte Moderna de 1922, apesar de ter sido um evento paulista, a princípio, deu o tom de todo um século de inovações na arte, não apenas na literatura, e nos costumes de uma cidade e de um país, que até então era provinciano, agrário e escravocrata. “Hoje, em que pesem os retrocessos que temos visto, o Brasil é um país plural e multicultural, com influências artísticas e estéticas do mundo inteiro. Foi uma das grandes chaves dessa transformação, contra todas as regras e limitações impostas por uma cultura de elite praticada anteriormente. Ela possibilitou a transgressão e a liberação de amarras estéticas atrasadas, e a arte conquistou as ruas, e nisso foi revolucionária”, conclui Márcio Amêndola de Oliveira.

Reflexos no Brasil

O Modernismo se espalhou pelo país, por meio de eventos, manifestos e publicações impressas, como as revistas Klaxon (1922-23) e Estética (1924-25), no Rio de Janeiro, dirigida por Sérgio Buarque de Holanda e Prudente de Moraes Neto. Outro destaque da época foi o Grupo Modernista Regionalista, surgido em Recife (PE), liderado pelo sociólogo e escritor Gilberto Freyre, que reunia ainda Graciliano Ramos e Jorge Amado. Do Sul do Brasil surge Érico Veríssimo, por exemplo, e em Minas Gerais João Guimarães Rosa, que revoluciona o romance, usando o regionalismo como pano de fundo. Em Natal (RN), Luiz da Câmara Cascudo integrou a face mais conservadora do Modernismo, participando de publicações regionalistas denominadas Terra Roxa e Outras Terras.

Programação das celebrações

Como tudo aconteceu a partir de São Paulo, as agendas do governo e do município de São Paulo são as principais nas comemorações. A programação envolve vários espaços culturais da cidade, além de algumas atividades virtuais, tornando tudo mais acessível:

– O Projeto Modernismo Hoje, do governo de São Paulo – Programação no Theatro Municipal, com cortejos modernistas, bailes futuristas e banquetes antropofágicos.

– O SESC apresenta atividades em audiovisual, cursos, música e lançamento de livros, com o Diversos 22: programação do Sesc celebra centenário da Semana de Arte Moderna.

– A exposição Fantoches da meia-noite, na Casa Mário de Andrade, é um evento gratuito, que vai até fevereiro de 2022, com agendamento pelo site.

– O Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, desenvolveu uma plataforma interativa de visitação remota para a mostra Brasilidade Pós-Modernismo. A visita virtual pode ser acessada por meio deste link (em português e inglês).

– A Exposição Era Uma vez o Moderno, no Centro Cultural Fiesp (Av. Paulista, 1313), tem mostra gratuita até 29 de maio de 2022. Mais informações e agendamento pelo site www.sesisp.org.br/eventos.

Márcio Amêndola de Oliveira, para dar o tom do que foi esse período, com toda sua violência e inventividade, apresenta como exemplo um trecho de um dos poemas mais famosos de Mário de Andrade, de seu livro Paulicéia Desvairada, lançado em 1922, justamente o ano da famosa Semana de Arte Moderna:

  Ode ao Burguês

  Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,  o burguês-burguês!  A digestão bem-feita de São Paulo!  O homem-curva! O homem-nádegas!  O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,  é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!  

Cristiane Del Gaudio é jornalista há quase trinta anos, especializada em sustentabilidade industrial; assessora de imprensa na área editorial e aspirante a calígrafa. É mãe do Vinícius e faz parte do Movimento Missionário de Emaús @emaussp.

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