A vizinha do apartamento 905

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O apartamento é minha proteção contra o vírus. Daqui protejo a mim, a quem amo e aos que não conheço

Por Jusciane Matos

Olá, eu sou a vizinha do apartamento 905 e não estou aqui para pedir uma xícara de açúcar, apesar de que estamos mesmo precisando de uns docinhos ultimamente. Me permitam uma breve apresentação: meu nome é Jusciane Matos, baiana, filha de baianos e que ainda pequena veio para Brasília com os pais em busca do sonho de todos os nordestinos: melhorar de vida. O que ninguém avisou é que se manter em Brasília não é fácil, o custo de vida é alto e o mais adequado a fazer é partir para as extremidades. Assim, fomos parar em Águas Lindas de Goiás, quase 50 quilômetros fora do nosso destino. Cresci por ali, no entorno da Capital Federal. Hoje tenho 31 anos, sou jornalista, moro sozinha com dois gatos no apartamento 905, em uma periferia de Brasília.

Um ano após ter conquistado meu espaço, morando sozinha, totalmente adaptada à rotina de trabalho, casa, leituras, encontros com amigos, o maravilhoso samba depois do expediente na sexta-feira, ou seja, tudo que desejamos quando pensamos em morar sozinhos, veio o que estamos vivendo hoje. Eu tinha muitos planos para quando chegasse aos trinta anos e, com certeza, nenhum deles incluía viver uma pandemia.

Talvez você tenha clicado neste artigo para encontrar uma resposta ou um caminho e seguir, diante das tantas loucuras destes tempos. Vírus, mortes, falta de vacinas, aglomerações, crimes ambientais, crimes contra a vida, chacinas… Talvez você esteja buscando um alívio para essas dores, e eu já o aviso que é muito provável que essas expectativas sejam frustradas. Eu e você somos iguais, com as mesmas dores e inquietações. E eu vou piorar um pouco mais a situação. Não somos apenas eu e você. Estamos todos inquietos, angustiados e procurando respostas. Creio que ninguém as tenha, porque não existem respostas, apenas um caminho a percorrer. 

Covid-19
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Esta moradora do 905 aqui passou por todos os momentos que a pandemia exigiu. De dores, raiva, angústia, lives e jantares sozinha à base de vinho e R&B. Adotou dois gatos que animam dias e noites. Fez cursos e assistiu a vídeos que iam desde stand up à psicanálise. Mas só consegui fazer tudo isso por causa do privilégio que tenho de estar em um trabalho que me possibilita o home office, receber meu salário integral, evitar o transporte público e continuar produzindo. Não raras vezes esse privilégio dói, me sinto mal por estar bem, surto de ansiedade e não durmo, trabalho muito mais horas para compensar um pouco do que sinto. Não adianta. Eu tenho esse privilégio e isso não é bom. Não é bom porque privilégio significa que outras pessoas não têm acesso a ele. E se eu tenho privilégio em me alimentar bem é porque… Deixo esta frase para vocês completarem.

Eu estou cansada, fisicamente cansada, moralmente cansada, politicamente cansada, mentalmente cansada. Sou uma jovem de 31 anos cansada, como todos vocês que estão lendo. E, como alguns de vocês, me culpo por estar assim, me culpo quando não dou conta de alguma tarefa. Afinal de contas, estamos na pandemia e era para estarmos ociosos, já que a ideia é manter o afastamento social, evitar as aglomerações, cancelar as festas, o happy hour… Mas passar 10, 12 horas por dia diante da tela, seja do celular ou do computador, tem arrasado minha coluna, ombros, olhos, mente, coração e alma. A cada atualização dos noticiários, fico mais cansada. Exausta, na verdade. E a culpa por estar assim vem, afinal de contas, sou uma mulher branca com bom trabalho, podendo trabalhar de casa, manter os gastos e os gatos e, vez ou outra, fazer uma brincadeirinha dessas para descontrair. O alívio de nunca ter perdido ninguém me permite isso. O alívio de nenhum dos meus estarem com fome permite que eu acorde sorrindo. O peso do mundo está sob nossas costas e é muita coisa. Os privilégios são exaustivos, inadequados, indevidos. Privilégio é sempre assim.

Descobri, por meio das redes sociais, nestes quase um ano e meio, que não posso ficar feliz, porque “como uma pessoa pode estar feliz com tudo o que está acontecendo?”, como se a minha felicidade fosse por causa dessa situação. E, ao mesmo tempo, eu não posso ficar triste, porque tenho que manter minha saúde mental em dia. Eu fiquei feliz e triste muitas vezes, inclusive no mesmo dia. Me solidarizo e sofro por toda pessoa que morre por causa desse vírus, para o qual não existe cura. E também me mantenho feliz por acordar respirando sozinha, caminhar e poder praticar exercícios físicos, me alimentar e lavar as mãos. Ter emprego fixo. São alegrias diárias que mantêm minha saúde mental em ordem, ou ao menos estou tentando. Ter esperança, não aquela do verbo ESPERAR, mas do ESPERANÇAR de Paulo Freire, a esperança que move, mesmo dentro dos meus 73 metros quadrados de apartamento, dividido com dois gatos.

Não acredito no acaso. Acredito na necessidade das experiências. Não na necessidade diretamente de uma pandemia, mas em olhar para tudo o que estou vivendo. Daqui de dentro do 905, me alegro com cada país que imuniza grande parcela da população e dispensa as máscaras, abre as fronteiras, ao mesmo tempo que choro por nossa realidade ser tão diferente.

O apartamento 905 é minha proteção contra o vírus. Daqui, me protejo, protejo quem amo e aos que não conheço. Falar sobre a pandemia é falar sobre os sentimentos. TODOS OS SENTIMENTOS. Sinto, sinto muito.

Jusciane Matos, mulher, baiana, produtora de documentários e escrevente de sentimentos. Sinto muito, Deus me livre da indiferença! Aprendiz de ser humano com os gatos mestres Cosme e Damião. Instagram: @juscianematos

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