A vossa libertação está próxima

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1º Domingo do Advento

Evangelho – Lc 21,25-28.34-36

Por Zuleica Silvano, fsp

O tempo do Advento vem à contramão do ritmo acelerado em que vivemos, no qual perdemos gradativamente a capacidade de esperar, mesmo em tempo de pandemia. É a ocasião da espera fecunda, esperançosa, diante de tantas realidades doloridas presenciadas no decorrer deste ano. É o momento de contemplarmos a certeza da vinda do Senhor nos gestos de solidariedade e na vivência da justiça e da paz, e de anunciar, diante da realidade de opressão, que a “nossa libertação se aproxima”.

A vinda do Filho do homem

O texto de Lc 21,25-28.34-36 contém uma linguagem apocalíptica, principalmente utilizada em contextos difíceis, como é o do Evangelho segundo Lucas, escrito após a guerra judaica, sendo um tempo marcado por conflitos.

Lucas, diferentemente dos outros evangelistas, não sublinha as catástrofes cósmicas, mas a reação das pessoas diante dos acontecimentos (cf. vv. 25-26). Ele também abrevia a descrição da Parusia (cf. v. 27) e acentua o sentido positivo para os cristãos dos eventos que precedem a vinda do “Filho do homem”.

Após os abalos cósmicos contra as nações que se opõem ao projeto de Deus (cf. vv. 25-28), é prometida a salvação para aqueles que permaneceram fiéis. Esse texto, provavelmente, tem a intenção de ajudar as comunidades a avaliar os conflitos que estão vivendo, a animá-las para não desistirem do projeto de Deus, a continuar testemunhando e esperando a libertação. Portanto, têm a finalidade de sustentar a esperança cristã, de alimentar a fé na presença do “Filho do homem” e de reforçar a soberania de Deus como Criador, Redentor e Senhor da história.

Vinda de Jesus
Cathopic/Parroquia Madridejos

Em um cenário marcado pelos abalos cósmicos, surge o “Filho do homem” (cf. v. 27), que é descrito com atributos divinos e com a missão de manifestar o poder e a glória de Deus, de julgar aqueles que se opõem ao seu projeto (cf. vv. 25-26) e de libertar aqueles que são fiéis (cf. v. 28).

Lucas dá prioridade à ação salvífica do Filho do homem e afirma que, apesar dos acontecimentos serem descritos de forma terrível, para os cristãos são sinais de esperança, da proximidade da libertação, da garantia da salvação.

Desse modo, o “Filho do homem” virá para assegurar a vitória da vida sobre a morte e possibilitar a humanidade o reconhecimento da soberania de Deus.

A expressão “esse dia” (cf. vv. 34-35) é típica dos profetas para falar do “dia do Senhor”, e aqui é identificado com a vinda de Cristo. As exortações à vigilância e à oração (cf. vv. 34-36) têm a finalidade de alertar os cristãos para o risco de se perderem no que é secundário, e, amedrontados, perderem a capacidade de discernir a vontade de Deus e de enxergar a sua manifestação nessa realidade. Essas exortações também servem para nossos contextos familiares, dado que as dificuldades podem distorcer nossa capacidade de refletir e agir de forma ponderada.

Humanização de nossas relações

Neste tempo de Advento, somos convidados a perceber nossas infidelidades ao projeto de Deus, a reafirmar nossa esperança e a acreditar na libertação de todo tipo de opressão. Mas é necessário nos mantermos firmes, perseverarmos no seguimento de Jesus e progredirmos na vida cristã em nossa casa, em nosso trabalho, em nossas relações. É o tempo de reavivar nossa vocação à santidade, que consiste nesse processo contínuo de humanização de nossas relações. Diante desse tempo, podemos nos perguntar: como estou cultivando a força do amor, que permite lutar contra o mal que ameaça a vida familiar?

Quais aspectos deste texto podem nos ajudar a avaliar nossas dificuldades, conflitos, e a animar nossa vida para permanecermos firmes no projeto de Deus?

Zuleica Silvano é irmã paulina; doutora em Sagrada Escritura; assessora no SAB (https://paulinascursos.com/sab/); pertence ao departamento de Teologia da FAJE (Faculdade Jesuíta de Teologia e Filosofia); e é autora de diversos livros, dentre os quais: Carta aos Gálatas: até que Cristo se forme em nós (Gl 4,19), lançado por Paulinas. É também coordenadora do Grupo Shema’, que elaborou o subsídio do Mês da Bíblia de 2021 – Carta aos Gálatas: “Todos vós sois um só em Cristo Jesus” (cf. Gl 3,28d).

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