Adolescência e lutos

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Para compreender o luto dos pais na infância

Por Bernadete Campolina

Na adolescência, percebe-se que o jovem passou por um processo de transformação corporal no período da puberdade, entre 10 e 12 anos de idade. Torna-se prudente lembrar que a puberdade, com o conjunto de mudanças corporais e biológicas, pode variar devido à genética de cada indivíduo e a fatores ambientais (qualidade de nutrição, cuidados com a saúde e condições gerais de vida). É na puberdade que o corpo da criança se transforma em um corpo adulto.

O resultado dessa transformação do corpo infantil para o corpo adulto gera diversas consequências psicológicas. O jovem sente medo de que haja algo anômalo em seu desenvolvimento físico; sente-se feio, deselegante, muitas vezes inadequado em comparação com seus pares.

O sofrimento é frequente porque imagina ou percebe que o colega da mesma idade ri dele e o critica. Na maioria das vezes, o adolescente pode também sentir ansiedade, pânico, inibição e insegurança por parte dos olhares das pessoas, como familiares, vizinhos, professores e até mesmo desconhecidos que o veem em algum lugar que ele frequenta, por exemplo, academia, salão de beleza, campo de futebol, praia, cinema, shopping center etc.

Esse rito de passagem do corpo da infância para o corpo adulto, que é universal na espécie humana, causa muitos sofrimentos, e o adolescente, muitas vezes, não consegue entender, nomear ou elaborar o que se passa com ele. Essa vivência é o que muitos estudiosos chamam de luto do corpo infantil.

Esse luto, ou perda, do corpo infantil não pode ser quantificado porque cada adolescente vai vivenciá-lo de acordo com os afetos, dedicação e motivação que recebeu de seus pais na infância e com a experiência e vivência afetiva que obteve no início de sua vida escolar.

Por outro lado, a adolescência é também um fenômeno social, uma vez que o jovem busca interações pessoais fora do núcleo familiar. Os adolescentes têm a tendência de ampliar seu grupo social com seus colegas ou “tribos” para conversar, principalmente, a respeito de suas próprias mudanças físicas.

É relevante também dizer que os grupos, inicialmente, se formam tendo como critério pessoas do mesmo sexo ou gênero, porque o adolescente quer observar e sentir se seus amigos vivenciam o mesmo que ele.

Esse rito de passagem do corpo da infância para o corpo adulto, causa muitos sofrimentos, e o adolescente, muitas vezes, não consegue entender
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Muitas resenhas, ou encontros sociais, são promovidos com o intuito de compartilhar experiências, como o modo de dançar, procrastinação escolar, Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), escolhas profissionais, lazer, sexo, religião, política, machismo e feminismo. Também conversam muito sobre os pais, os conflitos que têm com eles em casa. Sempre comentam que amam os pais, porém, diante de alguma avaliação moral, dizem que estão apenas fazendo o que seus pais já fizeram quando jovens.

Outro tema muito relevante entre eles é a percepção intensa de que crescer “dói”, de que quase não suportam as angústias que sentem com a adolescência, de que vivem um turbilhão de coisas novas. Junto disso, sentem muita preguiça e desânimo para tomar posse desse corpo que exige deles diversos papéis e responsabilidades para se tornarem adultos, o que, para alguns autores, chama-se de adultescer. Essas experiências os levam a ter de assumir novos compromissos e responsabilidades.

Assim, é comum, na adolescência, haver certo desejo de regredir à época infantil, em que estavam, nos melhores casos, sob total responsabilidade parental. São tantos os desafios, que o conforto da infância pode se tornar uma reminiscência dolorosa, já que não há como voltar no tempo. Esse fenômeno é chamado de luto dos pais da infância, ou seja, é o desejo ou fantasia de proteção, segurança ou afeto garantidos pelos pais da infância.

Dependendo da intensidade dessa vivência, o adolescente pode apresentar diversos sintomas, como depressão, inibição ou mutismo, dificuldades escolares, anorexia ou bulimia, drogadição e transgressões de formas diversas. É um momento muito delicado que exige paciência, apoio e carinho parental e escolar.

Bernadete Campolina é psicóloga clínica e orientadora profissional. Gosta de ler, escrever, estudar e contar histórias. Ama plantar e cultivar buganvílias. Tem 65 anos, mas se sente uma criança, devido aos muitos sonhos que deseja realizar.

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