A importância espiritual da vassoura

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Há um conhecimento espiritual da vida (conhecimento de nós próprios e de Deus) que nos vem apenas pela entrega prática e voluntária ao serviço

Por José Tolentino Mendonça

Ficaram embasbacados com o título? Escutem, então. Uma vez ouvi de um monge que o modo mais rápido de nos adaptarmos a uma nova situação de vida é pegar numa vassoura. Ele contava com realismo que, ao longo da sua existência, tudo lhe custou: chegar a um mosteiro novo, começar um novo ciclo, uma estação diferente, iniciar-se numa etapa seguinte do caminho. Mas que a vassoura (de modo literal ou figurado), melhor que qualquer outra coisa, foi a facilitadora indispensável em cada um desses momentos. Fiquei a pensar nisso.

É uma importante aprendizagem a que nos faz preferir a vassoura à cadeira, à cela ou ao cetro. A vassoura tem um registro humilde, é verdade. E, não raro, desarma tanto as nossas expectativas e idealizações de que partimos como as disposições bem-arrumadas do protocolo social. Porém, o conhecimento que ela nos oferece é imediato, flagrante, concreto, focado no minúsculo, atento aos detalhes, colado ao espaço da existência e ao seu cotidiano ritmo.

Podemos conhecer de muitas maneiras uma determinada realidade, mas nunca a conheceremos de forma tão certeira como aquela que nasce do investimento do nosso cuidado. Cuidar é, no fundo, aquilo que nos permite conhecer. Os planos que vamos construindo de um ponto de vista mais teórico ou mais distanciado têm seguramente a sua relevância e oportunidade, mas não podemos esquecer que, em si mesmos, são ainda mapas aproximativos.

As ideias valem muito: não valem, contudo, só por si. Precisam daquela adequação que só a prova da aplicabilidade lhes traz. Precisam de gestos. Como dizia São Tiago, a fé, se não se traduzir em obras, perde o seu potencial de fecundidade, torna-se morta em si mesma (cf. Tg 2,17). Uma relação mais plena, mais dialógica, mais incisiva tem início quando, num gesto mínimo como representa aquele de pegar numa vassoura, passamos de espectadores a interventores, atores engajados com a realidade.

Daniel Von Appen – Unsplash

Em momentos diferentes da nossa vida, quando não é claro o que podemos fazer ou por onde começar, estendamos por isso a mão a uma vassoura. A vassoura vai sujar-nos as mãos, é certo, mas vai também ensinar-nos, desse modo, uma imensidão de coisas às quais, de outra maneira, dificilmente chegaríamos. O poeta Charles Péguy escreveu, com razão, que, quando nos recusamos a sujar as mãos no cuidado da vida, acabamos rapidamente por ficar sem mãos.

De fato, vivemos muitas vezes sem mãos, perdemos as nossas mãos lá atrás em alguma etapa do caminho, esquecemo-nos do seu significado, da sua função, e, por anos e anos, não temos consciência disso. A vassoura – e o que ela simboliza – realiza também um providencial movimento de resgate em relação a nós próprios. Na verdade, as mãos que se dão também se descobrem como mãos, como operadoras do dom, como protagonistas da história.

As mãos que se dão escutam finalmente o seu idioma; compreendem que se cumprem não como afasia, mas como linguagem. Por isso, a vassoura tem tanta sabedoria a transmitir-nos: revela que o exercício prático do cuidado (a começar pelo cuidado ínfimo, cotidiano, elementar) nos permite, ao mesmo tempo, o reconhecimento do ponto onde estamos no mundo e em nós mesmos.

Acontece-nos a todos desistir de pensar na felicidade, porque a associamos, sob condição, a uma lista longa e desorbitada de fatores. O elenco dos “ses” que vamos somando torna a felicidade inacessível, e isso tem um preço: o de conformar a nossa visão com essa declaração de impossibilidade. A felicidade fica prisioneira do condicional e jamais se conjuga no tempo presente onde estamos nós. Um passo importante ocorre, porém, quando temos a coragem de reajustar os nossos motivos de gratidão e deslumbramento.

Recordo-me de um poema antigo que diz:

“Não posso ser mais feliz./ Vou buscar água ao poço. / E varro as folhas do meu pátio”.

José Tolentino Mendonça é um cardeal católico, poeta e teólogo português. Atualmente é arquivista do Arquivo Apostólico do Vaticano e bibliotecário da Biblioteca Apostólica Vaticana, na Cúria Romana.

1 COMENTÁRIO

  1. Gostei demais deste artigo do cardeal Tolentino!!! Na vida, não podemos ter medo ou nojo de sujar as mãos, se queremos ver uma transformação no mundo! Atitude!!! Fé sem obras de nada vale!!! Obrigada Família Cristã!!!!!

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